A quantidade de energia que poderemos desenvolver, para o bem estar, se não estivermos a trabalhar

Dimensão analítica: Economia, Trabalho, Governação Pública

Título do artigo: A quantidade de energia que poderemos desenvolver, para o bem estar, se não estivermos a trabalhar

Autor: José Murta Rosa

Filiação institucional: Director da EUIESA – International Entrepreneurship Sustainability Association (ONGD)

E-mail: mrosa@euiesa.eu

Palavras-chave: Robótica, Inteligência Artificial, Rendimento Básico Incondicional.

Na sociedade ocidental, o bem-estar está ligado ao crescimento o qual permite disponibilizar maiores rendimentos, em média, dado que não é para todos os seus cidadãos. O bem-estar está ligado a um maior consumo, de bens e serviços. Assim, quanto maior é o consumo maior é o bem-estar da sociedade. Para haver consumo é preciso haver mercado e este faz-se de pessoas.

A demografia é importante. “Mas apesar de não constar da agenda política, a demografia tem um forte impacto na economia: o crescimento do PIB é mais baixo nos países onde o aumento de população é menor” [1].

Sabemos como a Europa e Portugal, em particular, atravessam tempos difíceis no que respeita á demografia. Menos pessoas, menos crescimento. Temos assim um problema. A robotização, a electrónica e a inteligência artificial vêm colocar novas questões como: o que fazer às pessoas que irão ser substituídas pelas máquinas? Não consumindo os robôs, quem consome?

Aquilo que se avizinha, que poderá estar ao virar da esquina não sei se augura algo de bom. Falta de pessoas e despedimentos, numa primeira fase. Reconversão de pessoas, numa segunda. Trabalho em equipa entre humanos e robôs. Mas a questão é a de saber quem e quantos ficam de fora ou se haverá lugar para todos. E se ficam de fora não terão rendimentos. Quem consome?

Vide a Loja da Amazom, nos Estados Unidos, que não tem caixas registadoras para se proceder aos respectivos pagamentos. Nas nossas economias ocidentais, reduzir custos, em primeira instância, é reduzir postos de trabalho. Imagine as grandes superfícies a estudarem como poderão, rapidamente, prescindir dos colaboradores que estão hoje nas caixas registadoras. Claro que os investimentos devem ser elevados mas compensadores.

Com a entrada da electrónica, no nosso quotidiano, já nem precisamos de ir aos locais encomendar os produtos, porque isso será uma tarefa dos nossos “parceiros” robôs. Bastar-nos-á definir as listas das compras que eles farão as encomendas na internet.

Antevejo pequenas lojas com produtos para as pessoas poderem ir sentir a textura, ver a cor e as formas, em viagens de fim-de-semana, de final do dia, com os amigos.

Termos baixas taxas demográficas poderia ser uma solução mas constitui-se como um problema. Havendo substituição de pessoas o que fazer a todas aquelas que não estão no mercado activo de emprego? O que lhes fazer?

Teremos basicamente dois tipos de pessoas. Aquelas que não fazem nada porque nada têm para fazer, dentro do sistema económico onde estamos inseridos. Aquelas que irão fazer muito. São as super-peritas de alguma coisa e os seus desafios serão com os computadores.

Sem tempo, certamente, porque os computadores estarão 24 horas a laborar e se os quiserem acompanhar irão ter de esmerar-se, viverão a vida, admito, realizadas. Espero que sim.

As sortudas serão aquelas que, pouco competentes, desajustadas, não terão nada para fazer e contarão pouco para o PIB. “Vivemos num mundo onde o que conta é isto: quanto mais vital a ocupação (limpeza, cuidados infantis, ensino), menor é a sua parcela do PIB [2]. Estas, finalmente, poderão dedicar-se a outras coisas como olhar para os seus parceiros do lado, desenvolver ideias simples que não geram muito dinheiro mas bem-estar; poderão gastar o tempo a falar com outros sobre o nada. Experimentar novas coisas.

Imaginem uns milhões de almas a experimentar o que quer que seja dado que não tem nada para fazer. Imagino que deve ser uma energia fantástica. Uma espécie de “On de road”, dos nossos dias.

Bom e quem paga isto tudo? Parece-me simples, quem quer ganhar dinheiro. Para ganhar dinheiro precisa de haver consumo. Para haver consumo é preciso ter para gastar. Se não houver mercado a produção serve para nada.

Não sei se é por isso que o RBI – Rendimento Básico Incondicional, tem cada dia que passa aparecido mais nos nossos meandros comunicacionais. Os futuros pagadores, como ainda não encaixaram bem que vão ser eles a pagar (os que têm dinheiro, se quiserem ter mais) vão aflorando a questão e dizendo que o Estado não tem dinheiro para suportar um rendimento igual para todos os seus cidadãos.

Mas quem diz que é o Estado que vai ter de “entrar”? Num quadro de boa governação, só tem de pensar e regular porque a Informática, a Robótica a Inteligência Artificial, encarregar-se-ão de recolher as verbas necessárias para que o mundo continue a girar. É tudo uma questão de algoritmo.

Eu, pela minha parte, tenho fé neste novo paradigma. Nesse mundo futuro ligado na “Cloud” onde tudo está à distância de um click, onde os algoritmos serão criados por humanos ou por computadores haverá um conjunto de funções que não serão necessárias ser asseguradas por funcionários do Estado, logo, e finalmente, menos Estado e melhor Estado.

Assim, o papel do Estado estará bastante facilitado porque os algoritmos monitorizarão todos e todo o processo, cabendo ao Estado vigiar estes algoritmos, seguramente, com outros algoritmos, pelo que precisará de muito menos colaboradores que se poderão dedicar a outras coisas como já mencionei, acima, falar uns com os outros e passar a entender melhor o mundo.

Isto porque: “O mundo não me aparece enquanto tal, revela-se-me apenas através da comunicação dos diversos pontos de vista particulares acerca de si; o mundo só se torna visível como mundo comum, só revela a sua realidade, a sua identidade, escondendo-a na diversidade dos pontos de vista acerca de si” [3].

É por isto que é importante cada dia que passa sermos mais ensinados e formados para o desenvolvimento de conhecimento e competências relacionais para tornar as coisas comuns.

Notas:

[1] Bastos, Joana Pereira; Albuquerque, Raquel; Rosa, Sofia Miguel, Expresso de 17 Fevereiro de 2018 – Primeiro Caderno, pág 20 citando a Estudo da Fundação Robert Schuman.

[2] Bregman, Rutger (2018) Utopia para Realistas, Lisboa, Bertrand Editora.

[3] Roviello, Anne-Marie (1997) Senso Comum e Modernidade em Annah Arendt, Lisboa, Instituto Piaget.

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