Alimentação, família e juventude

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Alimentação, família e juventude

Autor: José Teixeira

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

E-mail: jose.teixeira@ics.ul.pt

Palavras-chave: alimentação, família, juventude

Reflectir sobre a alimentação do ponto de vista sociológico significa ultrapassar a visão que nos é recorrentemente imposta pela biologia, e que estabelece o sistema alimentar humano como uma rede de interdependências circunscritas à co-presença dos seres humanos e o meio bioquímico com que interage. Tal significa, por outras palavras, privilegiar a análise da alimentação a partir de um entendimento que a concebe simultaneamente como um sistema objectivo de relações de produção, distribuição e consumo, e como um conjunto de ideias, símbolos e significados onde o gosto, culturalmente contextualizado e socialmente construído, orienta as preferências dos indivíduos. A alimentação corresponde, à luz das teorias do consumo, à apropriação de bens e serviços no decurso de um conjunto de práticas reguladas, ou seja, à adequação dos bens alimentares às preferências dos indivíduos.

No período histórico anterior à institucionalização da democracia em Portugal, a alimentação era uma dimensão da vida social fundamentalmente a cargo das famílias, da criatividade e solidariedade emergentes nas ‘redes de provisão comunitárias’ e, em alguns casos, do assistencialismo proveniente de organizações filantrópicas como a Obra das Mães e a Mocidade Portuguesa. Os grupos rurais com menos recursos, desprotegidos socialmente, enfrentavam situações de carência e insegurança alimentar. Mais tarde, com a criação do Instituto de Acção Social Escolar, introduziram-se um conjunto de ‘biopedagogias’ orientadas de acordo com novos valores sobre o estatuto dos indivíduos (i.e. direito à infância e à saúde). A partir de então, o suprimento das carências alimentares da população e, mais concretamente, da população escolar, passou a ser mediado por um Estado mais ‘vigilante’.

A par destas transformações nos dispositivos de protecção social e controlo populacional, Portugal integrou um conjunto mais vasto de tendências assimétricas de modernização do tecido social que envolveram, entre outras transformações estruturais e culturais, a consolidação de uma sociedade de consumo e uma pluralização e diversificação das formas familiares. As práticas dos indivíduos, entre as quais as alimentares, passaram a estar mediadas por uma rede não só mais abrangente, mas também mais complexa e diversa de interdependências relacionais e de interferências estruturais.

A pluralização e multiplicação dos contextos sociais é, da mesma forma que o ‘risco’, uma das características da modernidade ocidental. Foi, aliás, no decurso do desenvolvimento das sociedades modernas que o discurso em torno dos comportamentos alimentares e da obesidade começou a ser cultivado. Este é um fenómeno que os media e os especialistas da saúde têm vindo a classificar enquanto ‘epidemia’, dada a prevalência de um conjunto de dados antropométricos categorizados como ‘excesso de peso’ e ‘obesidade’. Apesar das campanhas e dos ‘programas de sensibilização’ para a obesidade mobilizados pelo Estado – que procuram contrariar esta tendência – e, embora estes valores tenham reduzido ligeiramente em 2010, a prevalência deste fenómeno sugere alguma resistência face aos comportamentos promovidos como saudáveis e expectáveis.

Embora o Estado e o mercado possam ter emergido como dois intervenientes com grande poder sobre a alimentação dos indivíduos, a importância das redes comunitárias e domésticas de provisão de bens, serviços e afectos não podem ser menorizadas. É no âmbito da família que se estabelecem um conjunto de relações particularmente significantes em torno das práticas relacionadas, directa ou indirectamente, com a alimentação. Se por um lado o actual contexto de crise motivar o surgimento de movimentos sociais que procuram colmatar a retracção do Estado social na resposta dos direitos dos cidadãos – fazendo emergir a comunidade e a sociedade civil -, por outro lado a família continua a desempenhar um elevado valor simbólico no que diz respeito à alimentação. A família permanece um espaço comum onde são partilhados valores e experiências.

Ainda que o conceito de família designe uma pluralidade de formas de organização do agregado e de estilos relacionais, o que é importante no decurso da análise das práticas e dos conhecimentos alimentares é o facto de este ser um meio social quotidianamente (re)construído através de um conjunto de práticas mundanas, entre as quais as que se relacionam com a alimentação. As relações produzidas no âmbito das redes de provisão domésticas permitem a partilha e a negociação de quadros normativos de referência para a acção e expressam um conjunto de rotinas através das quais se recriam identidades que contribuem para uma certa manutenção da ordem social do consumo. Mesmo assim, essas relações podem pautar-se por tensões e conflitos. Estão em causa estruturas de poder hierárquico próprias de uma cultura familiar e de estruturas culturais mais amplas sobre as quais os indivíduos têm pouco controlo. Nesse sentido, as trocas familiares não são necessariamente simétricas. As mulheres, por exemplo, embora desempenhem uma posição de responsabilidade em relação à alimentação – ao cumprirem com um conjunto de tarefas elementares na organização da vida da família e dos seus elementos – têm pouca autoridade sobre as escolhas que produzem.

Além das questões de género, a geração (ou o grupo etário) é um factor de desigualdade e diferenciação. A infância deve ser compreendida como um fenómeno geracional ao qual correspondem esquemas culturais diferenciados e desiguais. Durante a infância, as crianças estão sujeitas a uma maior vigilância e controlo parental, o que condiciona o tipo de experiências que integram e o modo como as experimentam. Ainda assim, a agencialidade das crianças não deve ser nem excluída nem minorada, ou seja, as relações de parentalidade não devem ser exclusivamente perspectivadas a partir das dependências que se estabelecem. A parentalidade deve ser entendida como um contrato continuamente renegociado no espaço e no tempo e de acordo com o contexto social em que se insere. Por estes motivos – e outros que não me cabem enunciar neste curto espaço – as preferências dos indivíduos e a estruturação dos hábitos alimentares das crianças devem ser analisadas atendendo às práticas e aos valores partilhados na família.

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Uma Resposta a Alimentação, família e juventude

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