Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: “Parva que sou”… Se desacreditar na educação
Autora: Luísa Quaresma
Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
E-mail: quaresma.ml@gmail.com
Palavras-chave: Educação, Qualificações, Investimento escolar
A canção “Parva que sou” trouxe para a ordem do dia o tema do desemprego e da precariedade laboral da geração mais qualificada de sempre do país, suscitando-nos uma breve reflexão sobre a necessidade de continuarmos a acreditar e a investir no valor da educação. Concebida num quadro de estabilidade e de certezas, a escola vê-se hoje inserida numa sociedade regida pela lógica da incerteza [1] e pelo “medo dos amanhãs incertos” [2], parecendo incapaz de dar resposta às expectativas nela depositadas e aos novos desafios de empregabilidade impostos por uma economia global cuja competitividade assenta “numa procura constante da redução de custos ligados ao factor de trabalho” [3] geradora de desemprego e flexibilização. É neste cenário de cepticismo com o papel da escola no desenvolvimento societal e na melhoria das condições de existência dos indivíduos (ideal outrora propagado pelas teorias do Capital Humano) e é perante uma plateia que se adivinha jovem e qualificada que os Deolinda entoaram a música “Parva que sou”. Retratando o quotidiano de uma geração “à rasca”, esta canção deixou em apoteose um público que se vê com poucas perspectivas de futuro num país em crise económica, vivendo com desilusão o resultado do seu esforço escolar e revendo-se na anunciada profecia de que a inflação dos diplomas traria a sua desvalorização social [4].
É neste contexto, já por si só propício à adesão da juventude a um discurso de “desencanto” perante a escola, que a ideia de que “até para ser escravo é preciso estudar” nos suscita reservas. Sem pormos em causa a pertinência desta canção relativamente às problemáticas que afectam hoje a vida juvenil – como o desemprego, a precariedade laboral ou a proliferação de estágios não remunerados – lembraríamos, em primeiro lugar, que apesar da frustrante ausência de correspondência entre escolaridade e acesso ao mercado de trabalho, a escolarização continua a ser uma mais-valia em termos do aumento de oportunidades de melhoria de vida dos indivíduos e do desenvolvimento social. A qualificação, nomeadamente ao nível do Ensino Superior, assegura aos jovens um conjunto de vantagens difíceis de alcançar quando os níveis de escolaridade são menores. As estatísticas dizem-nos que os jovens licenciados são os que maiores probabilidades têm de aceder a postos qualificados no mercado de trabalho; são os que menos tempo permanecem em situação de desemprego; são ainda os que mais facilidade têm em mudar de emprego – regularidades sociais que não desmentem a existência de desajustamentos entre qualificações e profissões tão divulgados pelos media (a licenciada em Psicologia trabalhadora na caixa de supermercado ou o mestre em Direito empregado de café) mas que, a nosso ver, os relativizam.
É verdade que a escola de hoje está longe da eficácia da escola de outrora em assegurar ao seu público empregos consentâneos com as suas expectativas e as suas qualificações: os tempos eram de expansão económica, a procura de mão-de-obra qualificada era maior do que a oferta e ter um “canudo” era passaporte quase garantido para um bom emprego. Mas não podemos esquecer que o carácter elitista da educação deixava de fora dos bancos da sala de aula a maior parte da população escolarizável, numa dinâmica que tendia a reproduzir a estrutura social e produtiva e que só beneficiava, portanto, um número restrito. As largas franjas então excluídas da escola beneficiam hoje do acesso à educação e a ela devem as vantagens – atrás enumeradas – que detêm sobre os desempregados desqualificados. E se, hoje, “a escola não muda a sociedade, como inicialmente se supôs”, ela continua a ser “o contexto social com maiores probabilidades de concretizar alguma mobilidade social” [5], o que é, quanto a nós, razão suficiente para não nos deixarmos “embarcar” no discurso calamitoso e fatalista da inoperância da escola.
Por outro lado, este desencanto com as falsas promessas da escola “alimenta-se” de uma visão da educação que nos parece algo redutora, ao assentar numa perspectiva meramente utilitária da escola, encarada como um “bastidor” de preparação dos actores para singrarem na “palco” profissional. Ora, será que a missão da educação se esgota na sua eficácia em dar resposta às demandas do mercado do trabalho e às expectativas de âmbito profissional e social dos alunos?
Responder afirmativamente a esta questão significa, desde logo, não reconhecer que o saber – acessível, ainda para muitos, única e exclusivamente através da escola – também se justifica como um fim em si mesmo por constituir um inegável factor “de enriquecimento pessoal e de dignificação da pessoa” [6] em que, portanto, vale sempre a pena investir, independentemente do seu grau de adaptabilidade ao mercado de trabalho. Só assim se compreende, aliás, o direito à existência de áreas de formação que não vão directamente de encontro às necessidades do mercado laboral, como é o caso dos cursos de humanidades e de artes. Mas significa, igualmente, subestimar o papel que a escola cumpre na formação de indivíduos com maior pendor reflexivo e analítico, maior capacidade crítica, maior poder de autonomização, maior sentido de responsabilidade individual e social.
E assim sendo, não estarão os jovens dotados destas destrezas mais apetrechados para enfrentar um mundo em mudança e até para contestar esta (des)ordem económica -de que não são nem as únicas nem talvez as maiores vítimas – e lutar por vias alternativas, do que estariam se tivessem baixos níveis de qualificação como a geração dos seus pais? A resposta parece-nos óbvia, levando-nos a acreditar que até para “poder deixar de ser parvo” vale a pena apostar na educação.
Notas
[1] Canário, Rui (2005), O que é a escola?, Porto: Porto Editora.
[2] Fitoussi, Jean-Paul; Rosavallon, Pierre (1997), A nova era das desigualdades, Oeiras: Celta Editora, p.15.
[3] Kovács, Ilona (2005), Emprego flexível em Portugal. Alguns resultados dum projecto de investigação. In KOVÁCS, Ilona [et al.] – Flexibilidade de emprego. Riscos e oportunidades. Oeiras: Celta Editora. pp.11-53, p.49.
[4] Bourdieu, Pierre (2003), Questões de Sociologia, Lisboa: Fim de Século.
[5] Seabra, Teresa (2009), Desigualdades escolares e desigualdades sociais. Sociologia, Problemas e Práticas, 59, pp. 75-106, p.100.
[6] Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates, Porto: Âmbar, p. 51.




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