Sociedade e ambiente: a necessidade de mudar

Dimensão analítica: Ambiente, espaço e território

Título do artigo: Sociedade e ambiente: a necessidade de mudar

Autora: Susana Fonseca

Filiação institucional: Membro da Direção da ZERO e coordenadora da área de “sociedades sustentáveis e novas formas de economia”

E-mail: susana.fonseca@zero.ong

Palavras-chave: ambiente, mudança social, consumo.

Entrevista realizada por José Pedro Silva e Isabel Cruz.

1) Pensando no momento atual, mas também no futuro próximo, pedíamos-lhe que descrevesse os principais desafios ambientais enfrentados pela sociedade portuguesa.

Começando por uma abordagem global, podemos dizer que os principais desafios ambientais enfrentados pela sociedade portuguesa prendem-se com a necessidade de adequar o nosso modelo de produção e consumo aos limites que nos são impostos pelo Planeta em que todos vivemos. O modelo atual está no centro de problemas como as alterações climáticas, a perda da biodiversidade, a exploração insustentável de muitos recursos e mesmo a desigualdade e a má distribuição da riqueza. Enquanto não houver coragem para enfrentar este “elefante” que está na sala, mas que poucos reconhecem como estando presente, será impossível responder de forma eficaz aos principais problemas que enfrentamos.

Procurando concretizar um pouco, não será possível atingir a neutralidade carbónica, que é um objetivo estabelecido por Portugal para 2050 e que irá implicar uma redução das emissões de gases com efeito de estufa acima dos 85%, se não alterarmos de forma profunda a nossa mobilidade, passando maioritariamente de uma mobilidade individual para uma mobilidade coletiva, por exemplo. Em suma, a solução não está no carro elétrico para todos, mas numa redução substancial do número de carros e um predomínio claro de uma mobilidade coletiva e partilhada.

Neste momento, segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente relativos ao ano de 2019, cada português produziu cerca de 513 kg de resíduos urbanos por ano, acima da média europeia, que é de 489 kg/per capita/ano. E este valor diz respeito apenas aos resíduos visíveis, ou seja, aqueles que eliminamos diretamente após o nosso consumo. Se levarmos em consideração os resíduos resultantes de todas as atividades necessárias para produzir o produto até que chega às nossas mãos, a ordem de grandeza será muito, mas mesmo muito superior. Esta é mais uma área onde não será possível atingir um equilíbrio sustentável apostando, por exemplo, em mais recolha seletiva, na esperança que os materiais recolhidos sejam encaminhados para reciclagem e posteriormente reintegrados em novos produtos, completando um ciclo virtuoso. Certamente a recolha seletiva desempenhará um papel muito relevante, mas o que nos pode conduzir a uma verdadeira mudança é a aposta na transformação a montante, que deverá começar pelo questionamento da necessidade de um dado produto, pela sua idealização (caso tenha passado a primeira fase de questionamento) para ser durável, reparável, atualizável, reutilizável, passível de venda e revenda em segunda mão e que seja facilmente reciclável, quando atingir a fase de fim de uso.

Estes dois exemplos servem para ilustrar que a atual geração, bem como as gerações de um futuro próximo, tem e terão em mãos um desafio civilizacional, de transformar a realidade que hoje conhecemos, que nos conduz, a todos (seres humanos e não humanos) para o abismo, numa nova realidade, onde os limites do generoso planeta em que vivemos são respeitados, a bem do bem-estar alargado de todos, e não apenas de uma minoria, como atualmente acontece.

2) O que tem sido feito, no nosso país, para abordar esses desafios? E que outras medidas seriam importantes adotar?

Ainda que a dimensão do problema nos possa parecer avassaladora e a nossa ação individual insuficiente, se não mesmo inconsequente, para inverter o curso da realidade atual, o facto é que existe um papel para todos, sejam cidadãos, representantes políticos, instituições, empresas, etc. Só com a assunção das responsabilidades por parte de cada um, será possível esta inversão.

Na ZERO entendemos que todos têm responsabilidades, mas que estas são diferenciadas. Assim, a maior responsabilidade por esta alteração estrutural reside nos nossos representantes políticos, que podem definir os caminhos que o país deve trilhar, para que possa ser um exemplo de boas práticas, definindo, em diálogo com toda a sociedade, as regras de enquadramento das diferentes atividades, no sentido de garantir igualdade de atuação aos diferentes setores envolvidos. A par com a componente política e de regulamentação, encontramos as empresas que diariamente alimentam o atual modelo de produção e consumo, e que têm a responsabilidade de disponibilizar as soluções que permitam aos cidadãos concretizarem a sustentabilidade com as suas escolhas. Os cidadãos, ainda que com, aparentemente, menos poder, podem ter um papel fundamental na mudança estrutural. Qualquer rutura com o atual modelo de produção e consumo só acontecerá quando essa for a mensagem que é passada aos decisores políticos e empresariais. A título de exemplo, a recente aprovação, em tempo recorde, da Diretiva Europeia que veio regular a área dos plásticos de uso único, só foi possível devido à mobilização massiva da sociedade civil (organizada e informal), de investigadores, de jornalistas, que recorrentemente colocaram o tema dos plásticos e dos seus impactos ambientais, sociais e económicos no debate público e tornaram inevitável a ação política e a adaptação das empresas envolvidas a uma nova realidade.

3) A cultura ambiental dos portugueses é por vezes descrita como frágil. Perguntamos-lhe se concorda com este diagnóstico, e também de que forma se poderá promover uma maior participação dos cidadãos nas questões ambientais.

Não partilho a opinião que a cultura ambiental dos portugueses é frágil. Talvez possamos defini-la como em maturação, visto que estes temas não começaram a ser falados e integrados na nossa realidade assim há tanto tempo. Os inquéritos de opinião realizados sobre o tema demonstram que os portugueses, quando comparados com os cidadãos de outros países da UE, tendem a demonstrar menor grau de informação sobre muitos temas, mas em termos de opiniões expressas, em muitas áreas, o seu grau de preocupação e mesmo o grau de apoio a determinadas medidas não diferem assim tanto da média da UE. Claro que o maior desafio não está no discurso e na resposta a inquéritos, onde muitas vezes há uma abordagem “socialmente correta”. Contudo, é importante compreender porque razão muitas dessas opções não são depois concretizadas. Não raras vezes existem dificuldades reais, sejam financeiras, de acesso a informação, de acesso mesmo a determinadas soluções, que impedem a concretização das preocupações ambientais dos portugueses, nas suas opções diárias. Não nos podemos esquecer que os estímulos que existem na nossa sociedade são no sentido da escolha das opções mais insustentáveis (normalmente mais baratas, acessíveis em todos os locais, que não requerem alterações de hábitos, etc.). Se o objetivo é realmente apoiar os cidadãos rumo a práticas quotidianas mais sustentáveis, então a aposta a fazer passa por tornar as opções sustentáveis mais acessíveis do que as opções insustentáveis. Sem esta alteração de fundo, dificilmente assistiremos a uma mudança significativa.

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