Saúde em Portugal: a ótica de Manuel Sobrinho Simões

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Saúde em Portugal: a ótica de Manuel Sobrinho Simões

Autora: Paula Silva

Filiação institucional: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) | Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S)

E-mail: psilva@med.up.pt; psilva@ipatimup.pt

Palavras-chave: saúde, Portugal, pandemia.

De modo a assinalar os 10 anos de existência da Plataforma Barómetro Social, o corpo editorial decidiu – e bem, a meu ver – apresentar uma estrutura diferente para os artigos de opinião da última edição deste ano. Assim, a sua elaboração teve por base entrevistas efetuadas com figuras de renome das áreas adstritas a cada dimensão analítica. Manuel Sobrinho Simões – Professor Emérito da Universidade do Porto; Diretor IPATIMUP; Codiretor i3S; anatomopatologista especialista em cancro da tiroide (considerado pelos pares como o mais influente do mundo em 2015) – é a personalidade do domínio da saúde sobre quem recaiu a nossa escolha [1].

As três questões colocadas incidiram: i) nas mudanças mais significativas da última década ocorridas em Portugal no campo da saúde; ii) nas respetivas consequências societais; iii) a eventual melhoria da relação médico-doente por via da atual pandemia [2].

Se a evolução da ciência tem na medicina um dos seus expoentes máximos, será interessante conhecer a perspetiva de alguém que, sendo médico, não se considera como tal porque a sua especialidade não integra uma componente clínica [3]. Este facto propõe um novo entendimento se pensarmos nos cuidados de saúde como “bem” (idealmente universal), cuja utilização não se esgota no ato mas perdura na utilidade que gera, contrariamente ao consumo dos restantes bens que visa a satisfação imediata (Stiglitz, 2003).

Apresentamos em seguida a conversa com o Professor Sobrinho Simões, tendo respeitado a sua não adoção ao novo acordo ortográfico.

 

Que mudanças mais significativas considera terem ocorrido em Portugal na área da saúde nos últimos dez anos?

A mudança mais significativa ocorreu no crescimento desmesurado da componente privada da Saúde. Esse crescimento tem-se feito à custa da fagocitose do componente público da Saúde com um Serviço Nacional de Saúde cada vez mais fragilizado.

Os últimos anos testemunharam também o reforço do hospitalo-centrismo (público, privado e terceiro sector) em detrimento do desenvolvimento de uma desejável rede de cuidados primários à periferia capaz de “reter” os doentes próximos das suas casas nas Unidades de Saúde Familiar (USF).  Infelizmente também não conseguimos desenvolver suficientemente a importância do apoio domiciliário.

Quais as principais consequências/implicações – presentes e futuras – dessas mudanças na sociedade portuguesa?

As principais consequências destas mudanças – sobretudo associadas ao prolongamento acentuadíssimo da longevidade das pessoas e ao agravamento da assimetria económica com aumento da pobreza – são a falta de Saúde das Pessoas (Falta de Bem-estar e aumento de Doenças).

Os elementos atrás referidos acerca das mudanças na Saúde vão ter consequências nefastas em termos individuais – por exemplo, com acumulação de co-morbilidades em doentes envelhecidos – e em termos comunitários. A pressão curativa ou, pelo menos, a pressão sobre o controlo das doenças crónicas, será tão grande que não haverá nem organização, nem dinheiro, nem… para apostar no Cuidar. Em parte, por falta de literacia básica das pessoas e em parte pelo individualismo desenfreado, num mundo governado pelo desejo de poder e de consumir. Atenção que o CUIDAR começa ou, melhor dizendo, deveria começar na “barriga” das grávidas, e nos recém-nascidos. Quanto mais cuidado tivermos com as crianças, melhores resultados teremos na saúde dos longevos.

Estou convencido que o desenvolvimento cientifico e tecnológico irá continuar a crescer imparavelmente, mas atingirá cada vez uma menor percentagem de pessoas na sociedade. Entretanto a grande maioria das pessoas, tanto no campo, como nas cidades, sentirá sobretudo solidão, insegurança e perturbações da visão, audição e mobilidade, irremediavelmente perdidas para o Bem-estar.

É sua convicção que a atual pandemia poderá, a médio/longo prazo, ajudar a promover a necessária complementaridade entre o recurso à tecnologia e a relação médico-doente?

Não sei, mas receio que a terrível experiência da pandemia não promova a evolução no sentido da melhoria da relação médico-doente. Receio que o mesmo se passará em relação aos outros profissionais da saúde. Em parte, porque a tecnologia só superficialmente terá repercussões reais na vida das pessoas – para além claro do descobrimento de uma, ou várias, vacina(s) e de tratamentos específicos que terão importância para os 1 a 5% de doentes infectados com patologia grave. Mesmo após a progressiva solução dos problemas com a pandemia, as pessoas continuarão a viver num mundo em desagregação por esgotamento dos recursos físico-biológicos e agravamento das alterações climáticas pela progressiva falta de empatia das pessoas e por ausência de respostas políticas adequadas. Repito, mesmo depois de resolver a pandemia as coisas continuarão assustadoras pois o mundo está muito mal.

Estou convencido que uma evolução positiva das dificuldades encontradas no domínio da Saúde só ocorreria se fossemos capazes de institucionalizar o tal CUIDAR desde a infância e, depois, actuar como elementos da comunidade – tanto no plano da relação do profissional de saúde com o doente (o clássico modelo médico-doente do antigamente), como no plano mais geral da nossa relação com os Outros. Aquilo a que o Papa Francisco passou a usar na última encíclica como o objectivo mais nobre, resumido na expressão “Amizade Social”. Vamos ver…”.

Agradeço ao Professor Sobrinho Simões a amabilidade em conceder esta pequena entrevista.

Notas:

[1] Dispensámo-nos de abordar individualmente os parâmetros “Condições e Estilos de Vida” por estarem intimamente ligados à Saúde. Constituiu razão adicional a excessiva dimensão da publicação que daí resultaria.

[2] A infeção por Covid-19 mobilizou, entre outras, a necessidade de implementar novas formas de contacto entre profissionais de saúde e pessoas com doença, que em alguns casos se revelaram potencialmente promissoras.

[3] A Anatomia Patológica é a especialidade médica responsável pela análise morfológica e molecular de órgãos, tecidos e células, com o objetivo de determinar ou contribuir decisivamente para o diagnóstico de lesões, com implicações no tratamento e prognóstico das doenças, bem como na sua prevenção e deteção precoce. Engloba, basicamente, o exercício da Histopatologia (biópsias, peças cirúrgicas e exames peroperatórios), da Citopatologia (esfoliativa e aspirativa) e da Necrópsia (autópsia anátomo-clínica).” In Rede Nacional de Especialidade Hospitalar e de Referenciação – ANATOMIA PATOLÓGICA. Disponível em https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2017/03/2017-01-20_RNEHR_AnatPat_vs-2-0.pdf

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