Da comunicação científica à comunicação de ciência(s): a História e a Sociologia em contextos sociais plurais

Dimensão analítica: Educação e Ciência

Título do artigo: Da comunicação científica à comunicação de ciência(s): a História e a Sociologia em contextos sociais plurais

Autor: Bruno Filipe Gonçalves de Almeida e Leonardo Camargo Ferreira

Filiação institucional: Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Licenciatura em História); Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Licenciatura em Sociologia)

E-mail: brunoalmeida07@outlook.pt; leonardo-camargo-ferreira@hotmail.com

Palavras-chave: Comunicação de ciência(s), interdisciplinaridade, cidadania.

A ciência constitui um produto teórico-ideológico, elaborado por investigadores que reúnem um trabalho de rigor nas suas atividades profissionais, bem como experiências e trajetórias de vida enquanto atores sociais em contexto(s). Neste sentido, o diálogo intercientífico (e por sua vez intracientífico) não pode nem deve restringir-se à exposição de ideias num meio puramente académico, como se de uma esfera elitista se tratasse a que corresponde a tudo aquilo que a ciência é. No entanto, são as ciências sociais e humanas quem mais se tem arriscado numa queda num reducionismo comunicacional, tanto por condições externas como por outras a si inerentes. Cabe, por isso, a estas áreas do saber, onde se incluem a História e a Sociologia – por nós destacadas na qualidade de ciências de estudo sistemático das comunidades e dos fenómenos humanos em micro e macroescala, passando por níveis meso – reunir competências de apresentação e divulgação dos objetos de estudo e objetivos das pesquisas, respetivos métodos e resultados alcançados a distintos públicos-alvo, possibilitando uma lógica de adaptação fluida a, e de partilha de informação com, uma comunidade mais diversa, assumindo que o conceito de «”comunicação da ciência” é uma expressão de múltiplos sentidos” (Cabecinhas & Carvalho, 2004, p. 3) [1].

De que forma se torna possível uma incrementação dessa requerida capacidade de comunicação, ou seja, de construção e disseminação de mensagem e de criação e consolidação de laços de conhecimento (empático) entre os cientistas sociais e as restantes pessoas? Ora, acreditamos que este esforço deve começar no âmbito educativo. Deveremos ter em conta a forma como gerimos e apresentamos estas ciências como disciplinas no âmbito escolar e universitário. Deste modo, é necessário distinguir os públicos-alvo que abarcam estas duas realidades. A questão fundamental é que tanto a História como a Sociologia são duas ciências que conferem corpo a um estudo global e total à sociedade (portanto, que contemplam os homens e as mulheres no seu todo). Esta premissa assume-se fundamental para as próprias ciências adaptarem o seu discurso e diversificarem os métodos de disseminação de informação.

É neste sentido que estas disciplinas devem ser abordadas de modo claro e objetivo, tentando criar-se um certo interesse em públicos como as escolas, as câmaras municipais e, em geral, em toda a população. Destarte, a veia académica de ambas as ciências tem de ser moldada face às questões sociais do dia a dia e envolvendo-se em vias distintas de transmissão de conhecimento, por exemplo, nas políticas educativas (Alves, 2014) [2]. Não podemos, por conseguinte, imiscuir e encerrar sem fundamento estas áreas de estudo num mundo dito “científico”, visto que tanto a História como a Sociologia têm os seus objetos de estudo, métodos e técnicas, e também focos de intervenção, assim como todas as demais ciências; contudo, o seu esforço pode ser complementado e direcionado para o apelo das pessoas e a consciencialização de questões preocupantes do mundo atual. Logo, estas formas de abertura de ambas as áreas socias e humanas possibilita uma nova perceção das importâncias destas pesquisas. A História, com o seu processo de questões pertinentes e aplicação de um bom questionário às suas fontes, consegue chegar a um conjunto de pontos que constituem as etapas de construção do conhecimento científico. Por conseguinte, esta metodologia pode ser viabilizada para aceder a uma audiência menos específica e cultivar o interesse de novas atenções (Bloch, 1997) [3]. Já a Sociologia, que também possui este potencial, sendo-lhe caro o trabalho com as populações em várias das suas vertentes, emprega outros instrumentos de teorização e ação, mas sempre na tentativa de alcançar um corpo de conhecimentos e resultados válido, por um lado, e de satisfazer as necessidades de intervenção e das respetivas comunidades-alvo, por outro. Todavia, no cerne de tudo isto, ambas as ciências procuram um trabalho interdisciplinar (e, quando possível, transdisciplinar) que possibilite uma melhor compreensão do(s) saber(es)(-fazer/ser/estar) que se alcança com as investigações e os projetos levados a cabo.

Em resumo, é relevante salientar que qualquer ciência social e humana poderá atingir um maior número de interessados e criar um certo valor e importância na sociedade se tiver em conta as estratégias de conversão da comunicação, passando de uma comunicação científica para uma comunicação de ciência(s) e nunca perdendo o rigor e a honestidade do trabalho de pesquisa, mas sim utilizando novas ideias de exposição e de interação com os cidadãos com base numa “cidadania plena, que combine liberdade, participação e igualdade para todos” (Carvalho Cit. por Duad & Duad, 2016, p. 147) [4].

Notas

[1] Cabecinhas, R. & Carvalho, A. (2004), Comunicação da ciência: perspetivas e desafios. Comunicação e Sociedade. Vol. VI, [s/n] (2011), p. 1-11. [Em linha]. [Consult. 31 jan. 2020]. Disponível em <https://www.researchgate.net/publication/237697790_Comunicacao_da_ciencia_perspectivas_e_desafios>.

[2] Alves, L. A. M. (2014), A função social da História. E-fabulations: e-journal of children’s literature. Vol. V (2009), p. 18-22. [Consult. 1 fev. 2020]. Disponível em <https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/19306/2/7245000081506.pdf>.

[3] Bloch, M. (1997), Introdução à história. Ed. rev. aum. e criticada por Étienne Bloch. [Sl]: Forum da História. Publicações Europa-América.

[4] Duad, A. C. R. & Duad, S. dos S. (2016), A Atualidade da Teoria de Thomas Humphrey Marshall: Efetividade da Cidadania, Políticas Públicas e Limites do Controle Judicial. Revista de Direitos Sociais e Políticas Públicas. Vol. II, n.º 1 (jan.-jun. 2016), p. 146-147.

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