Da viagem como desejo de descoincidência

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Da viagem como desejo de descoincidência

Autor: João Vasco Coelho

Filiação institucional: CIES/ISCTE-IUL

E-mail: vasco.jcoelho@gmail.com

Palavras-chave: Viagem, mobilidade, experiência.

Muitos homens e mulheres são rios cheios de método, rios junto de rios onde há ouro, raízes e árvores precisas, homens e mulheres fortes de resultado à vista. Outros homens e mulheres, por sua lua e princípios, são navios de coisas sublimes fugidos em direção a Marrocos. Já foram rios, mas aborreceram-se com o passar do tempo, com o espaço, a paisagem. Carentes de açudes e circunstancial histórico, sofreram nos pés, na cabeça, o gesso da norma, a vontade de prosseguir.

Certos homens e mulheres são – dizem-se, dizem-nos – diferentes. São uma mala, e isso adequa-se, aparentemente, ao inédito distintivo que pretendem tomar nos braços. O quadrado redondo das suas ânsias incentiva o apetrecho peregrino, no ramo mais alto da nogueira. Conhecem os portos, os navios, os rios, correm os estores, as cortinas, falam inglês quando lhes tocam.

Únicos, livres para o altar da estrela, estes homens e estas mulheres pretendem, assim dizem, conhecer todos os portos, todas as portas, todos os outros. Viajam. Vão para fora. Não estão. A viagem é pretexto e oportunidade de descoincidência, uma praticar a descoincidência (na relação com os outros, consigo mesmos), acedendo a motivos, a recursos, a territórios, situações de vida, díspares, distintas, distintivas, em relação ao que era até então por si conhecido.

Para Simmel [1], a experiência moderna é, no essencial, a experiência da descontinuidade, da descoincidência, que decorre da separação, do afastamento de uma filiação determinada. Para estes homens e estas mulheres, viajar (descoincidir) representa, neste sentido, um motivo e uma experiência diferenciante, um acontecimento passível de ser vivido, em primeira mão, como uma condição de vida distante dos termos da vida comum, razão de possíveis distinções futuras.

A viagem comporta mobilidade, o confronto da rotina, da normalidade das relações existentes [2]. A “descoincidência de si consigo próprio” [3] é a este respeito possível, e implica a existência do que Giddens [4] designa de “projeto reflexivo do self”, um trabalho de composição intimamente associado à procura de manutenção, num quadro de pertença fluídas, de relações sociais caracterizadas pela confiança, por um sentido de estabilidade e de segurança ontológica.

Em Portugal, este é um fenómeno social que tem colhido crescente atenção no plano mediático, político e académico [5], destinando-se particular relevo à consideração, em diferentes contextos, de implicações observáveis no plano do acesso de indivíduos e de grupos (à mobilidade, ao movimento, à viagem), da sustentabilidade ecológica e socioeconómica, da modificação de condições de vida e de horizontes de cognição e reflexividade pessoal [6] [7]. Trata-se, poderá referir-se, de um fenómeno que gera consequências [6] – desejadas ou imprevistas -, cuja análise se polariza entre o elogio virtuoso, efervescente, e o distanciamento crítico.

Uma consequência particular desta forma de interação com o tempo e com o espaço situa-se no universo das subjetividades individuais: a ação daquele que se encontra em viagem tende a ser informada por uma qualidade geral de indiferença, um envolvimento frouxo, uma consciência de algum modo anestesiada, caracterizada, em proporção idêntica, por um sentido de proximidade e de distância, fruto da ausência prévia de história, de raízes partilhadas, de precedentes. Deste modo, com aquele que se encontra em viagem, não é possível ter em comum senão certas qualidades gerais (de relação), um quadro que opera como agente de despersonalização e de nivelamento de referências sociais e cognitivas [1].

O investimento concedido, no tempo presente, no plano socioeconómico, expressivo e simbólico, à viagem (ao movimento), tende a associar aquele que a pratica, de modo vigoroso, incessante, deliberado, a uma condição de sublimação, onde a ação não se encontra aparentemente constrangida por cesuras ou antecedentes de dependência [8]. No tempo presente, não se trata mais de uma questão de escolha, mas sim de um requisito significativamente associado a cenários de inclusão e de exclusão social [6].

Os indivíduos podem hoje experimentar a viagem (o movimento) como motivo ou recurso crítico (escolhido, voluntário), estratégico ou estilístico [7]. Viajar permite dizer que se está fora. Viajar permite dizer que se vai estar fora. Viajar permite dizer que se esteve fora. Viajar permite não se estar. Viajar permite dizer que não se está. Viajar permite dizer que não se vai estar. É moderno não estar. É moderno dizer que não se está.

Importa fazer da partida, da ausência, do movimento incessante, do nomadismo, um modo de ser próprio, exclusivo dos homo mobilis [9], um marcador estilístico de identidade distinguível numa sociedade desterritorializada. Aquele que experimenta, com sucesso, as virtudes da viagem, do movimento, apresenta-se como sendo rápido, leve, flexível, imune a perigos, difícil de possuir, de apreender – pelo contexto, pelas estruturas (fiscais, legais, normativas), pelos outros.

Notas

[1] Simmel, Georg (1999 [1917]), Études sur les formes de la socialisation, Paris: PUF.

[2] Cresswell, Tim (2006), On the move: Mobility in the modern western world, New York: Routledge.

[3] Binswanger, Ludwig (1971), Introduction à l`analyse existencielle, Paris: Éditions de Minuit.

[4] Giddens, Anthony (1991), Modernity and self-identity Cambridge: Polity Press.

[5] Araújo, Emília (2018), Questões de mobilidade, tempo e sustentabilidade, In E. Araújo, R. Ribeiro, P. Andrade & R. Costa (Eds.), Viver em|a mobilidade: Rumo a novas culturas de tempo, espaço e distância, Livro de atas, Braga: CECS, pp. 146-160.

[6] Cairns, David, Cuzzocrea, Valentina, Briggs, Daniel & Veloso, Luísa (2017), The consequences of mobility: Reflexivity, social inequality and the reproduction of precariousness in highly qualified migration, Basingstoke: Palgrave.

[7] Coelho, João Vasco (2018), “Eu já venho”: A expatriação organizacional como experiência de recomposição identitária, Tese de doutoramento, Lisboa: ISCTE-IUL.

[8] Costas, Jana (2013), Problematizing mobility: A metaphor of stickiness, non-places and the kinetic elite, Organization Studies, 34 (10), pp. 1467-1485.

[9] Amar, Georges (2011), Homo mobilis: La nueva era de la movilidad, Buenos Aires: La Crujia Ediciones.

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