Corridas de longas distâncias, cidades e cidadãos

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Corridas de longas distâncias, cidades e cidadãos

Autor: José Conde

Filiação institucional: Câmara Municipal de Évora

E-mail: jconde@cm-evora.pt

Palavras-chave: Meia-Maratona, Cidade, Desportivização.

As corridas de longas distâncias, (maratonas ou meias maratonas), e sua ligação com as cidades que as acolhem, promovem e dinamizam, parecem constituir um fenómeno social total, cujas origens remontam a milhares de anos, afirmando-se como uma das primeiras manifestações lúdicas de que há memória.

Na corrida, o evento e a cidade implicam-se, relacionam-se e confundem-se tornando o estudo deste fenómeno um constante e intricado processo de reciprocidade, que ora permite analisar as relações e as dinâmicas que o mesmo gera e promove; ora possibilita um melhor entendimento do acontecimento, nomeadamente a influência que exerce para outros campos da atividade desportiva, lazer, turismo ativo, estilos de vida e formas de pertença na cidade.

Nos últimos anos estas práticas desportivas ultrapassaram o interesse do praticante ligado apenas à competição ou ao lazer e passaram a atrair uma parte significativa das populações que assim relacionam o desporto, a atividade física e a cidade. Veja-se, a título de exemplo, as decisões de vários municípios de colocar mobiliário urbano ligado à prática do exercício e das atividades desportivas nos espaços das cidades.

As diferentes e múltiplas formas de práticas desportivas que têm surgido provocaram um efeito indutivo de “desportivização” nas cidades e nos espaços públicos de que estas práticas se apropriam (ruas, praças, parques…). Deste modo, o “palco do esforço” é a rua e o espaço público. Correndo nas ruas, jogando nas praças e nos largos, praticando skate ou patinagem nas superfícies alcatroadas e cimentadas da cidade, a atividade desportiva derivou também em espetáculo [1]. Estas atividades transformaram-se em importantes fatores de animação dos espaços, tornando-os em espaços também de “públicos” ao ponto desta nova participação do lazer desportivo poder vir a questionar novos conceitos de territorialidade e de urbanismo [2].

Um estudo recente que realizámos sobre uma destas iniciativas – a Meia Maratona de Évora – [3] permitiu-nos confirmar quatro campos de abordagem e de influência. A partir da análise das respostas a um questionário aplicado aos participantes de duas sessões de focus group com interlocutores locais, emergiram como especialmente relevantes os campos da atividade desportiva; a área do lazer; a importância no sector do turismo ativo e na economia local e, por fim, o contributo para um determinado estilo de vida e forma de viver a cidade.

No campo desportivo, que poderá ser considerado a génese da iniciativa, reconhecem-se semelhanças a outros eventos da mesma natureza que ocorrem um pouco por todo o mundo. No entanto, a presença do designado “desporto competição”, apresenta um peso pouco expressivo representando apenas cerca de 5% dos corredores que participaram da iniciativa no ano de 2017.

Mas são os praticantes do sector não competitivo, na designada área do lazer, que dão maior expressão à iniciativa, que enchem as ruas e as praças e que contribuem significativamente para o sucesso da mesma. Os que competem consigo próprios para se situarem no grande grupo e se avaliarem nesse contexto, mas também os que o fazem por questões de manutenção da saúde física, de moda, ou influenciados pelo grupo de amigos em que se integram.

A participação em família assume também alguma expressão entre estes participantes. Muitas vezes um membro do grupo familiar vem participar em contexto competitivo enquanto os restantes o fazem por lazer ou simplesmente para acompanharem o primeiro.

No seu conjunto, apesar da diferença de objetivos com que participam, todos acabam por contribuir para um fim comum: fazer a festa no evento e através deste. São momentos de vivência coletiva que parecem agradar e que preservam em imagens fotográficas divulgadas em grande escala pelas redes sociais.

A vontade de partilhar a experiência assume aqui um papel de proximidade simbólica à iniciativa. Uma quase identificação com a atividade – estamos aqui! somos parte integrante de evento! Isto é, o evento é o conjunto de ‘todos’ mas também o somatório de cada um ‘per si’.

Este evento tem também importância na economia local. É sobretudo nos sectores que operam no turismo (hotelaria e restauração) que esta importância se expressa de forma mais significativa. Como afirma um dos entrevistados, “[…] na área do turismo e da hotelaria em particular, é um evento que é extremamente positivo […], é bom para o negócio em si e é bom para as pessoas” [3].

A atratividade turística, através do chamado turismo ativo, integra assim um terceiro campo de abordagem deste fenómeno. Os operadores turísticos desenvolvem um trabalho de promoção ao longo dos meses que antecipam a iniciativa, que vendem, como produto turístico, e ao qual associam diferentes propostas que oferecem no mercado aos seus clientes e divulgam nos catálogos e publicações. Os participantes que são mobilizados por esta via fazem-no comprando um ‘produto turístico’ que muitas vezes lhes vende uma corrida, um alojamento em determinado hotel, uma refeição especial de gastronomia local e uma visita a uma adega. Em suma, uma experiência ‘diferente’. De acordo com a empresa promotora do evento ‘Meia Maratona de Évora’, este cliente gasta em média 170 euros por dia, valor que está em linha com os estudos de retorno socioeconómico do turismo desportivo aplicados a maratonas em França [4].

Um último campo de abordagem permitiu reconhecer o contributo para a criação de novas práticas despertadas por estes eventos, que tendem a perdurar para além dele, definindo e afirmando (novos) estilos de vida. “Não dá para correr e não mudar o estilo de vida” afirma um dos participantes entrevistados. Estas experiências são indissociáveis de uma certa “paixão pela corrida”, criando hábitos que também se refletem na cidade e no espaço público. “[E]stes eventos criam, de facto, o hábito da apropriação do espaço público”, como reconhece o Vereador com o Pelouro do Urbanismo da Autarquia [3].

Espaços de novas sociabilidades, estas iniciativas são também oportunidades de afirmações de estilos de vida individuais e coletivos que reivindicam o direito à cidade e uma nova cidadania

Notas:

[1] Dorvillé, C., & Sobry, C. (2006). La ville revisitée par les sportifs…? Territoire En Mouvement, (3), 14–20.

[2] Escaffre, F. (2005). Espaces publics et pratiques ludo-sportives à Toulouse L’émergence d ’ une urbanité sportive ? Université de Toulouse II – Le Mirail.

[3] Conde, J. (2018). A Meia Maratona de Évora. Um evento na cidade. Universidade de Évora, Évora. Retrieved from http://hdl.handle.net/10174/22977

[4] Lapeyronie, B. (2009). Retombées socio-économiques du tourisme sportif Exemples des marathons en France. Tourisme, Sport et Développement, 28(2), 37–44. Retrieved from http://teoros.revues.org/450

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