Desporto universitário. Velhas sendas, novos rumos? (1ª Parte)

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Desporto universitário. Velhas sendas, novos rumos? (1ª Parte)

Autor: José Augusto Rodrigues dos Santos

Filiação institucional: Faculdade de Desporto, Universidade do Porto

E-mail: jaugusto@fade.up.pt

Palavras-chave: Desporto, Desporto universitário, Portugal.

O desporto universitário em Portugal além de ser atravessado pelos estigmas que caracterizam o desporto em geral, e que são o reflexo da forma como a sociedade valoriza a prática desportiva, ainda arrosta uma série de condicionantes que lhe são próprias e que são a base das múltiplas indefinições que o caracterizam.

Antes de tentarmos analisar criticamente o Desporto Universitário, perspectivando o seu futuro, vamos fazer uma viagem ao âmago desse fenómeno social cada vez mais pregnante que é o desporto sensu latu com a preocupação de vislumbrar as balizas axiológicas que poderão dar um sentido à sua importância social.

Qual a categoria genésica do desporto? A tensão agonística.

A competição, subjacente a todas as construções humanas, exprime as potencialidades auto-organizadoras da vida. A expressão agonística cultural é uma deriva da competição biológica que foi a causa determinante para a evolução quantitativa e qualitativa da espécie humana. Da biologia à cultura, a competição exprime-se numa pluralidade de formas e conceitos e, de uma forma geral, os seres mais sujeitos ao stresse dos antagonismos e constrangimentos impostos pelo envolvimento foram aqueles que desenvolveram mecanismos adaptativos mais eficazes. Isto dentro de certos limites, já que quando a capacidade adaptativa é ultrapassada pode-se desembocar na destruição total da organização dos sistemas vivos. O que não me mata torna-me mais forte, assevera-nos Nietzsche, que com iniludível mestria conceptual elaborou um corpo filosófico coeso que prenuncia as descobertas básicas da biologia que consubstanciam as leis biológicas da carga, pedras angulares da metodologia do treino – Sobrecarga, Especificidade e Acção Reversível.

Para haver evolução é necessário existir luta, competição. O corpo só evolui se for agredido, pois só assim exprime, em toda a sua plenitude as suas potencialidades reorganizadoras. O desporto exprime, de forma simbólica, a luta genésica da espécie humana pelo domínio do habitat. A pré-história do desporto entronca nas funcionalidades inerentes à procura de alimento e defesa do habitat.

Mais tarde, já na fase histórica da evolução humana, o desporto continua a expressar, embora de forma mais atenuada, a luta pela sobrevivência. Atentemos, na Grécia Antiga, no modelo de educação e apuramento racial apanágio dos Espartanos, e ainda vislumbramos resquícios dum guião biológico regido por leis radicalmente naturais que foram o suporte da emergência do homo sapiens a partir dos seus predecessores menos capacitados. De uma forma geral, a competição desportiva na Grécia Antiga, é parte constitutiva da preparação do guerreiro, visando o desenvolvimento das suas capacidades para a luta.

O desporto é, em grau superlativo, um sistema de realização de competências motoras de acordo com padrões e critérios de avaliação que variam de escala em função no nível competitivo visado. Enquanto um desportista de elite só ficará satisfeito com a consecução do feito absoluto (campeão do mundo, campeão olímpico, campeão europeu, etc.), outros, de menor nível performativo, contentar-se-ão com patamares mais reduzidos de realização. Muitas vezes, a única validação da prática desportiva radica na fruição lúdica e/ou hedonista que é tão válida como outra qualquer.

Em termos ontológicos, os padrões e critérios de avaliação e valorização da realização desportiva não estão condicionados pelo nível competitivo do atleta, mas diferindo em grau, induzem efeitos diferentes. Um atleta de menor nível competitivo valida em si e por si o seu feito desportivo. Para o atleta de alta competição a validação é absoluta, consubstanciando por um lado a excelência individual e por outro o pleno reconhecimento social que muitas vezes tem uma expressão material pela outorga de benesses e prebendas. O desporto de elite é o modelo referencial de todas as outras dimensões desportivas. Despido já de validações subjectivas, implícitas, no entanto, qualquer que seja o nível de prática, diz respeito a uma casta especial, que por sê-lo, se constitui como modelo promocional do bom e do mau que o desporto encerra como prática social.

O desporto hodierno já perdeu alguma pureza da sua génese mitológica e histórica. Na Odisseia, Ulisses, o herói homérico, é desafiado pelos Feácios para várias competições desportivas e de canto e poesia. Competir e ganhar para dar boa notícia de si, isto é, a glória e o reconhecimento. Hoje, dar boa notícia de si já não chega, a recompensa material é imperativa como corolário duma prática profissionalizada que foi motivo de menorização e opróbrio em alguns momentos da história do desporto.

Os heróis desportivos gregos, depois de um período de trevas que desvalorizou o corpo como santuário de vida e o elegeu como mero receptáculo de pecado, têm hoje os seus émulos a quem também são cantados os epinici para depois da vitória. Os heróis desportivos modernos ombreiam, tal como na antiguidade, com as elites culturais e artísticas e partilham com elas o reconhecimento social. De atentar que entre os vinte portugueses mais importantes de sempre, com tudo de subjectivo e mesmo sectário que tem uma eleição deste tipo, estão três homens que são verdadeiros ícones desportivos – Eusébio, Pinto da Costa e Mourinho que o povo português colocou ao lado das grandes figuras históricas, culturais e artísticas que mais nos marcaram. Na minha concepção pessoal, o feito desportivo diz respeito exclusivo ao atleta. Os outros (treinadores, dirigentes, árbitros), são meros fautores de condições para a excelência do desportista aparecer. Erguê-los como ícones diz algo sobre a amálgama de valores que por vezes descaracterizam a axiologia do desporto.

Poucos têm lugar no panteão da excelência e na mitologia desportiva. E os outros? Os “normais”? Estão condenados à irrealização e ostracismo? Devem deixar a arena desportiva à reduzida elite que catalisa todo o empenho mediático?

Não, existe lugar para todos no seio úbere do desporto. Todos podem encontrar na prática desportiva, momentos de realização, tanto ou mais gratificantes que os obtidos por muitos campeões, pelo menos por aqueles campeões que sabem que têm a mentira e a batota como alicerces dos seus êxitos.

Vestidos com as roupas da normalidade genética está-nos vedado o feito absoluto total, mas temos o direito e a obrigação de pugnar na procura dos nossos absolutos individuais. Se somos deserdados da lotaria biológica mais razão temos para nos cumprirmos na exploração maximal das nossas potencialidades. E aí seremos tão ou mais campeões que aqueles que fazem parte do areópago das nossas idolatrias.

Chegamos ao desporto a partir dos jogos da nossa infância, em que ganhamos e perdemos sem angústias ou exaltações prolongadas. Com a importância acrescida da luta social em que nos empenhamos na procura da nossa realização profissional e humana, muitas vezes manchamos o desporto com os miasmas da competitividade exacerbada que pode ser fatal. Lembremo-nos dos vários casos letais promovidos pelo boom da corrida nos anos 70, em que jovens quadros de empresas, sedentarizados e hipercompetitivos, no afã de se afirmarem também no desporto, ultrapassavam os limites da normalidade funcional e entravam em zonas de esforço patológico, muitas vezes fatal. Ter consciência dos limites e assumir o acto desportivo como acto de cultura diz bem do nível evolutivo de uma sociedade. Numa sociedade que coloca o homem no centro das suas preocupações, o desporto é mais um laço gregário que contraria as forças disjuntoras que por vezes tolhem uma saudável evolução social. Mal-entendido e interpretado, o desporto pode constituir-se como mais um factor de dissensão e afrontamento sociológico. Portanto, o desporto não é um fenómeno cultural inócuo; ele recebe da sociedade os valores e linhas de força que caracterizam essa mesma sociedade.

Hoje, com as forças do neoliberalismo a penetrarem sub-repticiamente todas as expressões de vitalidade do tecido social europeu, assistimos à consideração do desporto como mercadoria de consumo numa sociedade regida pelas sacrossantas e idolatradas forças do mercado. Cultura e formação estão longe das preocupações dos tecnocratas que nos governam, e somente a lógica do lucro impera em todas as esferas de realização social.

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