O corpo deficiente e os contributos de uma sociologia do corpo

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: O corpo deficiente e os contributos de uma sociologia do corpo

Autora: Ana Catarina Correia

Filiação institucional: Socióloga, Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: up200903286@letras.up.pt

Palavras-chave: paralisia cerebral, representações, corpo deficiente, sociologia do corpo, deficiência e incapacidade.

  1. Contributos explicativos de uma sociologia do corpo

É amplamente aceite pelas comunidades científicas que o corpo se tornou um fenómeno que exige opções e escolhas por parte de quem o possui. Este torna-se maleável, passível de ser submetido a aperfeiçoamentos e ajustamentos diversificados. Os “projetos do corpo” têm como princípio a procura da correspondência a trâmites sociais específicos social e culturalmente delineados. Observa-se, deste modo, uma preocupação crescente (de caráter individual) de manutenção e gestão da aparência corporal. Esta justifica-se fortemente pelo reconhecimento essencialmente prático (e tácito, poderá dizer-se) dos significados do corpo, quer como um recurso eminentemente pessoal, quer como um símbolo social que, enquanto tal, emite permanentemente mensagens sobre o outro e o eu (Shilling, 1993).

A imagem corporal socialmente legitimada e aceite é aquela em que os corpos se apresentam como jovens, ágeis, belos e atraentes (Shilling, 1993). Traduzindo as palavras de Bryan Turner “Nas sociedades ocidentais contemporâneas, (…) dentro do contexto de uma cultura individualista e hedonista, há uma ênfase na juventude, jovialidade e atividade. Esta ênfase no corpo jovem, ativo e magro está conectada com a importância da reflexividade como uma componente da modernidade.” (“In contemporary Western societies, (…) within the context of an individualistic and hedonistic culture, an emphasis on youth, youthfulness, and activity. This emphasis on the youthful, active, and slim body is conected with the importance of the reflexivity as a component of modernity.”) (Turner 2001, p. 259).

Por força destes reconhecimentos, a presença de uma incapacidade visível constitui-se como um fator que despoleta diversos e complexos mecanismos de exclusão social e estigmatização. As instâncias de regulação social, como a Medicina e a Reabilitação, assim como os padrões culturais dominantes, apresentam-se enquanto variáveis determinantes na criação de esferas normativas e prescritivas que se impõem vincadamente aos corpos humanos e ás suas respetivas vivências corporais.

Face ao exposto, quais as representações do próprio corpo por parte de sujeitos que detêm um corpo deficiente? É esta a questão basilar que sustenta o presente artigo que nasce de um projeto de dissertação. Pretendeu-se captar essas representações em contexto de paralisia cerebral (em que não existisse um défice cognitivo “diagnosticado”) e perceber o impacto das mesmas nos processos de construção identitária.

  1. Processos metodológicos: a procura de representações corporais

Este trabalho alicerçou-se numa perspetiva fenomenológica e construtivista, acompanhada de uma lente pós estruturalista, de apropriação do corpo deficiente – neste caso específico com sequelas de paralisia cerebral – enquanto objeto empírico. Esta opção permitiu mobilizar importantes contributos sobre os moldes como a corpo atua enquanto símbolo social. De igual modo extraiu-se uma explicação robustamente fundamentada sobre a legitimação de desigualdades sociais que têm como principal justificação o corpo (Shilling, 1993, 2005).

Optou-se por uma abordagem mista no processo metodológico. Fez-se jus de uma abordagem de pendor quantitativo e outra de caráter qualitativo. Analíticamente, adotou-se uma postura qualitativa, de pendor interpretativo e compreensivo.

Optou-se por uma triangulação metodológica centrada num caso, dado que todas as

respostas são “comparadas e relacionadas na análise” (Duarte, 2009, p.19). Recolheram-se e analisaram-se dados pertencentes a 13 casos. Os instrumentos de recolha de dados foram utilizados de modo complementar: (i) um inquérito por questionário que continha dimensões específicas que se pretendiam captar; (ii) entrevistas em profundidade que eram administradas aquando do preenchimento do questionário. Saliente-se igualmente que a construção destes instrumentos teve por base a metodologia CAPI – Computer Assisted Personal Interviewing – por todas as vantagens que apresenta para recolher dados junto desta população e, simultâneamente, dadas as condições da própria investigadora (Sainsbury, Ditch & Hutton, 1993).

Mobilizou-se também o que Laura Finlay denomina de reflexividade por introspeção. Sucintamente, permite ao investigador utilizar determinadas características pessoais e proximidades como um “trampolim” para a recolha de dados que pretende (Finlay, 2002). Isto porque, a própria investigadora, neste caso, é uma mulher com paralisia cerebral e cliente da instituição onde a recolha empírica se realizou. Neste sentido, esta opção apresentou-se como ideal enquanto ferramenta para monição de enviesamentos de diferentes naturezas.

  1. Dinâmicas e conteúdos das representações corporais

Como principais constatações, observou-se que prevalece de forma evidente a consciência da ambivalência entre os corpos normais e os anormais, os comumente chamados de ‘deficientes’. Parece existir um sentimento partilhado de uma tendência social para restringir as possibilidades de emancipação individual e valorização do capital físico dos corpos deficientes, tendência essa que age com um propósito de natureza normalizadora. Estas restrições são sentidas, vividas e interiorizadas (embora de diferentes formas) por estes sujeitos. Deste modo, acabam por ser parte do seu habitus e apresentam-se como um fator absolutamente determinante nos meandros de inculcação do próprio estigma e que sustenta – em parte – a existência do pesado rótulo do que é “ser deficiente”.

Em simultâneo, observou-se uma forte disposição para resistir contra as cargas pejorativas e inferiorizantes de foro sociocultural, e fazem-no apropriando-se do seu capital físico de uma forma predominantemente positiva, afirmando a sua identidade enquanto cidadãos e pessoas plenas. Notou-se de igual modo uma reapropriação das disposições de género. Esta poderá ser interpretada como um meio para ter sucesso naquela que parece indiciar-se como uma “batalha interior” contra a catalogação/rotulação por parte de outros de “ser deficiente”, no sentido em que o género se sobreporá a essa condição. Outro aspeto nítido observado é a plena consciência de que existe uma associação clara – presente nos universos de senso comum dos outrros – entre dificuldades de expressão verbal fluente e deficiência mental. Esta associação errónea parece ter um efeito bastante perturbador. Por força desse reconhecimento, observa-se a partilha da importância das capacidades intelectuais, de decisão e autodeterminação, ainda que entrando em confronto com interações e episódios do quotidiano de recorrente infantilização e no facto de se presumir que existem limitações do foro cognitivo.

Vinculam-se assim os três eixos estruturantes que o corpo assume como elemento imprescindível da identidade: enquanto uma realidade eminentemente simbólica; enquanto um meio de exercício de poder e dominação; e enquanto um lugar de resistência e emancipação.

Referências bibliográficas

Correia, Ana Catarina Rodrigues (2016) – “Aproxima-te do normal”: representações do corpo em contexto de paralisia cerebral. IS Working Paper. 3ª Série, n.º 46.

Correia, Ana Catarina Rodrigues (2015) – “O meu corpo é público?”: Representações do corpo em contexto de paralisia cerebral. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Dissertação de Mestrado em Sociologia.

Duarte, Teresa (2009) – A possibilidade da investigação a 3: reflexões sobre a triangulação (metodológica). Lisboa: CIES-UL.

Finlay, Linda (2002) – Negotiating the swamp: The opportunity and challenge of reflexivity in research practice. Qualitative Research. ISSN 1468-7941. Vol. 2, n.º 2, pp. 209-230.

Sainsbury, Roy, DITCH John & HUTTON Sandra (1993) – “Computer Assisted Personal Interviewing”, Social Research Update, Issue 3. Disponível em: http://sru.soc.surrey.ac.uk/SRU3.html [Consultado a 16.10.2016].

Shilling, Chris (1993) –The Socially Constructed Body. In Shilling, Chris – The body and social theory. Londres: Sage. pp. 62-87.

Shilling, Chris (2005) – Introduction. In Shilling, Chris – The body in culture, technology and society. Londres: Sage. pp. 1-23.

Turner, Bryan. S. (2001) – Disability and the sociology of the body. Handbook of disability studies. pp. 252-266.

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