Ensinar de cima do palco

Dimensão analítica: Cultura, Arte e Públicos

Título do artigo: Ensinar de cima do palco

Autor: Manuel Rocha

Filiação institucional: Conservatório de Música de Coimbra

E-mail: mvprocha@gmail.com

Palavras-chave: Ensino Artístico, Política Cultural, Carreiras Artísticas.

Andam por todo o lado, à procura de juntar, em mil lugares de trabalhar, o correspondente a um salário de que se possa viver. Alguns alimentam ainda o sonho de vir a fazer a música que lhes levou anos de estudo nas páginas dos mais de 500 anos de relatos sonoros do que habitualmente se abriga sob o rótulo de música erudita, o tal ruído civilizacional capaz de tocar o sublime. Os tempos não estão para semelhantes luxos. Para os músicos portugueses, os postos de trabalho — mesmo que precário e breve — moram nas glamourosas galas das revistas mundanas e dos canais televisivos, no biombo sonoro dos jantares de empresa, nos “momentos musicais” das vernissages, nas orquestras de “gente bonita” das mega-produções do entretenimento. E, no entanto, nunca na História de Portugal houve tanta gente capaz de ir além da semibreve, tanta gente jovem disponível para responder pela profissão musical com a competência que, neste país e com esta magnitude, é coisa de há pouco tempo.

Outros desistiram já dos palcos e envolvem-se nas dezenas de escolas do ensino formal e informal em que as famílias portuguesas procuram a educação musical dos seus filhos. A maioria é licenciada e constitui o numeroso exército de disponíveis que enche de currículos e cartas de apresentação as caixas de correio electrónico das escolas.

Dispensemo-nos da enumeração dos factos que nos permitiram chegar aqui, da identificação das conjunturas que juntaram no norte do nacional rectângulo muita gente disponível para ensinar, outra tanta disponível para aprender, a decisão política a acender o rastilho da formação de músicos. Já alguém há-de ter estudado a receita de tal sucesso, metade intenção, metade acaso. Se mais não houvesse a dizer, provou-se não haver menos vontade musical nos braços dos filhos dos operários do Ave do que nos meios de maior favorecimento económico em que a música é chão mais habitual. Bastou, já se vê, dar corda à tal “vontade política” de que dependem os rumos de desenvolvimento para que, em cerca de três décadas, a resposta educativa de nível básico passasse de meia dúzia de escolas para as mais de 100 que educam e certificam, responsáveis maiores pela multiplicação da resposta de nível superior hoje instalada.

A originalidade da educação musical dos portugueses vem, contudo, de muito mais atrás. No ambiente da monarquia, no da República e, mais perto de nós, no da implantação do modelo cultural do fascismo português (o simpaticamente chamado Estado Novo), o movimento associativo foi assumindo deveres que o Estado declinou, por atraso ou intenção. Nuns casos as razões destas organizações eram as do esclarecimento, noutros o motor terá sido o da pura necessidade cultural, mas o facto é que a música — a partilha e a aprendizagem — foi acontecendo nas bandas filarmónicas, nos círculos de cultura, nos ateneus, gerando uma malha que muito contou para que Portugal tenha som. É ainda nestes lugares que se realiza muita da educação informal que permite a muitos cidadãos o acesso à fruição e à experimentação musical.

O mapa da educação artística nasceu desigual e desigual se mantém, mais a norte do que a sul, mais no litoral do que no interior, dependente da iniciativa privada ou da sua ausência num território de que o Estado se mantém ausente, num processo semelhante ao da sementeira dos bairros clandestinos da Lisboa suburbana dos anos de 1970/80: primeiro constrói-se, depois logo se vê, enquanto o pau vai e vem folgam as costas das associações de ensino privado, desejosas de ir buscar ao pote do ensino artístico o mel que lhes foi negado nos colégios amarelos. Rendidos aos encantos das cores, as associações de empresários da educação preparam-se para apresentar ao Estado um “livro branco” que em tudo se há-de assemelhar às soluções chave-na-mão, naturalmente boas para festas de casamento mas seguramente más para assuntos de educação artística, em que o envolvimento do Estado compreende a definição de políticas para o meio escolar, mas também nos níveis das políticas laborais e culturais.

Seria, desde logo, útil perceber o que se vem passando no sistema educativo português desde a aplicação das políticas de “refundação do ensino artístico”. Saber que impacto teve a expansão do regime articulado (maioritariamente privado) na criação de dinâmicas culturais, saber de que modo uma tal oferta influenciou as estruturas locais eventualmente existentes, dentre muitos outros elementos que importará recolher para redefinir (ou não) rumos. Importa, porém, registar que no plano da educação há vida. É, por isso, na vida que fica depois da Escola, que é urgente mexer. De facto é nos canais da Cultura que o entupimento é insuportável, mesmo que as estatísticas oficiais situem nos 3% o contributo da actividade cultural para o PIB; mesmo que o número de trabalhadores da Cultura seja superior ao da generalidade dos sectores da economia; mesmo que a Cultura seja semente de inteligência, precisamente o contrário da indigência intelectual desde a boçalidade à corrupção, do individualismo empreendedorófilo à mais rasca criminalidade. Por isso é que 0,1% do Orçamento de Estado para a Cultura não é dotação, é esmola; não é cuidado, é ofensa.

Precisamos de pôr no palco os músicos que vamos formando! De lhes pagar um salário, de permitir que o seu labor amadureça e se desenvolva com a estabilidade que é — sempre — o ingrediente essencial do bem-fazer. Precisamos de criar alternativas aos gostos dos “mercados”, desenvolver a Música de Câmara, criar espaço à chamada Música Antiga. Precisamos de revitalizar os inúmeros auditórios municipais, o património edificado, os auditórios das escolas, numa lógica de programação regular que semeie de diversidade, estética e temporal, a monocultura dos festivais de Verão.

E nós, nas escolas, precisamos de concertos aonde levar os nossos alunos. É que na Música, como em muitas esferas da Vida, há coisas que só se aprendem vendo fazer bem. Muitas vezes.

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Uma Resposta a Ensinar de cima do palco

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