Dopagem: mentir, ficar silencioso ou dizer a verdade

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Dopagem: mentir, ficar silencioso ou dizer a verdade

Autor: Vítor Rosa

Filiação institucional: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

E-mail: vitor.rosa@ulusofona.pt

Palavras-chave: Desporto, Dopagem/Doping, Fraude.

Com uma pomposa linguagem, o barão Pierre de Coubertin, pai do olimpismo moderno, refere que o desporto é um bom nivelador da classe social e um meio poderoso de expurgar todos os maus instintos, uma prática pensada como modelo, no qual o olimpismo seria o expoente máximo [1][2], com o “seu grandioso cerimonial, o seu contato com a religião, os seus ardentes apelos e nobres de espírito cavaleiresco, base de toda a atividade desportiva durável e pura” [3]. A corrupção, a violência, a dopagem (doping), a discriminação, etc. põem em causa este modelo “ideal” e “perfeito”.

“Poções mágicas de Astérix”, “pote belga”… eis algumas designações atribuídas para o cocktail (doping) que circula no desporto, quer seja profissional, quer seja amador. Os estudos técnicos e científicos e os meios de comunicação social dão conta dos múltiplos tráficos existentes, dos fatos e das confissões. A confusão reina: os atletas fogem, os médicos fogem dos jornalistas, os organizadores fogem do público. Apesar das confissões e sanções, o tráfico perdura e assume proporções alarmantes. No processo de dopagem, onde lei do silêncio impera, existe os dominantes e os dominados e os consumidores de luxo e os consumidores pobres. Segundo as equipas ou os meios, uns e outros dispõem de um mercado [4][5].

“Se nos acontecer qualquer coisa, não será um acidente”, declarou publicamente Ioulia Stepanova, em 15 de agosto de 2006. Conjuntamente com o seu marido, Vitaly Stepanov, colaborador da Agência Russa Antidopagem RUSADA, Ioulia denunciou a dimensão da dopagem no atletismo russo [6][7]. Durante uma videoconferência com jornalistas, a atleta russa, privada dos Jogos Olímpicos pelo Comité Olímpico Internacional (CIO), não escondeu a sua preocupação e receios devido ao terem acedido, de forma ilegal, à sua conta de correio eletrónico e à sua conta do sistema “Adams”, que permite localizar os atletas para serem controlados em permanência. Temendo pela sua segurança e integridade física, foram para a Alemanha, onde prestaram declarações junto de um canal de televisão, que revelou a amplitude do fenómeno de dopagem organizado russo, patrocinado pelas autoridades estatais [8]. Como não se sentiram seguros na Alemanha, rumaram para os EUA, onde obtiveram proteção.

Também é conhecida do público a história do ciclista americano Lance Armstrong, que admitiu, em 2013, ter tomado substâncias ilícitas. Foi destituído pela União Ciclista Internacional dos seus títulos de vencedor do Tour de France e foi excluído do ciclismo mundial. Outros exemplos de dopagem não faltam, nomeadamente o “Caso Festina” (operação contra a dopagem no ciclismo profissional realizada em 1998, em França).

Alguns atletas portugueses também não são alheios ao doping. Em 05 de setembro de 2016, algumas notícias dão conta da dimensão [9]. Segundo os dados apresentados pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), o número de casos positivos em Portugal mais do que duplicou em 2015 face ao ano anterior, passando de 16 para 36 casos. Nesse ano, foram recolhidas e analisadas 4.071 amostras. Nas Estatísticas do Desporto de Portugal, de 1996 a 2009, do IDP [10], surgem 47 casos (45 casos de doping e 2 de outras violações). Relativamente às modalidades desportivas, surgem com maior incidência o futebol, o ciclismo e a patinagem.

O que nos interpela nas revelações, que vão sucessivamente sendo públicas (e publicadas), mais do que as transgressões em si mesmas, é a tendência difusa de escamotear, minorar ou acantonar a dopagem. Muitos interesses, sem dúvida; diversas pressões, certamente. As suspeitas são gerais e as estruturas de algumas instituições desportivas fissuram. Vigarello (2002: 170) [11] sublinha que “as exigências económicas do desporto favorizam o doping”. Mas não podemos esquecer a questão política e a do espetáculo, cada vez mais central na sociedade de consumo.

As instituições desportivas e os meios de comunicação social defendem um mito: o do desporto em contrassociedade da real. A imagem é socialmente eficaz: modelo de perfeição proclamado, fundado sobre o princípio democrático (todos podem participar), e a meritocracia (a distinção obtém-se pelo trabalho e talento), possuindo os seus heróis, notáveis, especialistas, juízes, o desporto projeta um ideal de performance através de um universo lúdico. Mito porque dá um sentido ao jogo, faz sonhar, permite construir histórias, alimenta o imaginário (Vigarello, 2002) [11]. O que confirma os “grandes” atletas como as pessoas preferidas por todos.

O recurso à dopagem revela que o corpo “natural” não existe. O recurso ao produto eficaz parece prolongar “naturalmente” as exigências da performance e do treino. Os resultados são “artificiais”. Mas como condenar o universo desportivo, quando o artificial reina em todos os domínios da sociedade? Definir a dopagem pela moral, condenar os produtos porque ele “aumenta artificialmente as possibilidades” acumula ambiguidades. Não é fácil definir ou decretar onde começa o artificial. Por outro lado, o debate sobre o que é considerado legítimo e o que é ilegítimo é frágil (Becker, 1963) [12].

Mentir, ficar silencioso ou dizer a verdade no caso de dopagem ou de atos de corrupção na atividade desportiva? Em português, chamam-lhe “denunciante ou delator”. Em francês, chamam-lhe “lanceur d’alerte”. É uma pessoa, grupo ou instituição que denuncia uma má conduta ou uma atividade desonesta (fraude, corrupção, violações à saúde e à segurança de outrem, etc.), que ocorre numa organização pública ou privada. Os denunciantes podem apresentar as suas denúncias internamente (junto da hierarquia) ou externamente (órgãos fiscalizadores, polícia, meios de comunicação social, etc.). Alguns sites onde podem fazê-lo: http://www.adop.pt/contatos/denuncias.aspx; https://www.sportsleaks.com/fr/.

 

Referências

[1] Ehrenberger, A. (1991). Le culte de la performance. Paris : Calmann-Lévy.

[2] Yonnet, P. (2000). Le système des sports. Paris : Gallimard.

[3] Coubertin, P. (1919). « Lettre à Messieurs les Membres du Comité International olympique », janvier. In Müller, N. (1986). Textes choisis, 3 volumes, II – L’Olympisme. Zürich: Wedimann, p. 344.

[4] Brissonneau, C. (2003). Entrepreneurs de morale et carrières de déviants dans le dopage sportif. Prises de position et témoignages vécus dans la médecine du sport et dans deux disciplines sportives, l’athlétisme et le cyclisme (1960-2003). Thèse de doctorat STAPS (Dir. J. Defrance), Paris X-Nanterre.

[5] Brissonneau, C. (2007), « Le dopage dans le cyclisme professionnel au milieu des années 1990 : une reconstruction des valeurs sportives », Déviance et Société (2) (vol. 31), p. 129-148. DOI 10.3917/ds.312.0129, consultado em 01/06/2017.

[6] http://www.lemonde.fr/jeux-olympiques-rio-2016/article/2016/08/15/jo-2016-dopage-ioulia-stepanova-s-il-nous-arrive-quelque-chose-ce-ne-sera-pas-un-accident_4983124_4910444.html, consultado em 31/05/2017.

[7] http://www.dn.pt/desporto/rio-2016/interior/a-revolta-de-julia-stepanova-a-delatora-que-o-coi-castigou-5307519.html, consultado em 31/05/2017.

[8] http://geopolis.francetvinfo.fr/russie-youlia-et-vitali-stepanova-lanceurs-d-alerte-contre-le-dopage-112547, consultado em 01/06/2017.

[9] http://sicnoticias.sapo.pt/desporto/2016-09-05-Aumentam-casos-de-doping-em-Portugal, consultado em 31/05/2017.

[10] Estatísticas do Desporto, de 1996 a 2009, IDP.

[11] Vigarello, G. (2002). Du jeu ancien au show sportif. Paris : Seuil.

[12] Becker, H. (1963). Outsiders: Studies in the Sociology of Deviance. New York: The Free Press of Glencoe.

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