A produção de cutelarias em Guimarães

Dimensão analítica: Economia, Trabalho e Governação Pública

Título do artigo: A produção de cutelarias em Guimarães

Autor: Joel Oliveira

Filiação institucional: Sociólogo

E-mail: jfp.oliveira@hotmail.com

Palavras-chave: cutelarias, divisão do trabalho, produção industrial.

Guimarães foi desde sempre um dos principais centros de produção nacional de cutelarias. Mas como se desenvolveu o modo de produção de cutelarias em Guimarães?

No final do século XIX, as cutelarias eram produzidas em pequenas oficinas dentro da cidade e nas proximidades. As oficinas eram extremamente simples tinham apenas forjas, bigornas, martelos, limas, mós de amolar e rosas de polir movidas a braço. Em cada oficina trabalhavam entre dois a dez operários, geralmente o mestre, os oficiais e/ou os aprendizes. Em 1884, as cutelarias eram já o quarto sector de produção no concelho de Guimarães com maior número de operários, contando com 433 pessoas [7].

Nesta época, a divisão do trabalho organizava-se do seguinte modo: os mestres ocupavam-se da forja e os oficiais do restante. A protoindustrialização popularizou-se pelas regiões mais rurais da Europa Ocidental e conduziu a uma elevada concentração de artesãos. Este modelo de produção artesanal resultou do processo de urbanização, por ser o local onde se encontravam pessoas com ocupações semelhantes. Consequentemente, o incremento de cooperações permitiu uma maior especialização profissional [5].

Em Guimarães, houve manifestação e resistência à mecanização e os cutileiros argumentavam que esta os iria desqualificar, corroborando a tese de que a economia de mercado iria colocar indivíduo contra indivíduo e reduzir as relações sociais às trocas mercantis. Estas relações económicas destruiriam a criatividade e a autorrealização. A distinção entre a humanidade e a animalidade ficaria, deste modo, embaciada. O produto do trabalho tornar-se-ia uma mercadoria se: este não se destinasse exclusivamente à satisfação das necessidades; quando existisse uma divisão social do trabalho; e uma separação entre o valor de uso e o valor da troca [6].

O capital humano subdesenvolvido era outra dificuldade e em 1890 a Associação Comercial e Industrial de Guimarães reivindicou, junto do Governo, uma oficina de cutelarias para a recente Escola Industrial de Guimarães, alertando também para a necessidade de contratar um mestre da Alemanha, Bélgica ou França [2].

O desenvolvimento industrial, em Portugal, ocorreu tardiamente e nas cutelarias foi ainda mais demorado. A produção industrial resultou da migração da população rural para as cidades industriais, isto é, com a separação espacial entre a família, o local de produção e de comercialização [9]. A produção doméstica foi substituída por um sistema fabril, que utilizava a produção, e energia, mecânica. Este sistema permitiu uma maior divisão do trabalho, necessitou de um número elevado de trabalhadores no mesmo local e no centro da organização estava a autoridade patronal. A divisão do trabalho progride conforme aumenta o volume e a densidade populacional devido à maior intensidade na luta pela sobrevivência [4]. Este processo contribuiu também para o aumento da produção através de três vantagens: o aumento da destreza dos operários – a execução de uma única tarefa permite aprimorar essa função; a poupança de tempo – não despendem de tempo na mudança de tarefas; e a possibilidade de inserção de máquinas para realizarem determinadas funções – porque essa divisão permite pensar em máquinas de uma forma mais eficaz. Esta organização social permitiu uma produção mais racionalizada e em grande escala. [8].

Todavia, as primeiras fábricas de cutelaria em Guimarães surgiram na transição para o século XX e apenas três utilizavam energia mecânica: Joaquim Ferreira da Cunha utilizava energia hidráulica no Rio Ave, José Francisco da Silva & Filhos (Marca – Silva 5) e Joaquim Ribeiro Moura (Marca – Moura 35) usavam energia a vapor. A produção industrial de cutelarias surgiu depois Primeira Guerra Mundial e teve início em Solingen, na Alemanha, fundamentalmente com a introdução da tecnologia de estampagem a quente. Esta tecnologia permitiu finalmente o incremento da produção em série nas cutelarias. Contudo, a estagnação em Guimarães iria permanecer durante mais algum tempo, pelo menos até à implantação da multinacional alemã Chromolit [3]. Neste período a indústria de cutelarias empregava, diretamente, mais de 1300 pessoas.

A Globalização possibilitou que muitas empresas usufruíssem de uma divisão internacional do trabalho. O desenvolvimento tecnológico está evidente quando analisamos a produtividade que a indústria alcançou e quando observamos a diminuição significativa da necessidade de mão-de-obra das últimas décadas. Diversos postos de trabalho, tradicionalmente estáveis, tendem a extinguir-se devido ao progresso da automatização. Por exemplo, os robots de produção e a tecnologia de informatização [1]. Na indústria de cutelarias, em Guimarães, este processo está francamente evidente. Nas empresas mais desenvolvidas, como a Cutipol por exemplo, o processo de produção está bastante robotizado, compondo-se do seguinte modo: corte; laminagem; estampagem; polimento; acabamento (lavagem e controlo) e embalamento.

A produção de cutelarias em Guimarães, até meados do século XX, realizava-se de forma artesanal e atualmente efetua-se através de um modo de produção industrial tecnologicamente evoluído, concorrendo num mercado globalizado. Porém, um dos efeitos provocados pelo desenvolvimento tecnológico e pela Globalização tem sido a progressiva e significativa diminuição da necessidade de mão-de-obra. Atualmente existem uma dúzia de fábricas e empregam diretamente cerca de 600 pessoas. No entanto, o volume de produção e faturação tem aumentado gradualmente e esta tem como destino os cinco continentes.

“A maravilhosa água de Guimarães, para a têmpera do aço” [7], continua a dar resultados e o saber-fazer enraizado faz desta região uma exclusividade na produção de cutelarias de mesa.

Notas:

[1] Beck, Ulrich (2010), La Sociedad del riesgo. Hacia una nueva modernidad, Barcelona, Ediciones Paidós Ibérica, 3.ª Ed.

[2] Cordeiro, José M. L (1995), “A indústria na Região de Guimarães: um caso de proto-industrialização?” in Museu Alberto Sampaio, Congresso histórico comemorativo dos 150 anos do nascimento de Alberto Sampaio: actas, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães

[3] Cordeiro, José M. L. et al. (2014), Guimarães: a tradição das cutelarias, Guimarães, Associação Comercial e Industrial de Guimarães

[4] Durkheim, Émile (1989), A divisão do trabalho social, Lisboa, Presença, 3.ª Ed, Vol. I e II, (Primeira edição 1893)

[5] Lucassen, Jan; Moor, Tine De; Zanden, Jan Luiten Van (2008), «The Return of the Guilds: Towards a Global History of the Guilds in Pre-industrial Times». IRSH 53, Supplement, pp. 5-18

[6] Marx, Karl (1967), O Capital, Rio de Janeiro, Zahar, Vol. I e II, (Primeira edição 1867)

[7] Sampaio, Alberto; MEIRA, Joaquim José de (1884), Relatório da Exposição Industrial de Guimarães em 1984, Porto

[8] Smith, Adam (1987), Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª Edição, Vol. I, (Primeira edição 1776)

[9] Weber, Max (2010), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Oeiras, Editorial Presença, (Primeira edição 1904)

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