hOPENING DEMENTIA – um projeto de intervenção

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: hOPENING DEMENTIA – um projeto de intervenção

Autor/a: Diogo Duarte (1); Ana Costa (2); Lígia Lopes (3)

Filiação institucional: (1) Santa Casa Misericórdia de V. N. Gaia; (2) Santa Casa Misericórdia de V. N. Gaia; Associação Design Includes You; (3) Associação Design Includes You;

E-mail: diogo.v.duarte@gmail.com; costa.anasantos@gmail.com; ligia.lopes@designincludesyou.org

Palavras-chave: Demência; Criatividade; Intervenção.

O programa hOPENING DEMENTIA é um projeto integrado na associação “Design Includes You”. A Associação DIY foi criada com o propósito de oferecer uma plataforma de diálogo e projeto entre designers e outros profissionais que pratiquem e/ou se interessem pelas práticas participativas e inclusivas. Embora seja o Design a principal disciplina que define a associação, o Design serve também como elemento conector entre as mais diversas áreas, mostrando a potencialidade das suas ferramentas de mobilização e interação social. Neste domínio o Design oferece não só a concepção de produtos (físicos) mas também o desenho de interações [1]. Ao longo dos anos, temos procurado estabelecer relações e parcerias que provoquem mudanças paradigmáticas, que incitem reflexão, discussão e, sobretudo, mostrar os benefícios (gerais) para a inclusão de grupos socialmente excluídos nas práticas quotidianas em diversas áreas.

Se a demência é uma condição que assiste apenas a algumas pessoas, a criatividade é uma condição que assiste a todos. Na presença de quadros demenciais a investigação tem vindo a demonstrar que o investimento no “trunfo” criatividade com finalidade terapêutica é uma boa aposta para a promoção de bem-estar [2] e coping com a condição clínica [3]. É neste cenário criativo, cooperativo e multidisciplinar que o hOPENING DEMENTIA se enquadra no perfil de atividades que a Associação Design Includes You promove.

O programa hOPENING DEMENTIA está orientado para proporcionar atividades sentidas como significativas ao investir na transmissão de sensações de prazer e envolvimento, conexão e pertença, autonomia, identidade e utilidade [4].

Figura 1. Pintura com açafrão e canela.

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 “Cheira bem, parece que estamos no Natal. Quando vem o Bolo-rei?

Olhe para o que eu fiz, que disparate, eu bem lhe disse que não sabia fazer nada disto. O que é que isto é? Que disparate (ri)! Olhe, é uma girafa com barba que está velha como eu (ri).” (Amélia, 73 anos)

A arte constitui um meio para criar experiências significativas para pessoas com demência e seus cuidadores em diversos ambientes (museus, galerias, bibliotecas, habitações privadas, estruturas residenciais para idosos, jardins, bibliotecas, etc). A abordagem pode ser mais individualizada ou em grupo [5] [6]. Nesse sentido, temos vindo a ‘desenhar’ ações que nos mostram que os resultados das interações podem fornecer informações relevantes para a investigação e prática, tanto para profissionais como para cuidadores informais e sobretudo beneficiar as pessoas com demência; proporcionando-lhes experiências que as valorizam e dignificam o seu passado e o seu presente (Figura 1).

Quando em grupo, para o cuidador, a participação neste tipo de programa pode ser uma experiência muito relevante. O contacto com outros cuidadores tende a ser, pela partilha de experiências, normalização de sentimentos, pensamentos, comportamentos e intercâmbio de estratégias práticas para lidar com a pessoa cuidada e com a função de cuidar, terapêutico no alívio do burden decorrente da prestação de cuidados. As atividades constituem momentos em que a prestação de atenção e cuidado é apoiada por terceiros e oferecem oportunidades de interação num ambiente positivo, estimulando comunicação e conexão [7] (Figura 2).

Os resultados das sessões/workshops realizadas na Casa da Música, no Museu Nacional Soares dos Reis e na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, vieram comprovar que o potencial hOPENING DEMENTIA poderá ser explorado em diversas vertentes – comunicação e estimulação sensorial, atividades exploratórias e produção de artefactos que conceptualmente simbolizam a construção de memórias.

Figura 2. Workshop Casa da Música, 2015.

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Para a pessoa com demência, observar, discutir e/ou produzir arte representa uma oportunidade de estimulação cognitiva, aceder e trabalhar reminiscências, sentir competência em atividade e inclusão social, expressar e afirmar a sua identidade individual perante os outros, mas igualmente perante si mesmo [8].

Figura 3. Workshop Museu Nacional Soares dos Reis, Porto 2015.

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Figura 4. Sobre a mesa colocamos pedaços de tecido e material para desenho. A todos oferecemos uma tela branca e pedimos que deixassem as formas desconstruídas oferecer o caminho. O Sr. João recriou a viagem a Paris quando foi visitar a filha: a prenda que lhe levou. (João, 85 anos)

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No hOPENING DEMENTIA a disponibilidade emocional é sempre o nosso ponto de partida, a via que privilegiamos para chegar a um “lugar/produto” cheio de memória, comum, seguro e confortável (Figura 3 e Figura 4).

Todos temos uma voz interior que fala sem palavras, porque as avaliamos inúteis, incapazes de retratar sentimentos ou pensamentos, insuficientes, desnecessárias, (…).

Nestes diferentes “palcos” que o programa oferece, construímos personagens, personificamos objetos e podemos oferecer vida própria aos pensamentos/palavras que tantas vezes gritam só cá dentro e não se traduzem em voz… Distingue-nos o que fazemos, onde e como fazemos. Oferecemos momentos (formativos, de intervenção, de educação, de sensibilização…) em forma de prendas, das que vêm numa caixa, embrulhadas com cuidado e amor.  Procuramos oferecer o melhor de nós, facilitando o caminho ao melhor de cada um.

Este percurso é só possível porque apoiado por parceiros que facilitam o crescimento e a continuidade do projeto, o nascimento de novas ideias e a criação de novos projetos.

Notas

[1] Lee, Y. & Bichard, J. (2008). ‘Teen-Scape’: Designing Participations For The Design Excluded’, In Proceedings Of The Participatory Design Conference 2008, Indiana University, 1-4 October, Bloomington, Usa.

[2] Fritsch, T., Kwak, J., Grant, S., Lang, J., Montgomery, R. R., & Basting, A. (2009). Impact Of Timeslips, A Creative Expression Intervention Program, On Nursing Home Residents With Dementia And Their Caregivers. The Gerontologist, 49(1), 117–127. Doi: 10.1093/Geront/Gnp008.

[3]Schmitt B, Frölich L (2007).  Creative Therapy Options For Patients With Dementia – A Systematic Review. Fortschritte Der Neurologie-Psychaitrie. 75, 12, 699-707.

[4] Scholzel-Dorenbos, C. J. M., Ettema, T. P., Bos, J., Boelens-Van Der Knoop, E., Gerritsen, D. L., Hoogeveen, F., Droes, R.-M. (2007). Evaluating The Outcome Of Interventions On Quality Of Life In Dementia: Selection Of The Appropriate Scale. International Journal Of Geriatric Psychiatry, 22, 511–519. Doi: 10.1002/Gps.1719.

[5] Beard, R. L. (2012). Art Therapies And Dementia Care: A Systematic Review. Dementia, 11, 633-656. Doi: 10.1177/1471301211421090

[6] De Medeiros K, Basting A. (2013). “Shall I Compare Thee To A Dose Of Donepezil?”: An Overview Of Intervention Research In Dementia Care. The Gerontologist, 54(3), 344-353.   Doi: 10.1093/Geront/Gnt055

[7] Rosenberg, F., Parsa, A., Humble, L. & McGee, C. (2009). meet me. Making Art Accessible to People with Dementia. New York: The Museum of Modern Art.

[8] Basting, A. D. & Killick, J. (2003).  The arts and dementia care: A resource guide.  Brooklyn: The National Center for Creative Aging.

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