Consumo colaborativo: Da ‘boleia’ às plataformas de partilha de carro

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Consumo colaborativo: Da ‘boleia’ às plataformas de partilha de carro

Autora: Isabel Silva Cruz

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

E-mail: imsilvacruz@gmail.com

Palavras-chave: Consumo colaborativo, novas formas de negócio, boleia, plataformas de partilha de carro.

A antiga prática de ‘andar à boleia’ assume, nos dias de hoje, novas formas potenciadas pela Web. Em vez do ‘dedo esticado’ na berma da estrada (o mesmo com que agora fazemos ‘Gosto’ no Facebook), acompanhado ou não do letreiro, escrito à mão em papel de cartão, com a indicação do destino, é nas plataformas de partilha de carro, associadas aos novíssimos movimentos sociais ou a novas formas de negócio, e no Facebook (FB), em grupos privados ou abertos, que atualmente são efetuadas inúmeras publicações relativas à partilha de carro. Condutores e passageiros postam nas redes sociais oferta / procura de boleias para os mais diversos trajetos (dentro do país e para o estrangeiro), indicando a hora e o ponto de partida e de chegada. As publicações são diferentes na forma e no conteúdo. Umas concretas e precisas restringem-se à informação estritamente necessária (hora, trajeto). Outras mais criativas e apelativas, por vezes com recurso a imagens, fornecem elementos caracterizadores do condutor / passageiro de modo a que a escolha seja feita com base em áreas de interesse ou mesmo estilos de vida partilhados.

Estas práticas de partilha de carro enquadram-se no conceito de consumo colaborativo que, como referi num artigo anterior [1], pode ser definido como um meio que permite aos indivíduos satisfazerem as suas necessidades e desejos de modo mais sustentável e com menor custo [2]. De facto, quer a antiga ‘boleia’ quer a publicação de um post nas redes sociais e na Web, configuram práticas de consumo colaborativo na medida em que colocam em relação um condutor e um passageiro que utilizando um veículo (objeto de consumo) satisfazem uma necessidade. Em contexto de fraco desenvolvimento social e económico (até ao final da década de 60) ou de crise (com início em 2008) os portugueses recorrem à boleia ou a plataformas de partilha de carro para ultrapassar dificuldades de deslocação decorrentes da falta de dinheiro disponível e, simultaneamente, contribuem para a redução da pegada ambiental.

O consumo colaborativo é um conceito que retoma práticas tão ancestrais como a troca e a partilha [3] e que, simultaneamente, incorpora traços distintivos, nomeadamente os relativos às práticas de consumo sustentáveis e à centralidade das redes sociais (Web) na sua difusão. Neste novo contexto, a análise das práticas de consumo colaborativo suscitou uma reflexão em torno dos conceitos de comunidade, de reciprocidade e de confiança, considerados centrais na abordagem teórica das práticas colaborativas. Uma outra questão relevante prende-se com o aproveitamento do potencial gerado através das plataformas de partilha, de trocas e de aprovisionamento por novas formas de negócio. A existência de qualquer proveito económico resultante das plataformas de partilha é questionado e considerado um indicador da intensificação da exploração dos consumidores e dos trabalhadores no contexto da economia de partilha [4]. É esta última questão que nos propomos abordar a partir da análise da emergência das plataformas de partilha de carro, em Portugal.

As primeiras plataformas de partilha de carro surgem em 2009 e são lideradas por empresas (Galpshare e Menos um Carro), o que constitui desde logo uma especificidade do caso português. A crise petrolífera motivou a criação da Galpshare com o objetivo de simultaneamente promover práticas de consumo sustentável (redução dos lugares vazios nas viaturas) e a fidelização os clientes (consumidores da Galp). O contexto de crise económica, social e ambiental estimulou a CARRIS a promover um sistema de mobilidade urbana baseado na complementaridade com o transporte público (Menos um Carro). Em ambos os casos constata-se que o incremento de práticas de consumo colaborativo constitui um meio para garantir a promoção do negócio e que este objetivo é mitigado através da forte associação entre as dimensões ambiental e económica, que caracteriza as plataformas de partilha. Assim, estas plataformas não devem ser consideradas como exemplos de práticas de consumo colaborativo.

Em 2010 surgem no FB os primeiros grupos de boleia que ligam as duas principais cidades (Lisboa e Porto) e a capital a Aveiro. Em 2013 aumenta o número de grupos nas redes sociais e as associações de estudantes universitários incluem-se entre os promotores deste tipo de iniciativas. No início os grupos são maioritariamente fechados, constituindo comunidades construídas em torno de relações amicais que reforçam a confiança entre os pares e promovem as práticas de consumo colaborativo. Com o tempo os grupos vão-se alargando através da integração de novos membros (os amigos dos amigos) e alguns deles apostam na progressiva abertura a novas pessoas de modo a aumentar a eficácia do grupo na satisfação das necessidades dos seus membros face a recursos que se tornam limitados. A entrada de novos membros é controlada pelo/a administrador/a do grupo de modo a não colocar em causa a questão da confiança, com base na qual o risco e a insegurança são mitigados. A similitude de interesses e valores, a identificação centrada nos estilos de vida constitui um fator de coesão do grupo. A avaliação pelos pares corresponde, a par da definição pelo/a administrador/a dos limites considerados aceitáveis para os custos partilhados nas deslocações, um outro mecanismo de controlo. Contudo, e como já foi referido anteriormente, a existência de transações monetárias deve ser analisada de modo detalhado já que é tido como um fator polémico, nomeadamente quando as mesmas correspondem a proveito económico e, deste modo, subvertem o conceito de consumo colaborativo.

Notas

[1] Cruz, Isabel (2015), Consumo colaborativo: uma alternativa em tempos de crise?, http://www.barometro.com.pt/2015/10/09/consumo-colaborativo-uma-alternativa-em-tempos-de-crise

[2] Botsman, Rachel; Rogers, Roo (2010), What’s Mine Is Yours: The Rise of Collaborative Consumption, New York: Harper Business.

[3] Felson, Marcus; Spaeth, Joe (1978), “Community Structure and Collaborative Consumption: A Routine Activity Approach”, American Behavioral Scientist, 21 (4), pp. 614-24.

[4] Slee, Tom (2015), What’s Yours is Mine. Against the Sharing Economy, New York, NY: OR Books.

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