A sustentabilidade e a capacitação organizacional da economia social: Algumas notas em torno do sector social

Dimensão analítica: Economia e Política

Título do artigo: A sustentabilidade e a capacitação organizacional da economia social: Algumas notas em torno do sector social

Autora: Helena Reis Amaro da Luz

Filiação institucional: Investigadora associada CICS.Nova & CIES-IUL

E-mail: helenareis2008@gmail.com

Palavras-chave: Economia Social, Sustentabilidade Organizacional; Capacitação Organizacional.

Em Portugal as organizações de economia social visibilizam “práticas” mais do que reconhecidas e configuram uma presença influente na realidade social e económica decorrente da sua atuação em “espaços oportunos” que se caracterizam por um “vazio” de atuação do Estado e mercado, na resposta a necessidades sentidas dos indivíduos, das sociedades e dos contextos [1] ou seja, o carácter estruturante da economia social na sociedade portuguesa distingue-a como uma componente da regulação sócio económica, com destacadas virtualidades, em domínios vários e em particular, no sector social, i.e, no campo da provisão de bens e serviços sociais [2]

A este nível são reconhecidas à economia social especificidades meritórias assentes por exemplo, na sua capacidade de gerar confiança por entre os públicos destinatários, na proximidade relacional que demonstram em relação aos problemas concretos, permitindo implementar soluções inovadoras e melhor adaptadas a cada realidade, na missão que as caracteriza e que aspira à criação e maximização de valor social, entre outras [3]

Não obstante, estas organizações enfrentam na atualidade um conjunto de desafios decorrentes das suas especificidades económicas, lógicas de configuração e atuação mais tradicionais usualmente conotadas com os fracassos do sector não lucrativo, bem como resultantes de dinâmicas de pressão oriundas dos ambientes crescentemente competitivos onde operam (atração do mundo empresarial para desenvolver serviços de mercado providência), da alteração dos padrões de financiamento público e dos novos contornos dos problemas sociais, que reclamam novas orientações a serem por si prosseguidas.

Neste âmbito, a temática da sustentabilidade amplamente polarizada no debate político ergue-se já como um tema recorrente e transversal às organizações de economia social mostrando ser no presente um eixo orientador da sua dinâmica ou o novo paradigma para o seu desenvolvimento e renovação.

Largamente referenciada desde finais do século XX a sustentabilidade mostra ser um constructo em evolução que agrega significados e práticas, orienta escolhas e tomadas de decisão, em diferentes períodos e contextos quer à escala macro (sociedades), meso (instituições) ou micro social (indivíduos). Sendo de aplicação generalizada e reunindo uma variedade de definições esta é uma noção que se impôs como resposta à crise do desenvolvimento tendo emergido ancorada à ideia de desenvolvimento sustentável para centralizar posteriormente a importância do equilíbrio entre as dimensões ambientais, sociais e económicas para a existência humana.

Assim e na sua essência a ideia de sustentabilidade é portadora de um “projeto de mudança” e tende a colocar-se como o guião decisivo na construção de uma nova ordem social, advogando a prioridade do estabelecimento de uma melhor inter-relação das pessoas com os “sistemas” que as enquadram em benefício da mútua sobrevivência, da qualidade de vida e eficiência na utilização dos recursos. Independentemente das aplicações que o termo tem vindo a suscitar o denominador comum às diferentes abordagens resulta da ideia de que a sustentabilidade traduz um estado ou condição não permanente que carece de ímpetos ou dinâmicas para que a mesma seja alcançada e assume um cariz multidimensional, que aspira a manter e a fazer perdurar num horizonte futuro, capacidades, recursos e bem-estar [4].

Deste modo e transportada para o campo da economia social, a sustentabilidade refere-se à permanência das organizações e à sua continuidade no longo prazo tendo por base os seus objetivos e missão organizacional, argumentando-se que as organizações sustentáveis são aquelas que são capazes de sobreviver e continuar a servir os seus públicos, são capazes de funcionar perante situações em mudança, são capazes de captar recursos – financeiros, materiais e humanos – de maneira suficiente e duradoura utilizando-os com competência a favor da continuidade da organização e são capazes de estabelecer relações mútuas e interdependentes nas quais as partes assumem riscos e desenvolvem relações de confiança entre si [5]. [6].

Assim, a aplicabilidade deste conceito introduz dois tipos de implicações de natureza compreensiva que importa reter, desde logo, a abordagem da sustentabilidade nestas organizações carece de ser alargada a dimensões que ultrapassam largamente a vertente económica e por outro lado os processos ou ímpetos orientados para a sustentabilidade assentam em dinâmicas de capacitação organizacional. Tal significa quanto ao primeiro aspecto a necessidade de equacionar a sustentabilidade como um constructo multifacetado e agregador de dimensões focalizadas em particular, nos planos social, económico e político ou seja, que exprimam a mais-valia ou valor, social (poder continuar a missão social, satisfazer velhas e novas necessidades/riscos sociais), económico (estabilidade económico-financeira) e político (alianças/capital relacional) para as organizações. Paralelamente, deve compreender-se que neste enquadramento a sustentabilidade convoca processos e estratégias, orientadas, de capacitação organizacional, para que possa ser alcançada.

No essencial, o elemento distintivo da capacitação organizacional reside no fortalecimento da organização, através de uma renovação contínua das suas capacidades organizacionais visando responder a procuras/necessidades sociais emergentes e impulsionadas pelos contextos em mutação. Ainda que este seja um conceito que permanece vago no debate, a dinâmica que lhe está implícita reflete forte oportunidade para compreender a performance/padrões de atuação das organizações, na sua relação com ambientes dinâmicos e com vista à prossecução da sua missão e objetivos sociais. A este nível emergem constructos próximos erguidos sobre as noções de capacity building e organizational empowerment, sobressaindo transversalmente às diversas abordagens a importância do seu entendimento como um processo que culmina em resultados acoplados à ideia de sustentabilidade. Resulta daqui que os processos associados à estratégia organizacional, liderança transformacional, inovação social, avaliação do impacto social, accountability estratégica, fundraising, angariação de voluntariado especializado, marketing social, estabelecimento de alianças colaborativas, entre outros constituem algumas das vertentes da capacitação passiveis de preservar ou incrementar o “nível corrente” de sustentabilidade nas organizações que são guiadas por uma missão social, como são as de economia social. Importa pois salientar que o caminho a favor da sustentabilidade evidencia complexidades, contudo desde que equacionados em função da especificidade destas organizações, os processos de capacitação constituem a via ou as ferramentas que lhes permitem alcançar uma interação resiliente com os contextos em transformação, uma utilização mais eficiente dos recursos económico/financeiros, afirmando a par, a sua credibilidade e envolvimento mais ativo nos espaços de proximidade onde operam.

Notas

[1] Amaro da Luz, H. (2006). A economia social face às questões do emprego: A função reguladora do terceiro sector no domínio da política económica e social. Coimbra: Fundação Bissaya Barreto.

[2] Incluem-se genericamente neste âmbito as Instituições Particulares de Solidariedade Social

[3] Amaro da Luz, H. (2016). As políticas sociais face ao imperativo da sustentabilidade: lógicas emergentes a partir da economia social. In C. Albuquerque & Amaro da Luz, H. (Eds.) – Politicas Sociais em tempos de crise: Perspetivas, tendências e questões criticas, Lisboa: Pactor, pp.59-81.

[4] Kuhlman, T. & Farrington, J. (2010). What is Sustainability? Sustainability, 2, pp. 3436-3448.

[5] Weerawardena, J., McDonald, R. E. & Mort, G. S. (2010). Sustainability of nonprofit organizations: An empirical investigation. Journal of World Business, 45, pp. 346-356.

[6] Pestoff, V. (2011). Co-production, new public governance and third sector social services in Europe, Ciências Sociais Unisinos, 47(1), pp.15-24.

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