A criatividade no centro do processo educativo

Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia

Título do artigo: A criatividade no centro do processo educativo

Autor: João Valente Aguiar

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

E-mail: joaovalenteaguiar@gmail.com

Palavras-chave: Criatividade, Educação, Capital Humano.

I – Reflexão, trabalho de equipa e comunicação

Parte significativa das discussões públicas andam em torno das verbas contempladas no Orçamento do Estado para o Ministério da Educação. Se esse é indiscutivelmente um tema relevante, a avaliação da maior ou menor adequação do setor à restante sociedade tem sido deslocada para um plano secundário. Neste artigo em duas partes procura-se debater alguns aspetos da Educação enquanto motor para a difusão de práticas pedagógicas que estimulem a criatividade, a curiosidade científica e o recurso a expressões artísticas e culturais. Na medida em que estas questões se encontram muito mais diluídas no Ensino pré-universitário, será nesses ciclos que se encontram as maiores insuficiências, mas também os maiores desafios na consideração da Escola enquanto motor de criatividade.

Em primeiro lugar, isso significa dotar a escola de ferramentas formativas que, no fundamental, ainda escasseiam, tais como a sensibilização de vários docentes para irem além da mera preleção ou do virar da página dos manuais. Neste âmbito, a redefinição dos programas curriculares – tidos como extensos e construídos a metro – e a oferta formativa aos docentes são dois passos estruturais. Contudo, estes são processos necessariamente mais lentos pelo que, por si só, não são suficientes para configurar a Escola como espaço de criatividade.

Daí que, em segundo lugar, a assunção da criatividade passe pela conjugação dos conteúdos programáticos centrais das Ciências, da Matemática e das Expressões no plano de metodologias de projeto. Tentando ser sucinto, isso significa que as atividades escolares deverão passar cada vez mais por aprendizagens relevantes, apelando a que os alunos sejam confrontados com desafios/problemas a resolver. Este tipo de abordagens oferece uma dupla vantagem. Por um lado, ao colocar os estudantes perante um desafio só por si isso implica um exercício de reflexão e problematização. Por outro lado, esta abordagem alia trabalho de grupo, desenvolvimento de competências de comunicação e, não menos importante, adequa conhecimentos teóricos a dimensões concretas.

Seccionando cada um dos vetores, verifica-se que um processo de reflexão e de problematização induz um movimento de cognição dos estudantes relativamente ao que lhes surge como desafio/problema. Seja para escolher um tópico de atividade em torno do qual se vai desenvolver um projeto, seja para responder – de modo processual e contínuo – ao decorrer do projeto, os mecanismos de reflexão dos estudantes saem reforçados. Ora, esta reflexão não se foca unicamente no plano individual mas engloba complementarmente o debate e a partilha de ideias com os pares e professores, permitindo aprimorar o trabalho em equipa. Em simultâneo, o facto de o debate reflexivo ter uma componente coletiva leva ao acionar de mecanismos de comunicação. Dentro dos processos de comunicação, pelo menos desde o Primeiro Ciclo, valeria a pena repensar o papel da Expressão Dramática na maturação de competências sociais e interativas. Nesta ótica, reflexão-trabalho de equipa-comunicação surge como um tripé sustentador de toda a metodologia de projeto. Por último, a adequação entre conhecimentos teóricos e práticos consiste numa valência fulcral no desenvolvimento cognitivo, comportamental e das competências de uma criança ou jovem.

II – Ciência, Expressões, Cidadania

Não há projeto prático bem-sucedido ao nível das empresas, da investigação científica ou das políticas públicas que não tenha partido de um bom conhecimento teórico prévio. Por seu turno, a concretização efetiva e concreta desses projetos bem-sucedidos advieram também de práticas, de técnicas e de competências que os atores sociais acionaram de modo criativo e sempre na base da necessidade de responder a problemas e desafios. Tomemos o exemplo do SNS. Apesar de subsistirem problemas, o SNS é uma das mais importantes construções da democracia portuguesa. A sua génese, implantação e crescimento advém de um movimento circular e retroativo. Advém da consciência de que o conhecimento científico médico acessível à população é a arma mais potente para tentar curar ou tratar enfermidades e patologias. E releva igualmente do empenhamento e do planeamento estratégico de tentar fornecer uma estrutura material e institucional que facilite acesso a cuidados de saúde, acesso a esse mesmo conhecimento e práticas médicas de qualidade. Para erguer este edifício institucional foi necessária capacidade de trabalho e criatividade dos agentes políticos e dos profissionais de saúde.

A necessidade da criatividade, de mais criatividade na educação não-universitária é ainda mais premente nos primeiros anos de escolaridade. Por experiência própria os professores do 2º e 3º Ciclos em muitas zonas urbanas recebem anualmente levas de alunos que já estão completamente desmotivados e sem qualquer tipo de identificação cognitiva e afetiva com a Escola. Esta não é uma consequência de um mau trabalho dos professores do 1º Ciclo. Pelo contrário, demonstra a necessidade das práticas pedagógicas e da atenção central que os agentes educativos (Ministério, agrupamentos, escolas, professores, pais, autarquias) devem endereçar a uma ação efetiva nos primeiros anos escolares. Só para falar das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, serão mesmo alguns milhares os estudantes que chegam ao final do 1º Ciclo num estado de profundo desajuste comportamental, emocional e cognitivo relativamente aos processos de aprendizagem. Nesse sentido, e porque os frutos de medidas sustentadas de política pública na Educação demoram necessariamente alguns anos a obter resultados, se se quer evitar que uma parte das novas gerações passe pela Escola e sem dela retirar competências, o envolvimento escolar dos alunos numa base de criatividade é uma necessidade.

O triângulo Ciência, Expressões e Cidadania poderia repercutir-se em três grandes eixos que, por economia de espaço, apenas se pode aqui enunciar brevemente. A centralidade da Ciência deveria ser uma aposta maior desde o 1º Ciclo. E quando falo em Ciência não me refiro simplesmente ao reforço das Tecnologias da Informação. Refiro-me ao desenvolvimento de projetos específicos em torno de determinados temas (água, saúde, plantas e animais, etc.) e onde os alunos fossem ensinados a construir uma linha de pensamento proto-científico: pergunta-procura de hipóteses-observação-(sistematização e discussão de) resultados. Esta linha de pensamento é a base de qualquer compreensão científica dos fenómenos. O exemplo de conhecimentos e práticas multidisciplinares e alargadas como os Centros de Ciência Viva (e aqui gostaria de realçar especificamente o de Aveiro), demonstra como se poderia (e deveria) fazer Ciência logo a partir do 1º Ciclo. Por outro lado, as Expressões modulam práticas heterogéneas como a gestão de sentimentos, a expressividade artística, o contacto com materiais e, no centro, a capacidade de criar realidades e manifestações novas. Ora, esta é a essência mesma da criatividade. Por último, a Cidadania já que o comprometimento dos alunos com tarefas criativas induz reflexividade e problematização, vetores fundamentais para a participação cívica (e civilizada) em sociedade.

Vemos assim que o triângulo Ciência-Expressões-Cidadania se pode projetar na vida adulta num outro triângulo frutuoso entre Razão, Arte e Democracia.

Nota:

[1] SFRH/BPD/85425/2012

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