Prevenção, Diagnóstico Precoce e Rastreio

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Prevenção, Diagnóstico Precoce e Rastreio

Autor: José Alves

Filiação institucional: Médico, Professor Universitário, Vice-presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão

E-mail: francisco.jose.pereira.alves@gmail.com

Palavras-chave: Prevenção, Epidemiologia, Medicina.

A inversão da pirâmide demográfica no mundo desenvolvido ocorre pela diminuição da taxa de natalidade mas, também, de forma importante, pelo aumento da esperança de vida, consequência direta das alterações ocorridas, durante as últimas décadas, em medicina, no plano diagnóstico e terapêutico. O envelhecimento da população levanta problemas novos, como os custos sociais ou o apoio afetivo, resultantes das dificuldades de financiamento, usualmente baseado no trabalho dos mais novos, e na difícil inserção no tecido social existente, havendo tendência, pelas características das famílias atuais, para o isolamento dos idosos em casa própria ou instituições de suporte. Estes constrangimentos coletivos não têm eco a nível individual, onde, o aumento da esperança de vida, com mais ou menos qualidade, é bem-vindo e procurado com afinco, desvelo e, muitas vezes, obsessão.

A capacidade terapêutica evoluiu de forma admirável na substituição de atos cirúrgicos por terapias médicas, é o caso dos inibidores da bomba de protões que vieram resolver com vantagem inúmeros problemas gástricos, antes tratados cirurgicamente com intervenções por vezes incapacitantes, no aparecimento de novas técnicas cirúrgicas relacionadas diretamente com o prolongamento da vida, transplantes, cirurgias cardíacas valvulares e de revascularização, cirurgia oncológica, nas técnicas de substituição como a hemodiálise, a ventilação não invasiva, a circulação extracorporal, ou muito simplesmente a insulina e, finalmente, ao nível da farmacologia, antibióticos, antiasmáticos, antineoplásicos, anti hipertensores. Todavia, a prevenção, o diagnóstico precoce e o rastreio, são, no seu conjunto, a principal razão para o aumento de esperança de vida com qualidade e pelo aparecimento mais tardio das primeiras patologias.

Os conselheiros reais viviam, em média, muito mais que os monarcas, não sendo infrequente aconselharem, filhos, pais e avós. Podemos evocar a carga genética mas é mais provável que tal facto se deva aos hábitos diferentes, sendo mais dados aos exageros estes e mais moderados aqueles. Desde sempre se reconheceu a bondade da prevenção. Medidas simples como a evicção tabágica, a ingestão racional de sal, glicose ou álcool, o exercício físico regular, apesar de generalistas e transversais à população, têm ótimos resultados. Outras medidas, mais específicas, dirigidas a doentes com patologia particulares, como acontece com o enfisema pulmonar e a evicção de ar poluído, ou com a dieta em alguns casos de litíase renal, são igualmente determinantes na qualidade de vida, embora necessitem de esclarecimento atento da população. Esta informação médica, sendo necessária, para os bons resultados da prevenção, traz em si, alguns “efeitos secundários” decorrentes da medida certa ou do exagero. A população assiste a programas televisivos sobre as mais diversas patologias, vive os dias do coração, da diabetes, do fumador e do não fumador. A doença e o risco são uma obsessão. Vivemos, alguns, em alarme constante, incapazes, como diria Saramago, de dar o próximo passo temendo as consequências futuras, imediatas, médias ou longínquas.

Vive-se mais, mas vive-se mais estando doente, com várias doenças, a pior, talvez, é a doença da convicção de poder estar doente, grave, só passa quando se fica realmente doente. E muitas vezes, estranhamente, o diagnóstico é libertador porque acaba com o medo, transversal à população. É o medo que nos leva ao hospital, medo do enfarte, do cancro, do acidente vascular cerebral, da pneumonia, de qualquer coisa, tantas vezes fantasias, inventadas pelo assédio de informação que de tão maciço e pouco assertivo passa a desinformação. Uma fatia importante da população vive em ansiedade, espera o resultado da TAC que vai fazer dentro de meses, espera que a sua hipertensão arterial desça para valores pré definidos, mede regularmente o colesterol ou os triglicerídeos, temendo muitas vezes nem sabe o quê. Os médicos estão de mãos atadas no meio destas sucessivas solicitações. Quem é que pode dizer: basta, não faça mais, esqueça. Quem pode ir contra os “guidelines” definidos por sociedades científicas internacionais inquestionáveis.

O diagnóstico precoce e o rastreio, sendo conceitos diversos, são determinantes nos bons resultados da epidemiologia médica e precisam, os dois, do contributo da população que deve conhecer as diferentes patologias. O ensino dos sintomas e sinais que levam ao diagnóstico precoce e dos grupos etários que beneficiam com os rastreios é fundamental para aumentar a aderência a estas metodologias diagnósticas. A utilização dos meios de comunicação é necessária e bem-vinda, é a única maneira de obter a atenção da população, precisa-se que ocorra com profissionalismo, sem sensacionalismo ou interesses comerciais mais ou menos paralelos. Devem ser definidas as linhas de corte com exatidão, isto é, quem deve ou não deve ser objeto de rastreio, bem como as queixas que obrigam ao diagnóstico precoce. Se assim não for, poderemos ter a população toda a querer fazer tudo, e embora isto não ocorra, seria a redução ao absurdo, temos muitas vezes, parcelas importantes da população a fazer o que não precisam e a esquecer o que não deviam.

Finalmente, a terapêutica preventiva, as drogas que tomamos para não estarmos doentes, a prevenção do enfarte, do acidente vascular cerebral, da hipertrofia benigna da próstata, das crises de asma, etc. O preço destes medicamentos representa uma parcela importante dos custos médicos e do orçamento familiar, aumenta com a idade e com a redefinição da sua indicação clínica. Os grupos farmacêuticos encarregam-se desta redefinição, por vezes correspondendo a necessidades reais, outras vezes correspondendo a necessidades próprias e comerciais.

Cabe aos médicos, nos diferentes casos, escolher entre o importante e o acessório, atuar de acordo com o interesse do doente, na decisão terapêutica e na atitude diagnóstica, resistindo à moda e às pressões ocasionais. Cabe, também, aos médicos zelar pela qualidade e oportunidade da divulgação de conhecimentos relacionados com a saúde e a doença. Devem fazê-lo individualmente e usando as suas diferentes associações, científicas e outras.

Vivemos tempos de inovação absoluta. Os problemas que vão surgindo nesta área são originais, não permitem soluções antigas. Se os médicos têm obrigações, já definidas, não é menos verdade que muitos outros agentes, espalhados pelo tecido social, com diferentes papéis, poderes e capacidades, devem estar atentos e atuantes, para que os benefícios racionalizados sejam generalizados.

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Uma Resposta a Prevenção, Diagnóstico Precoce e Rastreio

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