Centros Comerciais em Portugal

Dimensão analítica: Mercado e Condições de Trabalho

Título do artigo: Centros Comerciais em Portugal

Autor: Pedro Teixeira

Filiação institucional: Secretário-geral APCC

E-mail: pedro.teixeira@apcc.pt

Palavras-chave: Centros Comerciais, Shoppings.

Quando se fala em emprego nos Centros Comerciais, invariavelmente pensa-se na mão-de-obra dos comércios instalados, cujos colaboradores são, como no comércio em geral, pouco qualificados. Mas um centro comercial é uma realidade complexa que comporta um elevado número de actividades, algumas das quais requerem know-how um muito especializado.

Esta realidade começa por ter uma definição ambígua para a maioria das pessoas, e tem contado com uma opinião pública e publicada adversa, por diversos motivos, mais da esfera política, e que nada têm a ver com este tema.

Uma ideia clara da dimensão da indústria traduz-se pela performance do sector. Em 2012 os Centros Comerciais afectos à Associação Portuguesa de Centros Comerciais – APCC, registaram um volume de tráfego de cerca de 700 milhões de visitas. Ou seja, estatisticamente, cada português deslocou-se durante o ano 2012, setenta vezes aos Centros Comerciais associados. A completar o enquadramento refira-se que o volume de facturação, no mesmo período, foi de cerca de 9 mil milhões de euros.

Breve evolução do sector

Conhecer este sector requer retroceder três décadas e voltar ao Portugal do início dos anos 80. O emergir da era moderna surge com a inauguração do Centro Comercial das Amoreiras em Lisboa, em 1985. Anteriormente tinham já existido outras experiências de comércio integrado, através de modelos associadas a produtos imobiliários puros, em que os espaços, muitas vezes, eram vendidos aos lojistas.

Todos estes centros de pequena dimensão, tiveram um enquadramento legal assegurado, uma vez que a definição jurídica de centro comercial [1] mantém-se em vigor. De um modo resumido, é possível a um empreendimento designar-se “centro comercial”, desde que cumpra cumulativamente os requisitos de ter um mínimo de 12 lojas; 500 m2 de área; unidade de gestão; e horário de funcionamento comum.

Mais do que as reduzidas dimensões das unidades que esta regulamentação permite, os problemas existentes destes centros decorrem de propriedade dividida, que impede o bom funcionamento da gestão, invariavelmente exercida pela organização interna dos lojistas/proprietários em condomínios comerciais. Importa assim esclarecer que, embora a definição legal o faça, a APCC não reconhece este tipo de produto imobiliário como moderno, apesar de ser uma realidade que caracterizou uma fase da indústria, por conseguinte, indissociável das análises objectivas.

Por este motivo a APCC representa cerca de 10% da totalidade das unidades existentes em Portugal e aproximadamente 90% da Área Bruta Locável total nacional. Ou seja, os membros da APCC são os maiores investidores do sector. É sobre este ramo que focamos a nossa análise.

A evolução dos Centros Comerciais foi, desde a génese, promovida pela conjugação de diversas variáveis políticas, económicas e sociais, a par de um investimento notável de operadores provenientes da construção ou da distribuição. No início da década de 80 o aparecimento de uma classe média com um poder de compra sem precedentes, potenciou de forma determinante o aparecimento de esquemas de comércio, serviços e lazer integrados em empreendimentos de diferentes tipologias e dimensões, que se adaptaram, e ajudaram a moldar consideravelmente o modo de vida dos portugueses. A emergência desta indústria revelou-se ser o motor do desenvolvimento comercial português nas últimas três décadas.

No capítulo da dispersão geográfica, esta actividade acompanhou a maior concentração demográfica no território nacional. Primeiro nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto; seguindo-se Algarve, ilhas e principais capitais de distrito numa segunda fase; e uma terceira fase caracterizada pelo aparecimento de centros em cidades de menor dimensão e renovações/expansões dos produtos mais antigos.

Por outro lado, este sector não é independente da evolução das redes de distribuição moderna, alimentares e não-alimentares, e caracteriza-se pelo investimento constante em marketing e por uma atitude comercial muito activa, criteriosa e constante. Estes pressupostos, associados a um projecto imobiliário atrativo, equilibrado nas vertentes dos serviços e lazer, bem servido de acessos, transportes públicos e estacionamento, completam as variáveis necessárias à capacidade de atracção.

Refira-se que em todo o processo de implantação e operação de um centro comercial, assiste-se à intervenção de promotores, proprietários e gestores, que participam em diferentes fases e têm papéis distintos no empreendimento.

Uma realidade pluriforme

O sector dos Centros Comerciais tem permitido a criação de emprego com características tão distintas, quanto as actividades que intervêm nas diferentes fases. Desde o projecto à construção, desde o licenciamento à operação comercial em pleno. A imagem mais fiel desta actividade é a da uma pequena cidade planeada ao mais ínfimo pormenor, com todas as suas valências de serviços de segurança e vigilância humana, limpeza e higiene, manutenção técnica, etc, embora com a vantagem de pertencer apenas e só, a um único proprietário.

Esta multidisciplinaridade inerente a um centro comercial sob o ponto de vista do trabalho, comporta a intervenção de um elevado número de competências e, obviamente, mão-de-obra de todos os níveis de qualificação, das mais especializadas às mais indiferenciadas.

Por áreas de actuação, importa distinguir a elevada qualificação dos recursos humanos inerentes à promoção imobiliária, gestão de activos e gestão do shopping. Todavia, é no momento da inauguração que é afectada a maior parte da força de trabalho, com as lojas a funcionar em pleno e por turnos e escalas, de modo a manter o requisito de operação continua, em função do horário comum do centro comercial.

Outras forças de trabalho inerente à operação, são os fornecedores de serviços alocados ao empreendimento, como são os casos da limpeza, segurança, manutenção técnica, etc.

Actualmente, os Centros Comerciais afectos à APCC são criadores de cerca de 100 mil postos de trabalho directos, no conjunto de todas as actividades, e um número de postos de trabalho indirectos e induzidos que se estima acima dos 200 mil postos, considerando as fileiras de fornecedores e as redes logísticas desta indústria. Nas áreas de retalho, este valor cifra-se acima dos 90 mil postos de trabalho [2].

No plano europeu [3], estima-se que a indústria dos centros comerciais empregue aproximadamente um quarto de todos os postos de trabalho afectos ao retalho, num total de 5,3 milhões de empregos, acrescendo mais 2 milhões de profissionais das áreas de promoção imobiliária comercial, gestão e comercialização de espaços.

Figura 1 – 2012 Shopping Center Employment – Europe

Fonte – International Council of Shopping Centers – ICSC-Euroe, Research Department

Notas:

[1] Diário da República, Portaria 424/85 de 5 de Julho.

[2] Associação Portuguesa de Centros Comerciais Anuário dos Centros Comerciais Portugueses, Anuário dos Centros Comerciais Portugueses 2011.

[3] International Council of Shopping Centers – ICSC, Shopping Centers Employment Fact Sheet – The importance of the European Shopping Center Industry – ICSC Europe, London 2013.

 

 

 

Esta entrada foi publicada em Economia, Trabalho e Governação Pública com as tags , . ligação permanente.

Uma Resposta a Centros Comerciais em Portugal

  1. Pingback: 5ª Série de 2013 de Artigos de Opinião | Plataforma Barómetro Social

Os comentários estão fechados