Crianças e desporto

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: Crianças e desporto

Autora: Maria Cláudia Brandão Pinheiro

Filiação institucional: Instituto Superior da Maia

E-mail: mpinheiro@docentes.ismai.pt

Palavras-chave: crianças, desporto, abusos.

A crescente competitividade do desporto moderno significa que as crianças, desde idades muito precoces, são submetidas a programas de treino muito intenso. Estes programas são problemáticos para os jovens atletas não só porque os seus corpos ainda se encontram em desenvolvimento, mas porque os atletas também são particularmente vulneráveis ​ a uma grande variedade de formas de exploração ou abuso que podem ir desde dietas extremas e controlo do peso corporal, até abusos verbais e emocionais, sobretreino, punições corporais, lesões de sobrecarga e treinar e/ou competir com dor e/ou lesão [1][2][3][4][5].

Pode-se afirmar que muitos dos abusos físicos e psicológicos que se observam no contexto desportivo resultam da ação de treinadores cujo futuro e reputação dependem grandemente da performance dos seus atletas. Devido ao que está em jogo muitos “não hesitam em abusar verbal e emocionalmente de jovens atletas, usando insultos e humilhação para os provocar, o que eles consideram um poderoso estimulante e um pré-requisito para a construção do carácter, e de os empurrar até ao limite” [1]. Enquanto muitos treinadores podem acreditar estar a trabalhar no interesse dos atletas, eles tendem a colocar uma grande enfase no corpo dos atletas e nas suas performances em vez de se focarem no atleta como um ser humano [6].

É dentro desta configuração que os atletas aprendem o habitus distinto da modalidade desportiva que praticam. Os atletas aprendem a considerar estas formas de exploração e de abuso como algo normal no desporto, pois desde que iniciam a sua prática, eles são envolvidos numa cultura desportiva que tende a normalizar o risco, a dor a lesão e os abusos.

Os atletas são membros de uma configuração desportiva que “molda os seus processos de crescimento e desenvolvimento, e a trajetória das suas vidas” [7]. Esta configuração constrange-os a agir de formas que “não agiriam se não estivessem sob compulsão” [8]. Quanto mais envolvidos os atletas estiverem nesta configuração “mais provável é que a cultura de risco “forneça os únicos termos ou histórias para eles lidarem com os riscos da dor e da lesão” [9]. Quanto mais os atletas se envolvem na configuração desportiva, mais facilmente são influenciados por outros membros da configuração e como tal mais conformistas se mostram relativamente a este tipo de cultura.

As crianças estão geralmente numa posição relativamente mais fraca (ainda que não desprovidas de poder) em relação às pessoas que dirigem ou treinam em clubes [5]. Isto torna-as particularmente vulneráveis à exploração e ao abuso. Esta vulnerabilidade é parcialmente explicada através da referência às relações de poder entre crianças e adultos. Desde muito cedo e em vários contextos, as crianças aprendem que devem fazer aquilo que os adultos mandam, Como tal, para muitas crianças é difícil não seguir as instruções dos adultos. Devido à fase do ciclo de vida em que se encontram, elas vão adquirindo novas formas de conhecimento e vão sendo premiadas socialmente por desenvolverem o seu habitus. Isto aplica-se na configuração desportiva na relação entre adultos e crianças. As crianças seguem as instruções dos treinadores porque estes são adultos e espera-se que elas sigam as instruções dos adultos. Tal tem implicações ao nível da sua educação e ao nível das suas personalidades.

Pode-se afirmar que sempre que existe uma diferença de poder há a possibilidade de surgirem abusos [10]. Os atletas ainda que não se encontrem desprovidos de poder encontram-se, em relação aos adultos, geralmente numa posição mais fraca e relativamente dependente em relação aos treinadores que são mais poderosos. De acordo com Waddington [5], para muitos atletas, os treinadores são vistos como as pessoas que permitem o alcance de determinados objetivos, como por exemplo, ser selecionado para a equipa nacional. Os treinadores encontram-se numa posição privilegiada uma vez que reclamam serem eles os que têm o conhecimento, a experiência, a sabedoria e os meios que ajudarão à obtenção do sucesso [4]. Este desequilíbrio de poder apoia a existência de práticas disciplinadoras por parte de treinadores, com o intuito da vitória [11]. Estas práticas levam a uma normalização, eliminando a maioria das diferenças sociais e psicológicas produzindo corpos uteis e doceis [11].

Com esta nossa reflexão não pretendemos, de modo algum, dizer que as crianças não devem praticar desporto e em particular desporto de rendimento. Pelo contrário, o que procuramos é aumentar a consciência e sensibilidade das pessoas acerca da prática desportiva com crianças e fazer com que as pessoas tomem consciência de que estão a lidar com crianças, as quais devido à sua vulnerabilidade, necessitam de ser protegidas de situações e comportamentos abusivos. A nossa preocupação é que os progenitores e professores necessitam de compreender muito melhor o que o envolvimento numa prática desportiva ao mais alto nível envolve. Mais especificamente, os atletas necessitam de estar informados disto. O argumento de Donnelly [6] é particularmente importante neste sentido; “o conhecimento é a melhor arma contra os excessos do desporto de alto rendimento no que diz respeito a crianças”. Ao contribuir para uma compreensão mais adequada do mundo desportivo, as pessoas, e em especial os progenitores, estarão mais habilitados a tomar decisões mais informadas sobre o envolvimento de seus filhos no desporto e em certas modalidades em particular.

Notas:

[1] David, P. (2005). Human rights in youth sport. London and New York: Routledge.

[2] Fasting, K., & Brackenridge, C. (2009). Coaches, sexual harassment and education.

Sport, Education and Society, 14(1), 21-35.

[3] Gervis, M., & Dunn, N. (2004). The emotional abuse of elite child athletes by their

coaches. Child Abuse Review, 13, 215-223.

[4] Johns, D. P., & Johns, J. S. (2000). Surveillance, subjectivism and technologies of

power: an analysis of the discursive practice of high-performance sport. International

Review for the Sociology of Sport, 35(2), 219-234.

[5] Waddington, I. (2000). Sport, health and drugs. London and New York: E & FN

Sport.

[6] Donnelly, P. (1997). Child labour: applying child labour laws to sport. International

Review for the Sociology of Sport, 32(4), 389-406.

[7] Loyal, S., & Quilley, S. (2004). The Sociology of Norbert Elias. Cambridge:

Cambridge University Press.

[8] Elias, N. (1980). Introdução à sociologia. Lisbon: Edições 70.

[9] Nixon, H. (1993, June). Accepting the risks of pain and injury in sport: mediated

cultural influences on playing hurt. Sociology of  Sport Journal, 10(2), 183-196.

[10] Cense, M., & Brackenridge, C. (2001). Temporal and developmental risk factors

for sexual harassment and abuse in sport. European Physical Education Review,

7(1), 61-79.

[11] Heikkala, J. (1993). Discipline and excel: techniques of the self and body and the

logic of competing. Sociology of Sport Journal, 10, 397-412.

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