Bibliotecas públicas em Tempos Difíceis

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Bibliotecas públicas em Tempos Difíceis

Autora: Paula Sequeiros

Filiação institucional: investigadora do CES, U.C.; investigadora do ISFLUP.

E-mail: paulasequeiros@ces.uc.pt

Palavras-chave: bibliotecas públicas, crises económicas, leitores.

Estudar quotidianos da Grande Guerra mostrou como a valorização das bibliotecas públicas pode aumentar consideravelmente em Tempos Difíceis. Por razões expectáveis – leitura gratuita – e por outras talvez mais surpreendentes – abrigo em condições atmosféricas adversas, iluminação, conforto, interação social. Em países da Europa e no Norte da América, distribuíam-se, pela cidade grande, bibliotecas de bairro, estimados serviços de proximidade.

Conhecer essa realidade ajuda a compreender porque cultura, recreação (hoje também serviços Web) são ainda mais importantes em tempos de crise.

Para contar episódios de leitura pública em tempos difíceis convoco duas mulheres, diferentes em quase tudo: uma existe, a outra não. Começo pela que existe.

Jeanette Winterson é autora popular – nos dois sentidos correntes da palavra: bem-querida; vende muito.

Filha adotiva duma mulher que a maltratava, que lhe queimou os livros comprados na infância à custa de trabalho próprio, que a fez exorcizar em público quando soube ser lésbica e que a rejeitou quando percebeu que não resultara, estava autorizada a ler  apenas livros religiosos ou moralizantes. Nascida em 59 em Manchester, narra a cidade da gente trabalhadora, sua, e os bairros de tijolo, as marcadas deixadas por Marx e Engels, as vidas de aflições e lutas.

Depois mudou-se para Accrington. A leitura, alimentou-a Jeanette, literalmente, na biblioteca. Tudo de enfiada lia, da perspetiva das classes segundo Dewey:

“LITERATURA INGLESA EM PROSA A-Z”: “[n]ão tinha ideia do que ler ou por que ordem, portanto lá comecei alfabeticamente. Graças Deus o apelido dela era Austen…” [1].

“Costumava dar uma ajuda na biblioteca. Eu era uma miúda rufia, dura, não muito boa na escola, exceto nas palavras. Tínhamos seis livros em casa, mas eu tinha a biblioteca” [2].

Naquele tempo era “uma biblioteca plenamente fornecida, construída em pedra sobre os valores duma era de autoajuda e melhoramento” [1]. “Adorava aquele edifício – construído para as classes trabalhadoras – construído para mim. Adorava sentir o silêncio enérgico.

Quando saí de casa aos 16 anos e vivia dentro dum Mini, ia para a biblioteca toda a noite até fechar” [2].

Recentemente defendeu publicamente as bibliotecas dos cortes orçamentais que justificaram o fecho de 201 em 2012, depois das 146 de 2011. Decisões que originaram protestos e criação de bibliotecas alternativas, por parte de leitores, autores e bibliotecários.

“Os ricos hão-de ter livros e acesso a livros. As melhores universidades hão-de manter as suas magníficas bibliotecas para serem visitadas por quem pode pagar as taxas. Isso é downloads para todos os outros? […] Os ebooks não são uma melhoria: são acréscimo. Não podem ser usados como desculpa para tirar os livros do mundo do quotidiano e os meter no mundo virtual”. […] “As bibliotecas custam agora cerca de 1 bilhão por ano para administrar. Passem a 2 bilhões e cobrem tudo isso à Google, Amazon e Starbucks como impostos atrasados sobre os lucros deles aqui” [2].

Outra história é contada por Adozinda, estreante da Sala de Leitura Feminina da Biblioteca Municipal do Porto no inverno de 1945. Imaginamo-la uma das primeiras estudantes de Farmácia, filha talvez de comerciante e doméstica. Para usar espaço público, teve de ousar. Em casa, conta à mãe:

“A ler assim, senti-me como uma daquelas mulheres da Suíça ou da França de que falava a tal Virgínia de Castro e Almeida. A sala tem o nome dela. Quis saber quem era e então pedi para ler A mulher. Que livrinho espantoso!

Ali ninguém me deitava olhares nem chamava letrada ou sabichona, como os rapazes que se metem na rua connosco por andamos com livros debaixo do braço” [3].

Esta Adozinda não existiu. É ficção corporizando palavras e atos de mulheres reais, fixados por feministas da época e entrevistas nossas. Surgiu para contar como esse espaço segregado poderá ter sido em tempos de ditadura fascista. Fechada em 52, a Sala promoveu a entrada de mulheres e terá evitado que algum homem se queixasse de se distrair com elas. Usaram-na trabalhadoras manuais, intelectuais, estudantes, visitantes frequentes algumas, sós ou em grupo.

Algum tempo antes, o diretor da biblioteca, com insistência enorme e bem sucedida, escrevia ao presidente da Câmara para assegurar a iluminação ao fim do dia – a Guerra impusera cortes – já que recebiam tantos leitores. A Sala de Leitura Geral fechava às 21 ou 22 horas, consoante a estação, e acolhia algumas mulheres – haver sala especial não as impedia de usar esta.

Uma das facetas modernizadoras do salazarismo manifestou-se certamente nesta Sala, com uma História cheia de contradições e ambiguidades.

A uma, duas gerações destas histórias podemo-nos interrogar: que valor damos às bibliotecas, que financiamento e finalidades, o que as espera na era da Troika?

No Reino Unido parecem convulsionadas por pressões das empresas de I&T, bases de dados e conglomerados editoriais – promotores de literatura industrial e diversão eletrónica – e recusas de financiamento público, por um lado; por outro, novos modelos  são testados: super-bibliotecas com conexões, equipamentos e diversão tecnologizados – transformadas conceptualmente em centro-comercial-oficinal com auto-serviço, pouco pessoal, muita intrusão mercantil e vigilante – enquanto pequenas bibliotecas comunitárias de voluntários recolhem ofertas e os despojos das públicas encerradas – mas não o pessoal qualificado – apostando em proximidade e interação sociais.

Serviços de “aluguer” de ebooks (transmissão de uso e duração limitadas) prometem maravilhas como nos pacotes de telecomunicações+TV – sem sair de casa – frequentemente através dos dispositivos portáteis recentes. Vendendo a ilusão de tudo porem na palma da mão – sabem o que nós queremos – usam-na como periférico para nos ler e vender. Marketing de ebooks chegou às próprias bibliotecas, em histórias cujo enredo vai ainda a meio.

Em Portugal, na última década, as bibliotecas têm sido paulatinamente  degradadas por redução no pessoal com qualificação adequada e por generalizante falta de atualização das coleções, a par doutros cortes. A querela, já com dois anos, Biblioteca Nacional/autarquias, sobre quem paga o transporte dos livros de Depósito-Legal, tem privado os leitores da dezena de bibliotecas depositárias de receber novidades (atempada ou definitivamente?). O Wi-Fi pareceu preceder muitas outras necessidades prementes, anos atrás; os ebooks não parecem ter presença ainda.

Entretanto podemos questionar:

Que abrigos para ler queremos na cidade? Esconsamente sós, em comunidade sem propinquidade [6]? Toleramos intrusões na leitura pública? Quem empurra estas opções tecnológicas? E acima de tudo: se ficarmos sem estes espaços ou serviços, quem irá preencher o vazio? Serão ainda “construídos para nós”?

Notas

[1]   Why be happy when you could be normal?

[2]   We Must Protect and Reinvent Our Local Libraries.

[3] Sequeiros, Paula; Passos, Sónia (2013), Adozinda goes to the Feminine Reading Room, In Narratives and social memory, Braga: University of Minho, Communication and Society Research Centre, 328–343.

[6] Calhoun, Craig (1998), Community without propinquity revisited. Sociological Inquiry, 68(3) 373–397.

 

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Uma Resposta a Bibliotecas públicas em Tempos Difíceis

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