O trajar do corpo no seu uso linguístico

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: O trajar do corpo no seu uso linguístico

Autor: José Gregório Viegas Brás

Filiação institucional: Universidade Lusófona

E-mail: zevibras@gmail.com

Palavras-chave: corpo, construção, cultura.

O homem é o único ser que fabrica o seu corpo. Nem a planta, nem a pedra, nem a máquina, nem sequer o animal se interrogam sobre o que são. Eles não experimentam a abertura entre o que se é e o que se deve ou pode ser. Só o homem trabalha neste espaço de invenção. Em cada contexto histórico intervém a força de um fluxo criativo. E sempre que as relações de dominação se alteram, novos corpo são produzidos.

Neste sentido, podemos verificar uma profunda alteração de forças na era moderna, particularmente a partir da segunda metade do século XX.  Foi a partir deste momento que se registou o destronar do silêncio acerca do corpo, o desmoronar do imaginário social que o sustentava. Com esta viragem mudou-se a concepção do corpo, mudou-se a relação do sujeito com o corpo, mudou a mudança ao sabor de novos apetites.

Da contenção, da sobriedade, de um cenário desenhado por tabus e marcado por uma linha divisória entre o que é masculino e feminino, legitimado pelas convenções sociais das regras de bom-tom, entrámos na era visionária dos regalos e das guloseimas do corpo. Do tabu que impõe o encobrir e o recato, saltamos para o fascínio do poder erótico que manda despir e exibir. A fonte do pecado tranforma-se em fonte do prazer e do desejo.

Na representação tradicional do corpo trabalha-se na simulação, na criação de uma imagem artificial, ocultando-se o corpo, como se pessoa e corpo fossem duas coisas distintas. Outrora o trabalho de sedução passava estritamente pela ornamentação da toilette, fazendo-se distorcer o que era o corpo na realidade. A imagem que se pretendia projectar era conseguida a partir da manipulação do que se vestia, pois apenas pequenas áreas do corpo eram expostas ao olhar do outro. Isto é importante porque o que ganha estatuto de signo é o que é mostrado ao olhar do outro.

O processo de desnudamento veio aumentar a área de exposição ao olhar do outro, o que veio ampliar a vigilância e os cuidados. Enquanto que outrora a imagem do apetecível era procurada artificialmente, como é conhecido, por exemplo, o uso do espartilho e a outras simulações do género, hoje, a aparência é construída sobre o corpo real. A representação do corpo foi alterada e com ela todas as técnicas de construção da imagem. Hoje há uma nova hipnotização da consciência provocada por um clima dominado pelas dietas milagrosas, pelos liftings, body-buildings, cirurgias plásticas, implantes, e também pela grande variedade de oferta de prática de novas actividades físicas e de serviços afins que emergiram por esses ginásio, que emergiram fruto das novas necessidades de mercado … e todo um dispositivo veio fazer a glorificação do corpo.

Na linguagem escrita, a maneira como se embaralham as letras e as palavras, os espaços que se introduzem entre elas, servem para trocar mensagens entre as pessoas. Ora, a indumentária deve ser vista também como uma selecção e combinação de signos. O corpo é mais, excessivamente muito mais do que mostra toda a sua materialidade. O vestuário faz parte dessa panóplia de exuberância, é uma faceta do jogo.

A linguagem do corpo, juntamente com a linguagem do vestuário e da prática das actividades físicas, passam a fazer parte do mesmo menu do código da moda.

O que se veste (a marca, o design, a mistura das cores…) está relacionado com o nível de prática.  O facto da actividade ser praticada a nível federado ou recreativo (educativo…), faz apelo a constragimentos de “farda” bem diferenciados. A liberdade de escolha é tanto mais condicionada quanto esta estiver limitada pela “farda-símbolo” do clube e pelos regulamentos das provas de cada uma das especialidades em questão (imposição exterior). Pelo contrário, a capacidade de compôr a “farda” é tanto mais aberta quanto menos esta se inserir em práticas desportivas institucionalizadas (arte decorativa). Significa que o trajo pode estar ao serviço da “representação” de si ou de outrém (clube).

O que se pratica (que tipo de actividade – golfe? ténis? aeróbica? dança clássica ou de salão?…), está relacionado com o género de actividade. Longe vai o tempo em que o homem (e não a mulher…) vestia o nú para praticar os exercícios gímnicos. Veja-se que a própria palavra ginástica transporta consigo esta ideia. Deriva de gimnos que significa isso mesmo – o nú.

Cada actividade solicita um tipo particular de indumentária, o que é em parte devido à natureza da actividade. No entanto, praticar futebol, golfe, natação, hipismo, corrida, aeróbica, etc. solicita  naturalmente equipamentos que possam responder satisfatoriamente aos requisitos dos rituais de prática de cada uma das tribos.

Onde se pratica (qual o território onde se desenrola a actividade – ginásio in? instalações de um hotel? num clube de bairro? na junta de freguesia?…) está relacionado com o contexto de realização das actividades:  Mesmo nas actividades altamente regulamentadas, o contexto faz com que o vestuário mude de significado. A vestimenta que se utiliza no treino não é a mesma do que a que se utiliza no momento em que se está a representar o clube numa prova de competição.

Quem e com quem se pratica (que tipo de classe social – alta? média? baixa? jovem? adulto? da 3ª idade? do mesmo sexo ou diferente?),  está relacionado com a uma linguagem que juntamente com os aspectos referidos anteriormente serve para reforçar a identificação de  posições ideológicas e de status.

Particularmente o sexo introduziu uma nuance erótica que revolucionou por completo os costumes. A mulher tardou em chegar mas rapidamente eclipsou as sensibilidades. As mulheres mais ousadas que inicialmente começaram a praticar actividades físicas eram ridicularizadas. Considerava-se que tais práticas eram eminentemente masculinas, o que não encaixava com o imaginário social feminino da altura.

Hoje, o vaivém entre o nú que se mostra e o nú que se encobre, conquistou uma dimensão erótica que bombardeia permanentemente os nossos sentidos. A roupa ganhou o estatuto de segunda pele. O corpo conquistou o espaço visionário da roupa. A prática da actividade física ajuda a chegar lá… O filme já está em cena…

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