Museu inclusivo – uma realidade acessível?

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Museu inclusivo – uma realidade acessível?

Autora: Rute Teixeira

Filiação institucional: Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: rteixeira@letras.up.pt

Palavras-chave: museu inclusivo, cultura, acessibilidades.

Muitos são os autores que defendem que “as ações que se têm vindo a implementar em muitos museus nacionais e estrangeiros permitem afirmar que, aos poucos, e em nome da acessibilidade e inclusão, começa-se a recorrer a soluções multissensoriais para permitir uma maior aproximação ao público, oferecendo-lhe novas oportunidades de perceção e compreensão dos espólios museológicos” (Neves,2010:191). Por outro lado, garantir condições de transporte, acesso arquitetónico, mobilidade e direcionamento contribuem de outra forma, para uma presença mais assídua de um público com necessidades especiais.

Comprovando a tendência referida no parágrafo anterior, o Instituto Português de Museus (IPM) refere que “apenas 20 dos 120 Museus portugueses “têm projetos em curso” para pessoas com deficiência, tais como exposições complementadas com audioguias, textos escritos em Braille, instalações com rampas ou elevadores e materiais pedagógicos específicos” (IPM, 2004:50).

De fato tornar um museu inclusivo, implica repensar as acessibilidades físicas, pois sem a eliminação das barreiras que impeçam a mobilidade, é impossível dar as boas-vindas a todos os visitantes. No entanto, na sociedade atual, o conceito de acessibilidade é percecionado com uma conotação negativa, sendo entendido como algo que se encontra diretamente ligado a uma minoria da população.

Vários teóricos defendem que “é para todos, falar de design inclusivo, eliminação de barreiras, etc., não faz sentido quando se remete unicamente a subgrupos sociais, pessoas específicas porque esse conceito remete-se a todos nós” (Faria et al 2007:5), isto porque um dos grandes objetivos da cultura é tornar as infraestruturas 100% acessíveis, beneficiando, desta forma, não só as pessoas com restrições de mobilidade, mas também os demais.

Desta forma, Cuyas (2003:50) afirma que “uma sociedade que não incluiu todos os seus membros, é uma sociedade empobrecida”. A pretensão de se tornar inclusivo, desafia o museu a responder, de uma forma cada vez mais exigente, às expetativas e necessidades dos seus visitantes.

Debater a questão das acessibilidades físicas do museu implica explorar a importância do desenho universal, enquanto instrumento potenciador da “biodiversidade humana, contribuindo para uma melhoria da qualidade de vida para todos” (CEA, 2005:30).

Segundo o Conselho Europeu de Acessibilidades (2005:32), o conceito de Desenho Universal é apresentado como “a intervenção no meio físico, produtos e serviços, permitindo a participação de todos os cidadãos, independentemente da sua idade, sexo, aptidões e antecedentes culturais”. Desta forma, pretende-se proporcionar um ambiente físico acessível a todos os cidadãos, salvaguardando-se a diversidade populacional, bem como a autonomia e independência de cada visitante.

Debater o conceito de acessibilidade no âmbito do espaço cultural, não se traduz apenas na edificação de melhorias em termos de acessos e mobilidade para os visitantes com necessidades especiais, mas também nos esforços que estão a ser concretizados para que estes possam usufruir com a mesma qualidade do espólio cultural.

Assim, não poderemos deixar de salientar todas as modificações que têm sido implementadas nos recintos culturais, com vista à diminuição da exclusão social e cultural que se tem assistido desde largas décadas no nosso País. A construção de rampas e de portas mais amplas, a existência de elevadores e de plataformas elevatórias assumem uma extrema importância para uma circulação sem constrangimentos; tal como as orientações em relevo, colocadas no chão dos recintos, bem como as informações escritas em Braille. Todos estes instrumentos revelam-se indispensáveis aos visitantes que possuem limitações visuais.

Foram estas mudanças que tornaram o ambiente cultural mais inclusivo, proporcionando uma igualdade de oportunidades a todos os públicos. Um dos instrumentos que mais tem contribuído para que estas evoluções tenham sido um sucesso, foram as Tecnologias de Informação e Comunicação, que tal como “o design para todos, são utilizadas na acessibilidade dos edifícios e no meio edificado” (CEA, 2005:70).

É neste sentido que Cuyas (2003:75) afirma que “a tecnologia tem um papel cada vez preponderante na melhoria de condições de acessibilidade e de autonomia pessoal”.

Em Portugal, o Instituto Português dos Museus (IPM) tem assegurado, desde a década de 80, um pleno acesso à internet nos museus, possibilitando melhorias das condições de acessibilidades, definidas numa segunda fase do projeto “Sítios Web autónomos” do Instituto Português dos Museus nomeadamente durante a criação e desenvolvimento de uma plataforma de gestão da informação.

Segundo Neves (2006:115) o “Projeto Bdmuseus visa a produção de dados sobre o panorama museológico português através do levantamento contínuo de novos casos e da atualização da informação existente”. Desta forma, a “Bdmuseus contribui para o conhecimento da evolução da realidade museológica nacional” (Neves,2006:115)

A par deste Projeto, outras iniciativas foram concretizadas em Portugal e na Europa, como a E-Europeu 2002 e a E-accessibility, sempre com o objetivo de constituírem uma mais-valia aos visitantes com necessidades especiais.

Seguindo este raciocínio, Semedo (2006:168) conclui que “utilização das tecnologias de informação (…) ou a criação de websites são instrumentos que alargam o universo dos públicos potenciais e permitem projetar a imagem do museu, do seu património e das suas atividades muito além dos meios de comunicação tradicionais”.

Ficou patente que nova visão museológica preocupa-se com os públicos e planeia a sua projeção social. Envolve-se em filosofias democráticas, prevenindo-se contra o escrutínio do público e desenvolve estratégias de marketing, de forma a alterar as tendências, em prol das necessidades das diversas audiências, cada vez mais exigentes e conscientes dos seus direitos enquanto público cultural.

Compete aos museus conseguir comunicar com todos os seus públicos, de forma correta e assídua senão tal como Neves (2006:100) verbaliza: “os museus têm de comunicar ou acabarão por enfrentar a sua própria “morte””.

Referências Bibliográficas:

CEA, Conceito Europeu de Acessibilidade, (2005). Manual de Assistência Técnica. In cadernos SNR. p.1-111. Lisboa: SNRIPD.

Cuyas, E. (2003). Libro Blanco de la acessibilidade. Barcelona: Adicionas UPC, p.1-197.

Faria, M. & Lorena, M. (2007). Fórum Arquitetura Acessível. Porto: OASRN,p.1-21.

Instituto Português de Museus (2004). Temas de Museologia Museus e acessibilidade. Lisboa: IPM,p.1-117.

Neves, J.(2006). Museus acessíveis… museus para todos. In Santos, M. Turismo Cultural, Territórios e Identidades. Leiria: Edições Afrontamento & IPL. p.107-122.

Neves, J. (2010). Comunicação Multi-Sensorial em contexto Museológico. Atas do I Seminário de Investigação em Museologia dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola, Vol. 2, p. 180-192.

 

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