Atividade física e a procura do “corpo ideal”

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: Atividade física e a procura do “corpo ideal”

Autora: Maria Cláudia Brandão Pinheiro

Filiação institucional: Instituto Superior da Maia

E-mail: mpinheiro@docentes.ismai.pt

Palavras-chave: atividade física, corpo ideal.

Nos dias que correm existe uma tendência, por vezes exagerada, de julgar e avaliar as pessoas pela sua aparência (pela sua imagem corporal, pela forma como se vestem, pelo tipo de adereços que utilizam …). Dada a enfase colocada na aparência, muitos homens e muitas mulheres preocupam-se com a sua aparência física e muito em particular com a sua imagem corporal chegando, por vezes, esta preocupação a raiar os limiares da obsessão. Em virtude da associação usualmente efetuada entre magreza e sucesso, saúde, longevidade e autodisciplina, muitos são os indivíduos, e em particular as mulheres, que procuram obter um corpo magro, saudável e bonito. Conseguir obter um corpo “perfeito” é visto como uma forma de alcançar sucesso, e uma das melhores formas de exercer um poder de atração sobre o sexo oposto. Simultaneamente, propaga-se a ideia de que quem apresenta um corpo magro e saudável é alguém capaz de exercer um elevado autocontrolo, o que é tido como um atributo essencial para a obtenção de sucesso social. Estas associações (fortemente promovidas pelos media e pela industria do fitness) estimulam, efetivamente, muitas mulheres a procurarem, através da atividade física e desportiva, obter um corpo saudável, bonito, magro, tonificado e atraente. Muitas mulheres (e também homens) veem os seus corpos “como marcas de distinção e de uma forma rotineira comparam os seus corpos com os de outras(os)” [1]. Para algumas mulheres assim como para alguns homens, a procura deste tipo de corpo ideal, assuma-se como um objetivo de extrema importância. Contudo, como homens e mulheres não são grupos homogéneos, esta “perseguição do corpo social” [2] pode ser determinante para alguns homens e algumas mulheres mas não para todos os homens e todas as mulheres. Se para uns e umas é quase uma obsessão, para outros homens e outras mulheres, a procura de um corpo ideal não é assunto de tão extrema importância. Para estes(as) o seu envolvimento em atividades físicas e desportivas prende-se com o prazer que retiram destas atividades e com os benefícios em termos de saúde que podem obter.

Pode-se afirmar que as mulheres que procuram alcançar um certo tipo de corpo, através da atividade física, estão como que a moldar os seus corpos de acordo com normas sociais de feminilidade. Importa, porém, referir que na sociedade não existe apenas um conjunto de normas. Como é mencionado por Colwell [2], na sociedade “várias normas sociais são estabelecidas, desafiadas, perpetuadas e modificadas… por pessoas, em vários contextos sociais incluindo diversos contextos desportivos”. Pode-se então argumentar que, enquanto algumas mulheres aspiram a imagens muito particulares de feminilidade e envolvem-se em atividades físicas que as podem ajudar a alcançar este objetivo, outras mulheres podem ignorar e até resistir a estas imagens de feminilidade.

Para muitas mulheres e homens, a prática de atividade física e desportiva é tida como um meio para alcançar o tão almejado corpo bonito, magro, saudável e tonificado. Porém, esta procura incessante do dito corpo ideal pode ser vista como uma “verdadeira tirania da magreza” [3]. Tal busca do corpo perfeito através da atividade física e desportiva acaba por retirar o prazer que esta pode proporcionar. Ainda neste contexto, há também quem argumente que a procura, particularmente por parte das mulheres, de um corpo perfeito através da atividade física e desportiva, com o intuito de se tornar mais atraente para o sexo oposto, não é nada mais do que uma forma de controlar o corpo feminino [4]. Estes pontos de vistas merecem contudo alguma reflexão. A ideia de que alguns indivíduos se exercitam com o intuito de desenvolver um corpo magro em virtude da existência de uma “tirania da magreza”, merece-nos alguns comentários. Primeiro, efetivamente existem pessoas que se exercitam fisicamente com o intuito anteriormente mencionado, no entanto a seguinte questão pode ser levantada: E qual o mal disso? Não o podem fazer? Será que não podem através do exercício físico procurar alcançar um corpo que lhes seja mais agradável, que as deixe mais satisfeitas, que contribua para uma melhoria da sua autoimagem e autoestima? Fazer exercício físico com este intuito é tão legitimo como fazer exercício físico com outros intuitos (de sociabilidade, de fisioterapia, de relaxamento entre outros). Muitos homens e muitas mulheres podem efetuar uma prática de atividade física e desportiva com o objetivo de alcançar um corpo mais magro mas, simultaneamente, retirarem prazer dessa mesma atividade sem sentirem que estão a cumprir uma obrigação. Se se criticam as pessoas que procuram obter e/ou manter um corpo magro através da atividade física e desportiva, então que tipo de corpo estas mesmas pessoas deveriam tentar alcançar? Será que este não é um objetivo legítimo para a prática de atividade física e desportiva?

Segundo, a ideia de que o “manter uma certa imagem corporal, procurar um certo tipo de corpo” é uma forma de controlar o corpo feminino, também nos merece um comentário. Quantas mulheres fazem atividade física e desportiva sem contudo sentirem que os seus corpos estão a ser controlados. Fazem-no porque tal lhes proporciona prazer e até por questões de saúde.

O fundamental a reter, é que as mulheres e homens pratiquem atividade física, independentemente da razão pela qual o fazem, e que mantenham esse hábito ao longo da vida. Porém, se pensarmos e considerarmos essencial que mulheres e homens vivenciem os seus corpos livremente através da atividade física, torna-se então importante repensarmos no tipo de imagens que estão a ser apresentadas às mulheres e aos homens.

Notas

[1] Mansfield, L. (1996). Gender sport and the body: a feminist figurational perspective, M.i.t.s.o. sport, Editor.

[2] Colwell, S. (1999). Feminisms and Figurational Sociology: Contributions to Understandings of Sports, Physical Education and Sex/Gender, European Physical Education Review, 5(3),  p. 220-240.

[3] Maguire, J. and L. Mansfield (1998). No-Body´s Perfect”: Women, Aerobics, and the Body Beautiful, Sociology of Sport Journal, 15(2), p. 109-137.

[4] Hargreaves, J. (1994). Sporting Females – Critical Issues in the History and Sociology of Womens’ Sports. London and New York: Routledge.

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