Saúde Mental: um reflexo da actualidade

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Saúde Mental: um reflexo da actualidade

Autora: Ana Guimarães

Filiação institucional: Psicóloga

E-mail: ana_p_guimaraes@hotmail.com

Palavras-chave: Saúde mental, impacto

O conceito de saúde mental não é estático, relembrando um passado não muito distante percebe-se que têm acontecido mudanças estruturais na forma como se trata a doença mental no continuum da saúde.

A saúde mental é, hoje, considerada parte integrante do conceito de saúde e integra mesmo a sua definição:

“… o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere” [1].

A saúde mental possibilita a nossa realização intelectual e emocional, bem como a integração nos diferentes contextos da sociedade (escola, trabalho, família). No entanto, sabe-se que há pessoas que a vêem comprometida por problemas associados a factores biológicos, individuais, familiares ou sociais e económicos ou ambientais [2]. As doenças mentais afectam pessoas de qualquer idade, raça, religião ou nível socioeconómico. Estas não resultam de fraquezas pessoais, defeitos de carácter ou da educação.

A doença mental sofreu diferentes tentativas de compreensão e explicação ao longo da história. Sabe-se hoje que são problemas médicos que envolvem perturbações do pensamento, da experiência e das emoções de forma tão séria que causam défices no funcionamento e na capacidade para lidar com as exigências normais da vida.

Estima-se que na Europa 27% dos seus cidadãos tenham pelo menos uma doença mental, ou seja 1 em cada 4 cidadãos [2]. As patologias mais comuns na Europa são as perturbações da ansiedade e a depressão, prevendo-se que em 2020 a depressão será a principal causa de morbilidade nos países desenvolvidos.

Estas patologias têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes, talvez como reflexo da crise e instabilidade financeira, bem como, da organização da sociedade actual. Portugal, ainda não dispõe de dados epidemiológicos relativos à saúde mental, no entanto, o INE avançou dados relativos ao suicídio em 2010 e é possível perceber que os suicídios (N = 1101) ultrapassaram as mortes por acidentes (N = 1015). O suicídio encontra-se frequentemente associado às doenças mentais, e na ausência de dados acerca das mesmas, a taxa de suicídio poderá ser utilizada como um indicador da saúde mental do nosso país, como demonstra o Observatório Português dos Sistemas de Saúde [3].

Nos últimos 20 anos têm vindo a ser estudados os factores que influenciam a saúde mental e torna-se claro que a doença mental e a pobreza estão claramente relacionadas e se desenvolvem numa dinâmica de círculo vicioso. Os resultados têm vindo a indicar que as pessoas que não têm acesso à alimentação e que contraem dívidas têm uma maior probabilidade de desenvolver doenças mentais. Sabe-se, ainda, que as doenças mentais são duas vezes mais frequentes em pessoas que vivem em situação de pobreza [4].

A pobreza aumenta o risco de desenvolver uma doença mental e ter uma doença mental pode aumentar a probabilidade de viver numa situação de pobreza. Isto porque as pessoas em situação de pobreza têm menores oportunidades de emprego, bem como menor acesso aos serviços de saúde, por outro lado, as pessoas com doença mental podem não trabalhar devido à doença, ou devido a doença não conseguem emprego, conduzindo-as a situações de pobreza.

Estes factos ganham maior relevo porque se sabe que as doenças mentais têm um grande impacto na vida das pessoas que sofrem com elas, podem referir-se dificuldades nos domínios cognitivos, emocional e comportamental traduzindo-se em aspectos de disfunção na vivência diária, nas relações pessoais, no emprego ou ao nível da ocupação. Ao nível familiar o impacto é também pesado, uma vez que cuidar de uma pessoa com doença mental pode levar a uma limitação de tempo e disponibilidade que impede que o cuidador seja capaz de atingir o pleno potencial no trabalho, nas relações sociais e lazer, levando a dificuldades económicas e sociais [5].

O impacto causado pelas doenças mentais não se verifica apenas a nível individual ou familiar, mas também a nível económico, social, penal e judicial. Economicamente estima-se que estas custem ao estado cerca de 3 a 4% do PIB, sobretudo através da perda de produtividade. A estes custos acrescem aqueles impossíveis de calcular, que se relacionam com a forma como as pessoas com doença mental são tratadas, sendo muitas vezes alvo de exclusão social, estigmatização, discriminação, vendo desrespeitados os seus direitos fundamentais e dignidade [2].

As doenças mentais têm assim um impacto insidioso em vários contextos, no entanto, existem tratamentos eficazes baseados na evidência e muitas vezes a recuperação é possível. Actualmente sabe-se que planos integrados de tratamento são os mais eficazes, pois têm em atenção as especificidades da doença, os programas disponíveis, trabalhando no sentido de tratar a sintomatologia e reabilitar as dificuldades ou défices [6].

Em Portugal o impacto das doenças mentais é apenas contabilizado através dos custos de internamentos e medicação, ignorando-se o impacto social, familiar e económico que estas impõem.

As mudanças na forma de percepcionar a doença/saúde mental levaram a grandes alterações na forma de cuidar. Neste momento Portugal encontra-se num período de transição onde se espera que os cuidados sejam integrados e na comunidade. Porém isto será algo que levará tempo a ser implementado e que atinja efectivamente a totalidade da população afectada, até porque as estruturas ainda se encontram na fase inicial de formação [7].

Notas

[1] Organização Mundial de Saúde. (2007). Factcheet220. [Em linha] Disponível: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs220/en/

[2] Comissão das Comunidades Portuguesas (2005). Livro Verde. Melhorar a saúde mental da população. Rumo a uma estratégia de saúde mental para a União Europeia. Bruxelas: CCP.

[3] Observatório Português dos Sistemas de Saúde (2012). Relatório de Primavera 2012. Crise & Saúde: Um país em sofrimento. Versão Provisória. Coimbra: OPSS.

[4] Organização Mundial de Sáude. (2007). Breaking the vicious cycle between mental ill-health & poverty. Genéve: OMS

[5] Organização Mundial de Saúde. (2001). Relatório sobre a saúde no mundo. Saúde Mental: Nova concepção, nova esperança. Genéve: OMS.

[6] Liberman, P. (1987). Psychosocial Interventions in the Management of Schizophrenia: Overcoming Disability and Handicap. [Em linha] Disponível: http://www.psychrehab.com/pdf/.

[7] Campos, L. (2009). Doença mental e prestação de cuidados. Lisboa: Universidade Católica Editora.

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