Arte, experiência e reflexão ou Entre/Between de Antoni Muntadas

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Arte, experiência e reflexão ou Entre/Between de Antoni Muntadas

Autora: Teresa Duarte Martinho

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E-mail: teresa.martinho@ics.ul.pt

Palavras-chave: arte, entre, experiência

Entre/Between é o título de uma exposição de Antoni Muntadas (Barcelona, 1942), apresentada pelo CAM – Fundação Calouste Gulbenkian e que constitui uma nova ocasião para ver, em Portugal, o trabalho deste artista. A mostra, em exibição até 2 de Setembro, é uma selecção da exposição organizada pelo Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid (Novembro 2011-Março 2012). Com curadoria de Daina Augaitis, reúne a obra de Muntadas desde os anos 70 até ao presente. A exposição estrutura-se segundo a lógica da ‘constelação’, associando as peças de diferentes épocas em nove núcleos de interesses temáticos que o artista tem seguido: Microespaços; Paisagem dos media; Esferas de poder; A construção do medo; Espaços de espectáculo; Territórios do público; O arquivo; O campo da tradução; Sistemas de arte.

Antoni Muntadas iniciou o seu percurso artístico como pintor e o interesse crescente, desde o início dos anos 70, pelo uso de diferentes meios de expressão – video, performance, instalação, fotografia, mutimedia, internet – colocou-o entre os pioneiros da media arte e da arte conceptual. Entre é uma palavra especialmente significativa na sua trajectória, introduzindo o sentido reflexivo da abordagem que faz da comunicação, da cultura, das instituições, da linguagem e do espaço. “Eu comecei a trabalhar com aquilo que designo por dicotomias de relações, por exemplo, objectivo/subjectivo, público/privado, interior/exterior. (…) são um conjunto de estereótipos, interessando-me eu por aquilo que está entre os dois extremos. (…). Por exemplo, uma sala de reuniões é suposto ser um espaço público onde as pessoas se encontram para tomar decisões, mas é, ao mesmo tempo, um espaço profundamente privado, misterioso até“ [1]. Entre remete também para a sua condição de viajante – deixou Barcelona aos 29 anos e fixou-se em Nova Iorque, tendo ateliês nas duas cidades, dando aulas e criando projectos e exposições em diversas partes do mundo.

Experiencias subsensoriales, acciones y actividades (1971-1973) pertence à Constelação I: Microespaços e ocupa a primeira zona da exposição. Aqui se dá conta de uma investigação intensiva – registada em fotografia, filme e vídeo – de experiências de percepção e do reconhecimento através dos sentidos ‘menores’ (tacto, paladar, olfato). Trata-se de exaltar a “possibilidade de uma nova estética”, como Muntadas escreveu num texto (1971), na linha das intervenções conceptuais que, nessa década, “desarticulavam as noções tradicionais em torno dos materiais artísticos e da exposição de obras de arte” [2]. A atenção do artista converge em actos básicos, como escrever, sentir o batimento de um pulso ou libertar a mão de uma luva, dando a ver como os gestos mais vulgares e momentâneos se decompõem em sequências. É forte o eco de John Dewey e da sua visão da arte, exposta em Art as Experience (1934). Segundo este autor, a arte acontece através de “novas formas e modos de percepção (…) [e] aparece em lugares incomuns [do ponto de vista do sistema institucional da arte] mas que propiciam a busca do prazer e o exercício da sensibilidade” [3]; e esse prazer decorre muito, como ainda notou Dewey, da consciência que se tem do processo de fabricar e produzir algo, bem como dos materiais que se usam.

Há em Entre/Between peças cuja presença, decorrente do formato em que foram concebidas, se faz pelo registo documental, em formato de imagem (fotografias de instalações) ou áudio, como no caso da banda sonora de Home, Where is Home? (1990) – Constelação III: Esferas de poder. Nesta instalação, apresentada no interior de uma casa em construção, em Newcastle upon Tyne, relacionam-se as ideias de ‘casa’ e de ‘lugar’. Proporciona um dos momentos mais interessantes desta mostra, em grande parte pela concentração que o trabalho de composição a partir de outras composições requer, ausente qualquer outro referente da instalação. Aqui, Muntadas mistura extractos de música de variados estilos, vozes em filmes (Judy Garland em The Wizard of Oz, Dorothy dividida entre moradas), que na variedade de modos (do melancólico ao agressivo, passando pelo descontraído) nos dão as nuances das representações de um lugar como é a ‘casa’.

Antoni Muntadas faz parte daquele grupo de artistas em que é clara a vontade de inclusão no processo de significação daquilo que criam [4], o que passa, no seu caso, por intervir directamente na edição do trabalho que produz ou por interpelar, de vários modos, os potenciais visitantes das suas exposições. E regressamos ao princípio de Entre/Between. Na fachada do CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, lá está a faixa que colocou na entrada do pavilhão de Espanha na Bienal de Veneza, em 2005, e que anuncia em letras grandes: “Attenzione: la percezione richiede impegno” [5]. Uma mistura de apelo e provocação aos espectadores (se fosse um surrealista, poder-se-ia até pensar que joga com as placas que, no portão de algumas casas, nos avisam da existência de vigilantes e, logo, da importância de não entrar e circular de qualquer maneira…). Traduz, assim, uma atitude não complacente com os públicos, como quem diz que sem interesse, tempo e atenção constante não vale, não há encontros com a arte.

Notas

[1]  Antoni Muntadas em Muntadas. Intervenções: A Propósito do Público e do Privado, p. 32. Porto: Fundação de Serralves. Catálogo da intervenção de Muntadas concebida para a Casa de Serralves, em 1992.

[2]  Augaitis, Daina (2012), Muntadas: Entre, Cadernos do CAM (brochura da exposição), p.4. Lisboa: CAM – Fundação Calouste Gulbenkian.

[3] Reis, Magali; Bagolin, Luiz Armando (2011), Arte como experiência, Cadernos de Pesquisa, vol.41.142, São Paulo.

[4] Pinto, António Cerveira (1989), O Lugar da Arte, Lisboa: Quetzal, p. 21.

[5] “Atenção: a percepção precisa de empenho”.

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