O Crescente Envolvimento das Empresas no Comércio Justo

Dimensão analítica: Economia e Política

Título do artigo: O Crescente Envolvimento das Empresas no Comércio Justo

Autora: Ana Luísa Coelho

Filiação institucional: Faculdade de Economia da Universidade do Porto

E-mail: alcoelho.pt@gmail.com

Palavras-chave: Participação das Empresas, Comércio Justo, Economia Social.

As vendas de produtos certificados de Comércio Justo (CJ) assistiram a um rápido crescimento, desde a sua introdução nos Países Baixos em 1988, que se deve ao crescente envolvimento das empresas, mas tal não tem sido visto com agrado por todos. Como participam as empresas no CJ? Como estão envolvidas as empresas no CJ?

Embora a participação das empresas tenha o potencial para expandir o mercado dos bens de Comércio Justo, esta mesma participação ameaça aspectos-chave da visão original do Comércio Justo, como a preocupação primária com a condição de pobreza dos pequenos produtores e o objectivo de desenvolver uma abordagem alternativa de comércio e desenvolvimento, e poderá mesmo vir a pôr em causa a sua sobrevivência a longo prazo.

Nas palavras de Franz Van der Hoff o produto do Comércio Justo (CJ) tem um valor justo, e é o mercado como deve ser, o resto é exploração. Assim, para falar sobre CJ é importante distinguir entre movimentos sociais, que visam a reforma do sistema internacional de comércio e iniciativas específicas que procuram uma ligação mais directa entre os pequenos produtores no sul e os consumidores no norte (Reed, 2009) [1].

Os processos de certificação com o apoio de organizações de comércio alternativo do norte e organizações de produtores no sul permitiram uma maior organização, constituindo uma rede de certificação CJ (Renard, 2005) [2], havendo actualmente uma cada vez maior interação das empresas com organismos de certificação de CJ.

Para alguns o CJ tem início nos movimentos cooperativos europeus, após a 2.ª Guerra Mundial quando várias organizações religiosas iniciaram programas de venda artesanato de países em vias de desenvolvimento; organizações sem base comercial, dependentes de voluntários, com pouco controlo da qualidade dos produtos e enfatizando a ajuda aos produtores (como mães solteiras, e pessoas em pobreza extrema), não centrados nos consumidores (Littrell & Dickson, 1997 [3]; Tallontire, 2000 [4].

Um dos desenvolvimentos mais significativos no CJ foi o dos programas de certificação de produto. A primeira entidade certificadora de produtos CJ (FLO) foi a Fundação Max Havelaar, criada em 1988 nos Países Baixos, que resulta da colaboração entre a cooperativa de pequenos produtores indígenas de café no México – UCIRI e uma ONG neerlandesa (Reed, 2009 [1]) tendo como figuras primárias Franz Van der Hoff, um padre neerlandês que trabalhou com a cooperativa, e Nico Roozen, que trabalhou com a agência de desenvolvimento ecuménico neerlandês Solidaridad (Roozen & VanderHoff Boersma, 2001 [6]; Reed 2009 [1]). A certificação garante aos consumidores que os produtos que compram são produzidos em condições favoráveis aos pequenos produtores (Reed, 2009) [1].

O crescimento do CJ tem de ser entendido dentro do contexto económico político de mudanças significativas nas práticas de negócio e regulação de economias nacional e internacional como a ascensão da forma neoliberal da globalização económica que beneficiou do desenvolvimento de análise de cadeia de commodities (Taylor, 2005) [7].

Na cadeia de valor da economia social, a forma relacional de governança baseia-se em valores de solidariedade e justiça social (Reed, 2009) [1]. A primeira certificação (1988) alterou esta forma completamente não-corporativa de cadeia de valor do CJ promovendo a participação de retalhistas (Roozen & VanderHoff Boersma, 2001) [6].

A participação de empresas também tem desempenhado um importante papel nos recentes sucessos do CJ: (i) aumento de políticas de compra pública (alternativas); (ii) aumento da profissionalização de distribuidores alternativos (Randall, 2005) [7] e (iii) aumento do marketing social (Reed, 2009) [1], por exemplo.

A Fair Labelling Network cresceu tremendamente desde o início dos programas de certificação, há duas décadas, devido em parte ao aumento do envolvimento das empresas no CJ, e tem sido acompanhado por uma enorme mudança na prática de CJ.

Aumentar formas de envolvimento de empresas no CJ trará benefícios, mas também riscos, principalmente sob a forma de comprometimento dos objectivos da economia social original e dos valores do movimento do CJ. Analisar a cadeia de valor clarifica a natureza destes riscos e dá uma melhor base para avaliar os potenciais trade-offs. Distinguir as várias práticas de CJ permite uma compreensão mais abrangente das questões normativas que surgem através da participação corporativa no CJ.

Tal como Claude Weinbel da Heinrich Böll Foundation afirma, o CJ é um elemento-chave na mudança para melhoria das realidades comerciais complexas e injustas, que não deve ser desvirtuado.

Notas

[1] Reed, D.: 2009, ‘What do Corporations have to do with Fair Trade? Positive and Normative Analysis from a Value Chain Perspective’, Journal of Business Ethics 86: 3-26

[2] Renard, M.-C.: 2005, ‘Quality Certification, Regulation and Power in Fair Trade’, Journal of Rural Studies 21, 419–431.

[3] Littrell, M. A. & M. A. Dickson: 1997, ‘Alternative Trading Organizations: Shifting Paradigm in a Culture of Social Responsibility’, Human Organization 56(3), 344–352.

[4] Tallontire, A.: 2000, ‘Partnerships in Fair Trade: Reflections from a Case Study of Cafe´direct’, Development in Practice 10(2), 166–177.

[5] Taylor, P. L.: 2005, ‘In the Market but Not of It: Fair Trade Coffee and Forest Stewardship Council Certification as Market-Based Social Change’, World Development 33(1), 129–147.

[6] Roozen, N. & F. VanderHoff Boersma: 2001, L’aventure du Commerce Équitable: Une Alternative à la Mondialization par les Fondateurs de Max Havelaar (Jean-Claude Latte´s, Paris).

[7] Randall, D. C.: 2005, ‘An Exploration of Opportunities for the Growth of the Fair Trade Market: Three Cases of Craft Organizations’, Journal of Business Ethics 56, 55–67.

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