A endogeneidade da criatividade. O caso britânico e português

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: A endogeneidade da criatividade. O caso britânico e português

Autor: João Valente Aguiar

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

E-mail: joaovalenteaguiar@gmail.com

Palavras-chave: criatividade, produtividade, emprego.

Considera-se aqui a criatividade como componente da produtividade [1]. Por outras palavras, a aplicação de matéria-prima simbólica e complexa na criação de novos bens, serviços e processos subscreve-se como um processo económico sólido. Nesse sentido, a criatividade tem um caráter endógeno e potenciador de crescimento robusto de emprego e de valor acrescentado, inclusive na resposta a situações de prévia crise económica. Por diferentes ordens de razões, os casos apresentados pretendem comprovar esta hipótese.

Em Janeiro de 2014, o Department of Culture, Media and Sports (DCMS) publicou um novo relatório sobre as Indústrias Criativas (IC) [2] no Reino Unido. Este relatório do DCMS começa por salientar que o crescimento do setor em 2012 chegou quase aos 10%, «ultrapassado todos os restantes setores da indústria britânica» [3]. No mesmo sentido se percebe que o crescimento do setor foi acompanhado pela reaproximação do número de empregos disponíveis relativamente ao verificado no período anterior à crise económica – 1,68 milhões de empregos em 2012, cerca de 5,6% dos empregos no Reino Unido. Mas se se acrescentarem os empregos nas IC com os empregos criativos gerados noutras áreas da economia, verifica-se que o conjunto da economia criativa «contabiliza 2,55 milhões de empregos em 2012» o que representa «1 em cada 12 empregos no Reino Unido» [3]. Importa também referir que a reação ao contexto de crise económica e financeira foi pujante e conseguiu criar emprego a um ritmo muito superior ao verificado no conjunto da economia britânica. De acordo com os dados disponíveis, «o emprego nas IC aumentou 8,6% entre 2011 e 2012, uma taxa muito superior à da economia do Reino Unido como um todo (0,7%)» [3].

Comparativamente, em Portugal, «o Sector Cultural e Criativo era responsável, em 2006, por cerca de 127 mil empregos, representando, desse modo, cerca de 2,6% do emprego nacional total». Portanto, as IC criaram, no «período 2000-2006, cerca de 6500 empregos» [4], registando um crescimento de 4,5%, face ao crescimento cumulativo do emprego de apenas 0,4%, à escala nacional. Os dados existentes não contemplam a situação posterior à crise económica internacional, mas são suficientemente ilustrativos do menor peso relativo das IC no conjunto da economia portuguesa.

Em termos de criação de valor, as IC, no Reino Unido, «valem agora 71,4 mil milhões de libras por ano na economia – gerando algo acima de 8 milhões de libras por hora» [3]. No fundo, estes valores representam um total de 5,2% do PIB britânico, verificando-se desta forma um crescimento absoluto e relativo das IC no conjunto do tecido económico. A este crescimento não está alheio o facto de o valor acrescentado (VAB) das IC ter crescido «15,6% desde 2008, comparado com o aumento de 5,4% da economia britânica como um todo» [2]. Mesmo no período pós-crise o VAB gerado pelas IC cresceu 9,1% entre 2010 e 2011 e 9,4% entre 2011 e 2012, sendo que o VAB da economia do Reino Unido cresceria 2,5% e 1,6% para os mesmos períodos.

No respeitante a dados sobre a situação portuguesa, o relatório de Mateus que temos vindo a seguir salienta que as IC foram responsáveis por «2,8% de toda a riqueza criada nesse ano em Portugal» [5]. Deste ponto de vista, é analiticamente interessante verificar como num cenário pré-crise as IC correspondiam a menos de 3% do PIB, e num cenário pós-crise, e numa economia mais desenvolvida, ultrapassavam os 5% do PIB. E sem referir que no caso britânico está-se a avaliar um PIB nominal sensivelmente dez vezes superior ao registado em Portugal.

No que diz respeito ao potencial concorrencial das IC britânicas verifica-se que o «valor dos serviços exportados pelas IC foi de 15,5 mil milhões de libras», o que representa 8,0% do total das exportações de serviços do Reino Unido. Este indicador também corrobora a capacidade regeneradora e plasticidade do sector das IC na recuperação económico no período seguinte à crise de 2007-09. «Entre 2009 e 2011 o valor das exportações de serviços das Indústrias Criativas aumentou em 16,1%. Em comparação, as exportações de serviços aumentaram, no conjunto da economia, na ordem dos 11,5%» [3].

Num documento dedicado especificamente à internacionalização das empresas de IC sedeadas em Portugal, verifica-se que «o peso destes bens e serviços de no total das vendas do país ao exterior superou sempre 3%, aproximando-se mesmo dos 4% desde 2009» [6]. Com efeito, tomando como valor base 100 para 2008, e a valores constantes, verifica-se que após um decréscimo nas exportações globais do setor em 2009 (índice 95), em 2010 e em 2011 a trajetória evidencia-se como francamente ascendente (102 e 112 respetivamente) [7]. Todavia, a capacidade concorrencial e de internacionalização é ainda incipiente já que «a percentagem de empresas exportadoras culturais e criativas (3,2%) fica abaixo da percentagem de empresas exportadoras do país (3,8%) e é seis vezes inferior à percentagem de empresas exportadoras nas indústrias transformadoras nacionais (19,4%)» [8].

Criação de emprego, alocação de índices de alto VAB, expansão do mercado de bens de consumo, utilização de trabalho qualificado e criativo e internacionalização da economia constituem-se em vetores nucleares do impacto das IC numa das economias ocidentais que mais cresceu no período pós-2007 [9]. Por outro lado, no caso português, o lugar de relevância das IC é também aqui confirmado, se bem que por diferentes motivos. Apesar dos indiscutíveis avanços da economia criativa, uma avaliação sucinta revela que estes ainda carecem de maior capacidade concorrencial internacional e que setores com maior criação de VAB e de emprego como o design ou a produção de software continuam numa situação de subdesenvolvimento.

Notas

[1] Este artigo conta com o apoio financeiro de uma bolsa de pós-doutoramento da FCT (SFRH/BPD/85425/2012).

[2] A classificação do mesmo DCMS considera que as IC albergam os seguintes sub-setores: Arquitetura; Artesanato; Artes e mercados de antiguidades; Artes performativas; Design e design de moda; Filme e vídeo; Livros e mercado editorial; Música; Publicidade; Software e serviços computadorizados; Software interativo de lazer; Televisão e rádio.

[3] DCMS (2014), Creative Industries Economic Estimates 2014. London: DCMS

[4] Mateus, Augusto (2010), O sector cultural e criativo em Portugal. Lisboa: Ministério da Cultura, p.82

[5] Mateus (2010), op cit., p.78

[6] Mateus et al. (2014), A cultura e a criatividade na internacionalização da economia portuguesa. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura, p.21

[7] Mateus et al. (2014), op cit., p.23

[8] Mateus et al. (2014), op cit., p.65

[9] Szu Ping Chan (2014), UK will be fastest growing economy in the G7 this year. The Telegraph, 8/04/14.

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