Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: A (des)educação de Portugal: reflexões a partir do Congresso Português de Sociologia
Autor: Pedro Abrantes
Filiação institucional: ISCTE-IUL
E-mail: pedro.abrantes@iscte.pt
Palavras-chave: (Des)educação, Portugal, Congresso Português de Sociologia
Com este título provocatório (inspirado num álbum de Lauren Hill) aludimos não só à persistência, no contexto europeu, de níveis de escolaridade inferiores e resultados mais baixos nos testes de competências, mas também aos cortes recentes – sobretudo, em iniciativas, programas e apoios direcionados às populações desfavorecidas – que conduzem a (e legitimam) uma educação mais seletiva e de banda estreita, nos próximos anos.
Num nível mais profundo, o epíteto serve igualmente para enunciar a situação paradoxal de um país que assumiu, desde os anos 80, o papel do “bom aluno” da Europa – entendido, por muitos dirigentes, como aquele que se senta na primeira fila, nunca contradiz o professor, estuda na véspera e lá vai conseguindo notas medianas, o que não deixa de nos dizer algo acerca dos seus apologistas – e que se descobre hoje reprovado e desqualificado, a par dos seus colegas do sul.
Ou podemos ainda usar o termo “deseducação” para referir-nos a uma sociedade em que o projeto da educação como motor do desenvolvimento individual e coletivo (mais enunciado do que praticado, é certo) é minado por retóricas imediatistas e individualistas, do “salve-se quem puder”, desde o topo à base da hierarquia social. Trata-se de uma dinâmica tão endémica no tecido educativo e social português como a próprio conceito de crise, mas que ganham – uma e outro – renovada expressão no contexto atual de contração económica e ofensiva neoliberal.
O que acrescentaram os trabalhos apresentados ao recente Congresso Português de Sociologia (Junho de 2012) para compreender estas realidades, aliás, profundamente interligadas? Nesta crónica, sublinho algumas ideias fortes que trouxe do Porto, reconhecendo desde já que, tendo estado no congresso do início ao fim, a quantidade de sessões simultâneas apenas permitiu a cada participante uma visão muito parcelar do evento.
Começo por sublinhar o conceito de “inconsistência institucional”, recuperado por José Madureira Pinto numa das sessões plenárias, para caracterizar a sociedade portuguesa atual. Após a unidade retrógrada, imposta e controlada pela aliança entre Estado Novo e Igreja Católica, as instituições centrais da vida social desenvolveram-se nas últimas décadas, mas em ritmos, intensidades e sentidos diversos, gerando-se entre si tensões e hiatos de difícil resolução.
Embora o autor não tenha abordado em particular o tema da educação, podemos mobilizar o conceito para compreender como família, sistema educativo, mercado de trabalho e comunicação social seguiram caminhos distintos, interpretações diferentes do que é a democracia, a liberdade e a modernidade, quantas vezes, em concorrência e choque entre si, mais propensos a atribuir responsabilidades aos restantes do que a dirimir as suas próprias fragilidades e a buscar formas de articulação. Este cenário é evidente no próprio aparelho de estado, cuja expansão das últimas décadas tem sido acompanhada por insanáveis dificuldades de coesão entre os seus vários subsistemas, o que reduz a eficácia de cada um deles. É claro que a pluralidade é um elemento constitutivo das sociedades modernas e liberais, mas, pelo menos em instituições omnipresentes como as referidas, a pluralidade deve pautar o quotidiano de cada uma, em vez de ser o móbil das tensões entre elas.
Um reflexo disso é o facto de muitos professores, críticos acérrimos da desvalorização simbólica da escola, não hesitarem em veicular nas suas aulas e nas suas intervenções públicas a ideia – objetivamente falsa, mas propalada na comunicação social – de que os diplomas escolares pouco valor têm, em contraste com um passado frequentemente romantizado, acelerando assim o processo que pretendem denunciar.
De salientar igualmente a mesa de comunicações sobre o ofício dos sociólogos – entre outros profissionais do social – em contexto escolar, em áreas diversas como os territórios de exclusão social, a formação de professores ou a educação de adultos. Um número crescente de sociólogos tem vindo a trabalhar em contextos escolares, desempenhando funções diversas e desenvolvendo múltiplas competências, o que nem sempre tem merecido a devida atenção por parte da academia. Recuperando o legado de sociólogos da educação tão influentes nos anos 80 e 90, como Steve Stoer e Ana Benavente, é fundamental valorizar e refletir sobre estas práticas profissionais, até para contrariar uma relativa “psicologização” das intervenções na escola, atribuindo aos psicólogos a responsabilidade por lidar com problemas que são, frequentemente, sociais e culturais. Aos sociólogos da educação, cabe então a produção, reflexão e difusão de ferramentas de intervenção no contexto educativo, bem como uma maior participação no espaço público, como apontou Michael Burawoy na conferência inaugural.
Das restantes comunicações, sublinho aqui em registo telegráfico algumas ideias importantes que retive do congresso: (1) a diversidade dos sistemas educativos europeus e a sua estreita relação com os modelos de estado-providência, vigentes nas diferentes regiões da Europa; (2) as falácias dos “rankings” das escolas divulgados pelos media e a sua tendência para “comparar o incomparável”; (3) a difusão recente das tecnologias da informação e comunicação nas escolas, muitas vezes reforçando as pedagogias tradicionais e expositivas; (4) a crescente presença das empresas no sistema educativo, através de múltiplas estratégias de “marketing escolar”; (5) a violência do estigma associado aos cursos de educação e formação, nos próprios ‘blogues’ docentes; e (6) o processo de reconhecimento de competências como espaço de reflexividade social e (re)construção de identidades.
Trabalhemos então, em conjunto, para que a tal “deseducação” constitua apenas uma faceta inicial de um processo mais longo e construtivo de libertação de modelos institucionais desgastados, anacrónicos e desarticulados, rumo à transformação da educação e da própria sociedade.




