Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: Aprendizagem, ensino e relação professor-aluno
Autora: Joana Cadima
Filiação institucional: Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUP)
E-mail: jcadima@fpce.up.pt
Palavras-chave: Aprendizagem, relação professor-aluno, desenvolvimento socioemocional.
Ensino e aprendizagem parecem ser dois fenómenos altamente complexos que interagem entre si, e não apenas dois fenómenos isolados em que um (o ensino) é a causa do outro (aprendizagem). Estes processos não decorrem no vazio, mas antes no contexto de interacções que lhes dão forma e significado. As crianças aprendem muito mais do que aquilo que lhes ensinam e, simultaneamente, não aprendem tudo o que se pretende ensinar-lhes. O carácter formal do ensino por vezes choca com o carácter informal da aprendizagem. Parece não haver uma relação simples, unidireccional, entre ensino e aprendizagem, sendo necessário considerar, por um lado, outros processos relativos à criança, nomeadamente, a sua motivação, ou o seu conhecimento prévio. Por vezes, a criança não possui o conhecimento ou as ferramentas que lhe permitiriam apropriar-se de novos conceitos; outras vezes esse conhecimento não é activado, o que significa que não são estabelecidas pontes com o que a criança já sabe, levando a conhecimentos fragmentados e parcelares. Por outro lado, é importante ter em conta que o ensino é mais do que a demonstração, a modelação, ou o reforço de determinados conteúdos programáticos, sendo um processo complexo, social e psicologicamente mediado [1]. O entusiasmo do professor, a maneira como repete e destaca as ideias-chave, ou a forma como responde e dá seguimento às respostas dos alunos, influenciam a forma como os alunos se apropriam desses conteúdos programáticos. A aprendizagem e o ensino jogam-se num campo de complexidades, em que os objectivos pedagógicos e os conteúdos programáticos apenas correspondem a uma pequena parcela.
A relação entre o professor e o aluno, que se vai construindo no decorrer das interacções na sala de aula, assume uma particular importância. De acordo com a teoria da vinculação, uma das teorias mais proeminentes do desenvolvimento da criança, os adultos que sustentam relações próximas e calorosas com a criança ajudam-na a sentir-se emocionalmente segura e, assim, a explorar a situação de aprendizagem [2]. Quando os professores são responsivos às suas necessidades, as crianças tendem a abordar a situação de aprendizagem com atitudes e expectativas positivas, bem como a estarem mais disponíveis para atender à situação de aprendizagem. A relação professor-aluno assume assim a função de regulação do envolvimento da criança no contexto de sala de aula. A forma como o professor se relaciona com cada aluno, oferecendo-lhe o apoio emocional necessário para que arrisque e cometa erros, essenciais à aprendizagem, traduz-se num recurso que o ajuda a lidar com as exigências da situação. Deste modo, a aprendizagem do aluno depende, em parte, da sua relação com o professor e, de uma forma mais ampla, do clima emocional da sala de aula. Alguns alunos tendem a estabelecer relações mais conflituosas com o professor, com repercussões drásticas para as suas aprendizagens. É importante que o professor crie um ambiente na sala de aula propício ao diálogo e que leve a criança a refletir sobre as suas próprias aprendizagens. A forma como o professor responde às suas dúvidas e erros irá condicionar a sua motivação, a sua confiança e a sua capacidade para aprender cada mais. Por outras palavras, uma relação próxima não é apenas importante para o desenvolvimento socioemocional da criança, mas parece ser igualmente essencial às suas aprendizagens académicas. Em suma, como referem De Corte e Verschaffel [3]”more must be learned that can be taught”, é necessário aprender mais do que aquilo que se pode ensinar, o que significa que, para garantirmos aprendizagens significativas, temos de ir para além da planificação dos métodos de ensino ou da selecção adequada dos conteúdos curriculares. Temos também de considerar os processos interactivos, o contexto socio-cultural, o sistema de relações entre o professor e as crianças, que estão subjacentes ao processo de ensino-aprendizagem e que condicionam de sobremaneira a forma como os alunos aprendem e a forma como os professores ensinam. O estabelecimento de elos de confiança, em que professores e alunos se conhecem e se respeitam, a criação de oportunidades de diálogo ou o estabelecimento de um ambiente positivo com elevadas expectativas de aprendizagem parecem ser fulcrais em todos estes processos.
Notas:
[1] Pianta, R. C., Hamre, B. K., & Stuhlman, M. W. (2003). Relationships between teachers and children. In W. M. Reynolds, G. E. Miller, & I. B. Weiner (Eds.), Handbook of psychology: Vol. 7. Educational psychology (pp. 199–234). Hoboken: Wiley.
[2] Pianta, R. C. (1999). Enhancing relationships between children and teachers. Washington, DC: American Psychological Association.
[3] De Corte, E., & Verschaffel, L. (2006). Mathematical thinking and learning. In K. A. Renninger, & I. E. Sigel (Series Eds.), Handbook of child psychology: Vol. 4. Child psychology and practice (6th ed., pp. 103–152). Hoboken, NJ: Wiley.





