Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território
Título do artigo: Grupos liderados por jovens à procura de futuros mais justos
Autora: Daniela Ferreira da Silva
Filiação institucional: Universidade do Minho| Departamento de Ciências da Comunicação, Instituto de Ciências Sociais (ICS-UMinho), Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA-UMinho)
E-mail: danielasilva0497@gmail.com
Palavras-chave: Alterações climáticas, Ativismo jovem, Imaginários políticos.
A paisagem do ativismo ambiental em Portugal sofreu uma transformação nos últimos anos. O paradigma tradicional da conservação da natureza tem sido progressivamente desafiado pela emergência de uma ação coletiva disruptiva e rejuvenescida. Inspirados por movimentos como o Sunrise Movement (2017), Fridays for Future (2019) ou Extinction Rebellion (2019), grupos liderados por jovens em Portugal têm-se empenhado em pensar sobre possibilidades alternativas de governança das alterações climáticas.
Perante este cenário, e no âmbito de um projeto de investigação em curso [1], convocou-se uma questão central: como é que os jovens percebem o seu papel nas transformações sociais necessárias a uma transição democrática, sustentável e justa? Para responder a este desafio, elegeu-se o discurso como objeto de análise.
A crise climática manifesta-se através de discursos, sejam mais abstratos, como os casos do “empreendedorismo verde”, da “sustentabilidade” ou da “pegada ecológica”; ou mais concretos, sob a forma de “planos estratégicos”, “roteiros” ou “acordos internacionais”. Enquanto linguagem em contexto, o discurso constitui um terreno onde se iluminam (ou obscurecem) dinâmicas de poder, conflito e representação, operando como veículo através do qual os sujeitos se posicionam e se constituem politicamente (p.ex., “nós” versus “eles”) [2]. Por esta razão, o discurso orienta a nossa ação e molda os nossos imaginários políticos – entendidos como “construções dinâmicas da realidade política que possibilitam práticas, orientam expectativas, influenciam decisões e determinam o que é politicamente legítimo, viável e valioso – e o que não é” [3]. Atualmente, o imaginário dominante, moldado pela democracia neoliberal, promove abordagens de mercado que despolitizam o debate climático e delegam as tomadas de decisão a uma gestão tecnocrática [4].
Face à ineficácia dos múltiplos acordos internacionais em mitigar a crise climática e os profundos desafios não só de implementação de políticas climáticas como relativos ao envolvimento – efetivo – das populações neste debate, abre-se espaço para a reivindicação, a desobediência e a prefiguração de caminhos alternativos – entre outros discursos, o “Fim ao Fóssil até 2030!”.
Mapear os discursos de grupos liderados por jovens permitiu compreender como as visões políticas enraizadas são negociadas ou desafiadas. A análise dos discursos de quatro grupos distintos – Climáximo, Greve Climática Estudantil (GCE), LIDERA e Ambiental-IST – evidenciou a sua capacidade em agitar o debate político em torno da crise climática [5, 6]. Contudo, os seus horizontes discursivos diferem. Nos coletivos mais transformativos (Climáximo e GCE), as dimensões da justiça climática e da interseccionalidade assumem uma centralidade inequívoca. Já nos grupos de cariz mais mainstream, os discursos oscilam entre a apologia do desenvolvimento tecnológico aliado aos comportamentos sustentáveis (LIDERA) e o fomento de redes estudantis para a preservação de espaços verdes locais (Ambiental-IST).
Numa perspetiva crítica, estes dados levantam algumas questões. Se, por um lado, os grupos mais disruptivos enfrentam processos de total deslegitimação no espaço mediático e de criminalização por parte das autoridades judiciais [7], por outro, os grupos que projetam imaginários circunscritos ao sistema correm o risco de coaptação por uma estrutura que, historicamente, oferece escasso poder de agência real aos jovens. Torna-se, por isso, urgente desenvolver competências de pensamento crítico e de imaginação política capazes de gerar discussão sobre os discursos dominantes sobre as alterações climáticas e discutir processos de mudança social [8].
Com o propósito de oferecer um espaço de reflexão, os workshops #CraftingAction debruçaram-se sobre formas de amplificar as vozes dos jovens no debate climático, uma urgência quando os canais convencionais de participação política falham em responder e atrair as gerações mais jovens. Realizados no Porto e em Lisboa, em 2024, com 23 jovens (entre os 18 e os 32 anos) com diferentes níveis de envolvimento com a causa climática, os workshops permitiram constatar que os jovens possuem uma consciência crítica sobre as relações desiguais de poder que limitam as suas respostas à crise climática, apontando a responsabilidade intergeracional e os enviesamentos na comunicação mediática e educativa como barreiras estruturais.
Para contornar estes limites, os participantes propuseram tanto a reconfiguração de instâncias de participação existentes (p.ex., assembleias municipais) como a criação de novos lugares de ação, tais como os hubs de ativismo inseridos no espaço universitário [9]. Importa realçar que, entre os participantes menos envolvidos na causa climática, predominava um conhecimento político difuso, traduzido num foco em comportamentos “sustentáveis” estritamente individualizados. Para estes, o espaço do workshop contribuiu para um processo inicial de posicionamento e de consciencialização política. Neste contexto, o diálogo entre jovens com diferentes níveis de envolvimento, foi crucial. O workshop criou um espaço de encontros e diálogos improváveis, entre jovens que, de outra forma, dificilmente se conheceriam ou interagiriam. Consequentemente, o envolvimento dos jovens em atividades participativas permitiu-lhes transformar um problema abstrato e global numa experiência local: as alterações climáticas já não são (apenas) “o degelo” (um discurso fixado nos nossos imaginários), mas passam a ser “como é que isto afeta a minha cidade e o meu futuro?”.
É preciso não esquecer que estes jovens (mais ou menos envolvidos) integram a geração de “nativos climáticos” [10]. Cresceram num contexto marcado por ciclos de crises, onde a vulnerabilidade climática se cruza profundamente com as desigualdades étnicas, na habitação, na saúde, de género, etc. Ao erguerem a bandeira da justiça climática, estes grupos estão a experimentar, prefigurar e convocar a sociedade para a urgente recuperação de uma imaginação democrática coletiva [11].
Notas
[1] Projeto “Reimaginando a agência política: a(s) voz(es) dos jovens no debate das alterações climáticas” (https://doi.org/10.54499/2024.02918.BD), integrado no projeto “Justfutures: Futuros Climáticos e Transformações Justas” (https://sciproj.ptcris.pt/165682PRJ/).
[2] Carvalho, A., Russill, C., & Doyle, J. (2021) ‘Editorial: Critical Approaches to Climate Change and Civic Action’, Front. Commun., vol. 6.
[3] Machin, A. (2022). ‘Climates of democracy: Skeptical, rational, and radical imaginaries’, WIREs Climate Change, vol. 13, no. 4.
[4] Swyngedouw, E. (2010). ‘Apocalypse Forever?’, Theory, Culture & Society, vol. 27, no. 2–3.
[5] Ferreira da Silva, D., & Carvalho, A. (2025). ‘Climate Activist Groups‘ Discourses on Science and Knowledge: Merging Rhetorical Strategies with Political Visions’, Environmental Communication.
[6] Ferreira da Silva, D., Carvalho, A., & Fernandes-Jesus, M. (2025). ‘Political Imaginaries in the Climate Movement: Youth-Led Groups Constructing Plural Views of the Future’, Sociological Research Online.
[7] Pinho, S. (2023). ‘Climate activism on trial: Legal repression challenges protests in Europe and Portugal’. Gerador.
[8] Ferreira da Silva, D., Fernandes-Jesus, M., & Carvalho, A. (2025). ‘Engaging young people with alternative climate futures: cultivating political imagination through participatory methodologies’, Environmental Education Research.
[9] Santos, T. R., Ferreira da Silva, D., Diógenes-Lima, J., & Carvalho, A. (2025). ‘#CraftingAction’, JustFutures, https://justfutures.pt/
[10] WTFutures (2025). ‘KEY LEARNINGS’, Plurality University Network; European Climate Foundation.
[11] Eskelinen, T. (Ed.) (2020). The Revival of Political Imagination: Utopia as Methodology. London: Zed Books Ltd.
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