Pandemia(s)

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Pandemia(s)

Autora: Paula Silva

Filiação institucional: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto | Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – Instituto de Investigação em Saúde

E-mail: psilva@med.up.pt; psilva@ipatimup.pt

Palavras-chave: COVID-19, desigualdades sociais.

Identificado a 7 de janeiro como o responsável por pneumonias diagnosticadas por causas desconhecidas na cidade de Wuhan (China) no final de 2019, o surto provocado pelo vírus COVID-19 foi classificado como pandémico pela OMS em março deste ano [1]. De entre as medidas potencialmente redutoras de disseminação da doença, o distanciamento físico é das mais evocadas. Mas sendo o ser humano eminentemente social, estará em risco a sua essência biopsicossocial ou, pelo contrário, criar-se-ão oportunidades nesta situação de ameaça? A verificar-se a última hipótese, saberá a Humanidade aproveitá-las?  Se ainda é precoce efetuar uma análise retrospetiva em profundidade, é pelo menos possível efetuar uma avaliação dos factos com base na experiência próxima e na que à distância temos acesso.

Decorridos seis meses sobre o início da pandemia, foram registados a nível mundial mais de 10 milhões de casos e de 570 mil óbitos, para além da produção (em diferentes fases de desenvolvimento laboratorial) de cerca de 200 potenciais vacinas [2]. Para lá dos efeitos devastadores, a incerteza associada ao modo de transmissão do vírus fez-nos perceber que afinal somos mais iguais do que julgávamos não ser e mais insignificantes do que julgávamos ser. O Homem à mercê de um pangolim ou de um morcego: Homo sapiens sapiens? [3]. Adicionalmente, tornou mais visíveis e/ou acentuou as desigualdades sociais em termos económicos e geográficos, o que em alguns casos se repercute numa mortalidade por danos colaterais superior à verificada pela doença. A fome extrema é a causa mais impactante. Esta situação, recentemente reportada pela organização não governamental Oxfam como tendo na América Latina (em particular no Brasil e Venezuela) e em algumas regiões da África Ocidental os principais focos de incidência, foi reforçada pelas previsões do WFP para 2020: 270 milhões de pessoas afetadas, o que corresponde a um aumento de 82% face ao período prévio à COVID-19 [4]. Para além das debilidades estruturais pré-existentes que a ausência de suporte social agravou, do desemprego, do aumento da precariedade social e da pobreza resultantes da pandemia, a sazonalidade climatérica e agrícola própria daqueles territórios, a par dos conflitos armados que se verificam em alguns deles, concorrem para a atrocidade daqueles números. Mais, poderão fazer deslocar da Europa para a América Latina o epicentro da infeção [5].

Por oposição, a hegemonia da agenda político-económica manifesta-se a vários planos: na divergência entre artigos científicos reveladores da importância da transmissão assintomática e o discurso político [6]; na forte interferência dos Estados na manipulação dos indicadores sobre a doença (de que os EUA e o Brasil constituem péssimo exemplo); na promoção da imunidade de grupo, cuja eficácia é discutível, à custa de uma elevada mortalidade na população idosa (como na Suécia [7]), ou na abertura condicionada das fronteiras por parte de países que apresentam altas taxas de infeção e de mortalidade (como o Reino Unido [8]).

Numa primeira fase, a ação do governo e a participação intensa da população por via do confinamento, para além de rasgados elogios a nível internacional valeu a Portugal ser considerado um modelo a seguir. Um estudo da OCDE refere que de 150 projetos de combate à pandemia identificados a nível mundial, o nosso país foi dos que mais soluções diferenciadoras apresentou (11%) [9]. A política de realização de testes, que integra a categoria “público, aberto e disponível para pessoas assintomáticas” [10], corresponde a 127,45 por 1000 habitantes, montante unicamente excedido pela Rússia [11].

À data de elaboração deste artigo (Meados de julho de 2020), assiste-se pela primeira vez a uma ligeira diminuição no registo de novos casos desde o início do desconfinamento. A este nível, os valores mais elevados observam-se nos EUA, Brasil e Índia (respetivamente, 326.484, 264.107 e 139.362) [12].  Quanto ao número de óbitos por milhão de habitantes, Portugal apresenta 161,23, inferior ao verificado no Reino Unido (657,01), Espanha (607,45), Itália (577,65) ou Suécia (544,59), mas consideravelmente superior ao da Alemanha (108,06), Noruega (46,48) e República Checa (32,87) [13].

O atual cenário, oposto ao inicialmente auspicioso, torna imprescindível o controlo de novos casos para convergir com a tendência europeia de decréscimo. No entanto, esta necessidade colide com o estado de calamidade decretado em 19 freguesias da zona de Lisboa e Vale do Tejo, densamente habitada por uma população cujas condições de vida a tornam mais vulnerável. Segundo os dados oficiais, ¼ dos novos infetados são imigrantes – maioritariamente africanos -, cuja precariedade laboral e de rendimentos, débeis condições de habitabilidade, um domínio fraco ou inexistente da língua portuguesa, a par da existência igualmente débil ou nula de redes de sociabilidade/suporte externas à sua realidade de origem, requerem “um “novo modelo” de combate à covid que passe por “medidas de pormenor, específicas” e não nacionais.” (Presidente da República ao JN, edição 9 de julho). De entre as possíveis, consideramos prioritária a preconizada por David Beasley, director-executivo da WFP: “Until the day we have a medical vaccine, food is the best vaccine against chaos” [14].

Notas:

[1] https://www.euro.who.int/en/health-topics/health-emergencies/coronavirus-covid-19/novel-coronavirus-2019-ncov.

[2] Nature 583, 178-179 (2020); disponível em https://www.nature.com/articles/d41586-020-01989-z?fbclid=IwAR2fATtT7TpWD_v9zeSjYcpOAF7Aqqcd-7yxjKshkmzzwPEWwfWne-IGp0w.

[3] Homo sapiens, vocábulo em latim cuja tradução para Língua Portuguesa é “O homem sábio” (https://www.dicionariodelatim.com.br/).

[4] World Food Programme, organização humanitária das Nações Unidas que anualmente presta apoio a 86,7 milhões de pessoas em cerca de 83 países. Dados disponíveis em https://www.wfp.org/news/world-food-programme-assist-largest-number-hungry-people-ever-coronavirus-devastates-poor.

[5] https://insight.wfp.org/coronavirus-and-hunger-wfp-ready-to-assist-largest-number-of-people-ever-23aea919e87d.

[6] Ou de como as questões políticas se sobrepõem às de saúde pública: “How the world missed Covid-19´s silent spread”; disponível em https://www.nytimes.com/2020/06/27/world/europe/coronavirus-spread-asymptomatic.html?referringSource=articleShare&fbclid=IwAR1zj2mchs3fFAb8FT43C-AuK6gH6y27ieE6aYGEdLPQ737dRi5USd6UNsI.

[7] Que um artigo publicado na revista científica The Lancet contraria.

[8] https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/oficial-portugal-excluido-da-lista-de-paises-considerados-seguros-pela-inglaterra-609152

[9] https://jornaleconomico.sapo.pt/en/news/ocde-portugal-and-the-country-with-more-innovative-projects-to-combat-covid-19-578610.

[10] Segundo a Our World in Data (organização sem fins lucrativos), as outras três categorias são: i) política de testes inexistente; ii) testes disponíveis apenas para pessoas que apresentem sintomas e cumpram critérios específicos, designadamente trabalhadores com funções-chave, internamento hospitalar ou contacto com pessoas infetadas vindas do exterior (https://ourworldindata.org/grapher/covid-19-testing-policy).

[11] Com 151,3, de acordo com dados da Our World in Data (acedidos a 10 julho 2020). A título ilustrativo apresentam-se os seguintes valores por 1000 habitantes: Austrália, 114,15; EUA, 113,09; Inglaterra, 98,95; Espanha, 77,95; Noruega, 62,44; Suécia, 59,41; Irão, 22,59; India, 7,78; Paquistão, 6,75; Quénia, 3,73; Japão, 4,1; Etiópia, 2,18; Nigéria, 0,83 (https://ourworldindata.org/coronavirus-testing#world-map-total-tests-performed-relative-to-the-size-of-population).

[12] https://expresso.pt/coronavirus/2020-07-09-Coronavirus-no-mundo-em-13-graficos-228-mil-novos-casos-num-so-dia-o-valor-mais-alto-de-sempre (acedido a 10 julho).

[13] Só para citar alguns exemplos. Dados da Our World in Data em https://ourworldindata.org/covid-deaths#global-comparison-where-are-confirmed-deaths-increasing-most-rapidly (acedidos a 10 julho 2020).

[14] https://news.un.org/en/story/2020/06/1067352.

.

.

Esta entrada foi publicada em Saúde e Condições e Estilos de vida com as tags , . ligação permanente.