Há lugar para uma ciência mais implicada na área socioecológica?

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Há lugar para uma ciência mais implicada na área socioecológica?

Autora: Lúcia Fernandes, Sofia Bento

Filiação institucional: Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra; CSG/SOCIUS, Universidade de Lisboa

E-mail: luciaof@ces.uc.pt, sbento@iseg.ulisboa.pt

Palavras-chave: conflitos socioecológicos, ciência implicada, coprodução de conhecimentos.

A produção de conhecimento sobre a forma como pessoas e comunidades se mobilizam nas questões socioecológicas acontece, na maior parte das vezes, com um distanciamento em relação às realidades, aos contextos, aos conhecimentos e às pessoas. Quanto aos problemas socioecológicos, também se observa distância entre pessoas, comunidades e instituições em matéria de conhecimento sobre o território e a possibilidade em compartilhar essas visões. É usual as pessoas e as instituições atuantes em áreas relacionadas com os territórios terem também diferentes conhecimentos e visões para o presente e o futuro. Um dos pontos de bloqueio está no facto de as pessoas e os profissionais raramente se encontrarem para o diálogo e a reflexão coletiva sobre as alternativas em curso ou a construir. Por isso, existe necessidade de uma ciência social mais implicada sobre as questões socioecológicas, desbloqueando situações de impasse; uma ciência capaz de resgatar memórias, estabelecer e fortalecer vínculos cognitivos, políticos e afetivos entre pessoas, instituições e movimentos protagonistas de casos de conflitos presentes e passados. É neste contexto evolutivo e cooperativo que acreditamos que a ciência social pode permitir o fortalecimento de comunidades locais e de políticas públicas pertinentes para a prosperidade dos territórios. Este é um desígnio que vem sendo defendido por novos paradigmas da ciência – como a ciência cidadã [1], a ciência sensível [2], a ciência de rua [3], a ciência pós-normal [4] – que trazem novos elementos à práxis científica enfatizando processos de coprodução de conhecimento, comprometido com as pessoas e as comunidades.

Os conflitos socioecológicos surgem pela existência de processos de oposição e de mobilização coletiva suscitados por situações de efetivo ou potencial dano ambiental, social e para a saúde das populações (contaminação ambiental, perda de biodiversidade ou outros recursos naturais, perda de qualidade de vida e autonomia local, dentre outros). Motivados pelo funcionamento ou implantação de atividades económicas tratam-se de conflitos presentes em diversas áreas: agricultura, energia, indústria, mineração, resíduos, megaprojetos, gestão do território. Nestes cenários, os processos decisórios não reconhecem a centralidade das pessoas nem das comunidades ou dos projetos de vida para os territórios [5, 6]. Também é relegada ao esquecimento a convivencialidade existente no território, relacionada com os modos de uso e cultivo da terra, com formas de convívio com a natureza, com práticas de lazer ou de mobilidade [7].

O trabalho de cartografia de conflitos socioecológicos sistematiza e dá voz aos vários atores que explicitam as suas visões sobre questões socioecológicas, referentes a processos decisórios e/ou projetos que estão em desacordo com a defesa do território e o direito à vida. Foi a inexistência de um mapa português no Environmental Justice Atlas (EJAtlas) (Colaboração no âmbito do projeto EJOLT – Environmental Justice Organizations,Liabilities and Trade ref. 266642, 2011-2015, coordenação de Joan Martinez-Alier, Universidade de Barcelona).  que motivou o início deste trabalho de investigação-ação em agosto de 2014. Investigadores/as da Oficina de Ecologia e Sociedade do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, do Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações, Universidade de Lisboa e do Centro de Tecnologia Mineral, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e Comunicações, Brasil, assinaram um termo de cooperação internacional. Os seguintes objetivos foram perseguidos:- iniciar uma área de trabalho de investigação sobre conflitos socioecológicos em Portugal;

– realizar a agregação, sistematização e compressão de conhecimentos dispersos;

– gerar formas de trabalho colaborativas com afetadas/os e porta-vozes dos territórios.

Um dos principais resultados desta pesquisa foi o nascimento de uma comunidade alargada de investigação-ação, em consonância com o conceito de “extended peer community” [8]. Através desta nova comunidade, foi possível a incorporação de saberes situados [9] que correspondem muitas vezes a vozes invisíveis no espaço público. A comunidade integrou ONGs, sindicatos, organizações e plataformas de afetadas/os, instituições do poder local, cidadãs/ãos em nome individual. Foram desenvolvidas formas diferenciadas de interação e colaboração. Tal verificou-se em etapas diversas da construção do mapa, como, por exemplo, na recolha de materiais diversos (fotos, documentos, vídeos) dos casos de conflitos e temas, em sugestões para a descrição e caracterização dos conflitos, na participação em eventos realizados, e inclusivamente na conceção e revisão crítica dos textos.

O mapa temático de Portugal do EJAtlas foi lançado em março de 2015 (https://ejatlas.org/country/portugal). Como seguimento deste trabalho, surgiu o projeto exploratório “Portugal: Ambiente em Movimento” e um site em português foi lançado em agosto de 2016 com texto síntese descritivo, referências, fotos, vídeos sobre 65 casos e informação sobre a nova comunidade de investigação. Estes materiais foram reunidos num livro digital [10].

Os conflitos inventariados e a diversidade de áreas e temas abrangidos dão indicação de que não existe ideias comuns nem sobre a modificação dos territórios proposta pelas agendas que orientam as políticas públicas em áreas diversas (energética, agrícola, mineral e de ordenamento do território), nem sobre os formatos e os tempos dos processos decisórios existentes. Nalguns casos, questionam-se, por exemplo, os processos de mercantilização e privatização dos recursos, noutros aponta-se para as dinâmicas de poder e a desigualdade da distribuição dos riscos e dos benefícios das atividades económicas. Noutros ainda, existe um choque entre aqueles que buscam impor novas estruturas e práticas de conservação dos ecossistemas e aqueles que vão num caminho oposto às práticas ancestrais desenvolvidas localmente [10].

Concluindo, reiteramos que, nesta investigação, houve lugar para uma ciência mais implicada, capaz de valorizar conhecimentos, saberes e aprendizagens (formais e informais), aberta a que qualquer pessoa, de qualquer grupo social e/ou étnico e instituição, possa participar da co-produção de conhecimento. O trabalho que aqui descrevemos é um exemplo de como as equipas de investigação podem estar mais implicadas por estes processos e como o conhecimento sofreu várias alterações na forma de ser produzido, necessitando de novos espaços e tempos de produção e formas de apoio diversas (também financeiras) mais evolutivas e cooperativas (de acordo com a natureza dos problemas e novas abordagens transdiciplinares).

Notas

[1] Irwin, Alan (1995), Ciência cidadã. Um estudo das pessoas: especialização e desenvolvimento sustentável. Lisboa: Instituto Piaget.

[2] Porto, Marcelo (2012), Uma ecologia política dos riscos: princípios para integrarmos o local e o global na promoção da saúde e da justiça ambiental, 2a edição Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz.

[3] Corburn, J. (2005), Street science: Community knowledge and environmental health justice. Cambridge, MA: MIT Press.

[4] Funtowicz, Silvio; Ravetz, Jerome (1990), Uncertainty and quality in science for policy, Dordrecht: Kluwer Academic Publishers.

[5] Martinez-Alier, Joan (2007), O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração, São Paulo: Contexto.

[6] Acselrad, Henri (Org.) (2004), Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

[7] Illich, Ivan (1976), A convivencialidade, Lisboa: Editora Publicações Europa América.

[8] Funtowicz, Silvio; Ravetz, Jerome (1993), Science for the post-normal age. Futures, v. 25, n. 7, p. 739-755.

[9] Haraway, Donna (1998), Situated knowledges: The science question in feminism and the privilege of partial perspective, Feminist Studies, v. 14, n. 3, p. 575-99.

[10] Fernandes, Lúcia; Fernandes, Francisco; Bento, Sofia. Introdução. In: Fernandes, Lúcia; Fernandes, Francisco (orgs.) Portugal: Ambiente em Movimento, p. 1-12. Disponível em URL [Consult. 20 Out 2019]: <https://www.ambientemovimento.org/ebook>.

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