A violência sexual no desporto

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: A violência sexual no desporto

Autor: Vítor Rosa

Filiação institucional: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

E-mail: vitor.rosa@ulusofona.pt

Palavras-chave: Desporto, Violência, Abusos Sexuais.

Com milhões de praticantes, de espectadores e de telespectadores, milhões de horas de antena de rádio e de televisão, o desporto ritma a via quotidiana do mundo inteiro. Apesar de ser um fenómeno de massas, ele continua omnipresente e conhece-se mal. Omnipresente, porque são dissecados os gestos, comentadas as performances, reveladas as alegrias e as tristezas dos “pequenos” e “grandes” atletas. Mal conhecido, porque é ocultado e censurado pela análise das instituições desportivas, da sua origem, da sua evolução, dos seus valores e das suas funções políticas, económicas e ideológicas. Considerado como o primeiro espetáculo do mundo, o desporto é motivo de conversa nas cidades e nas aldeias. Retém-se a pequena história, as explorações fabulosas, os resultados sensacionais ou catastróficos, os recordes inacessíveis ou batidos, conhece-se o visível superficial e ignora-se o essencial, o escondido, o não-dito. Atardamo-nos sobre o seu humanismo, a sua mensagem de amor, da sua missão pacificadora, mas também adivinhamos as suas imperfeições: a violência, a dopagem, as discriminações, as vulnerabilidades, etc. [1].

A ideia de que o desporto de alto rendimento pode ser uma fonte de “vulnerabilidade” começa a ser aceite. O mesmo se pode dizer para o desporto amador. Os trabalhos de sociologia do desporto decifram a precaridade e a fragilidade dos desportistas [2].

A vulnerabilidade remete-nos para a fragilidade da existência humana. O dicionário português apresenta o significado de “vulnerabilidade”: “diz-se do que ou de quem apresenta tendência a ser magoado, ferido ou derrotado; que é frágil, indefeso ou suscetível”. Três dimensões de uma situação de vulnerabilidade são necessárias: pessoais, situacionais e contextuais [3]. As pessoas vulneráveis são aquelas que são ameaçadas, de forma pontual ou regular, na sua autonomia, na sua dignidade e na sua integridade física ou psíquica. As categorias de pessoas apresentadas como vulneráveis variam segundo os contextos. Consideramos que a vulnerabilidade é um estado particular de sensibilidade e de fragilidade subjetivo e objetivo, face a um risco potencial ou real, e construído por um encontro de fatores individuais (por predisposição ou aprendizagem), grupal (ligado ao género), situacionais (associadas, por exemplo, à instituição desportiva, à instituição penitenciária, etc.) e conjuntural (relativo a um momento singular). A identificação das populações vulneráveis torna-se, assim, um importante elemento científico e político.

Associado à palavra vulnerabilidade, encontramos a de violência. Segundo as Nações Unidas, a violência é “todo o ato, omissão ou conduta, para infligir sofrimentos físicos, sexuais ou mentais, direta ou indiretamente, pelo meio de seduções, de ameaças, de constrangimentos ou outro meio, às mulheres, tendo por efeito intimidar, punir, humilhar ou manter os papéis estereotipados ligados ao sexo, ou de recusar a dignidade humana, a sua autonomia sexual, a sua integridade física, mental e moral ou de prejudicar a sua segurança pessoal, o seu amor-próprio ou a sua personalidade, ou de diminuir as suas capacidades físicas ou intelectuais” [4]. Este conceito focaliza-se nas mulheres e esquece outras categorias da população.

Fatores individuais, relacionais, comunitários e societais permitem compreender as razões do surgimento de comportamentos violentos. Os riscos de violência sexual aumentam num contexto onde a “dominação sexual dos homens é encorajada, ou os papéis sexo-específicos são muito rígidos” [5]. “O objetivo subjacente é muitas vezes a expressão de um poder e de uma dominação sobre a pessoa agredida” [6]. A violação, por exemplo, “pode servir para punir as mulheres que transgrediram os códigos sociais e morais” [6]. Os inquéritos levados a cabo sobre a violência revelam que ela é um “fenómeno social total” [7].

A questão da violência sexual no desporto tem estado arredado do debate científico em Portugal. No entanto, algumas notícias fazem eco de algumas situações. O Jornal de Notícias (23/02/2017) informa que “o Ministério Público está a investigar uma denúncia por abuso sexual, agressões e bullying sobre um rapaz de 15 anos, supostamente praticados por outros internos na residência do Centro de Alto Rendimento do Jamor (CAR)” [8].

Num artigo intitulado “Abusos sexuais: o lado horroroso do futebol”, o jornal Expresso (26/11/2016) noticiava que, em Inglaterra, “um ex-futebolista britânico encheu-se de coragem e denunciou publicamente (…) os abusos sexuais de que foi alvo quando era apenas um menino com o sonho de jogar à bola. Desde então, denúncias semelhantes multiplicam-se numa escala preocupante. O escândalo está a espantar o Reino Unido e os grandes clubes já começaram a reagir”. O jornal Diário de Notícias (Desporto), de 18/07/2017, avança com um número elevado de vítimas: “560” [9]. Se em Inglaterra já começaram a reagir, segundo o noticiado, “em França tem-se reagido pouco”, segundo o investigador Greg Decamps, da Universidade de Bordeaux [10]. No entanto, o número de pessoas vítimas de abuso sexual é bastante alarmante [11], o que levou a reagir, momentaneamente, o Ministério dos Desportos Francês [12].

Os programas de investigação norte-americanos e europeus testemunham a frequência destes abusos na maior parte das práticas desportivas [13].

O Governo Português, através do Instituto Português do Desporto e Juventude, deveria promover um inquérito nacional sobre os abusos sexuais no meio desportivo (aplicando-o nos clubes, associações, escolas, universidades, etc.), por forma a se ter um “retrato” da realidade nacional e promover medidas de prevenção.

 

 

Referências

[1] Caillat, M. (1996). Sport et civilisation: histoire et critique d’un phénomène social de masse. Paris : L’Harmattan.

[2] Fleuriel, S. & Schoté, M. (2008). Sportifs en danger. La condition des travailleurs sportifs. Bellecombe-en-Bauges: Editions Croquant.

[3] Delor, F. & Hubert, M. (2000). “Revisiting the concept of vulnerability”. Social Science & Medicine, 20, pp. 1557-1570.

[4] Thierry, T.; Robène, L.; Charoin, P.; Héas, S. & Liotard, P. (dir.) (2013). Sport, genre et vulnérabilité au XXe siècle. Rennes : Presses Universitaires de Rennes, p. 9.

[5] Organisation Mondiale de la Santé (2002). Rapport mondial sur la violence et la santé. Genève: OMS, p. 19.

[6] Ibid., p. 189.

[7] Jaspard, M. (2001). “Nommer et compter les violences envers les femmes : une première enquête nationale en France”. Population et Société, 364, p. 1-4.; Jaspard, M. (2005). Les violences contre les femmes. Paris : La Découverte.

[8] http://www.jn.pt/justica/interior/denuncia-de-abusos-a-jovem-atleta-de-elitecar-desconhece-abusos-5685250.html, consultado em 04/06/2017.

[9] http://www.dn.pt/desporto/interior/policia-560-menores-foram-vitimas-de-abusos-sexuais-no-desporto-britanico-6228448.html, consultado em 3/06/2017.

[10] Decamps, Greg, Comunicação “Les violences sexuelles dans le sport”, Séminaire du Comité d’Ethique et Sport, 30-31 mai 2017.

[11] Jolly, A., & Decamps, G. (2006). « Les agressions sexuelles en milieu sportif : une enquête exploratoire », Movement & Sport Sciences, vol. no 57, no. 1, pp. 105-121.

[12] https://www.youtube.com/watch?v=PGR-3OIyQNU, consultado em 03/06/2017.

[13] Brackenridge, C., & Fasting, K. (2000). Les problèmes de harcèlement sexuel auxquels sont confrontés les femmes et les enfants dans le sport. 9e Conférence des Ministres responsables pour le sport du Conseil de l’Europe – « Un sport propre et sain pour le troisième millénaire », Mai. Bratislava: Slovaquie.

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