Violência no mundo atual: mobbing e bullying

Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Violência no mundo atual: mobbing e bullying

Autoras: Mar Durán e Cristina Cunha Mocetão

Filiação institucional: Universidad de Santiago de Compostela & Universidade do Porto (Instituto de Sociologia)/ULN-Porto

E-mail: mar.duran@usc.escristinacunha.m@gmail.com

Palavras-chave: violência, moobing, bullying.

A violência na sociedade apresenta-se de múltiplas formas e em diversos cenários, em alguns casos de forma implícita, noutros, de maneira manifesta, ou ainda como uma combinação das anteriores.

A palavra mobbing foi utilizada pela primeira vez pelo etólogo Konrad Lorenz em relação ao comportamento animal. Nos anos 80, Heinz Leymann, psicólogo alemão, utiliza este termo para descrever um tipo de conduta similar em lugares de trabalho. Foi no ano de 1990 quando este autor se torna famoso, convertendo-se, assim, no “pai do mobbing” [1] p.56.

Leymann [2] descreve este fenómeno como o cenário em que uma pessoa ou grupo de pessoas exercem uma violência psicológica extrema de forma sistemática e recorrente (pelo menos, uma vez por semana), durante um tempo prolongado (pelo menos, 6 meses) sobre outra pessoa ou outras pessoas no local de trabalho com a finalidade de destruir as suas redes de comunicação, a sua reputação, alterar o exercício das suas tarefas e conseguir que, finalmente, abandone o seu local de trabalho, renunciando ou pedindo transferência.

Este autor concretiza esta conceptualização em 5 categorias dependendo dos efeitos que têm sobre a vítima: 1) Efeitos que dificultem nas vítimas a comunicação adequada; 2) Efeitos que dificultem as vítimas em manter contactos sociais; 3) Efeitos que dificultem a vítima em manter a sua boa reputação pessoal; 4) Efeitos que dificultem a situação ocupacional das vítimas; 5) Efeitos que deterioram a saúde física das vítimas. Tudo isto implicando a participação de um número indeterminado de colegas que fazem a vítima sentir-se encurralada, sendo um dos elementos que melhor define o fenómeno do mobbing.

Num processo de assédio psicológico no trabalho, Leymann distingue 4 fases principais: 1) Fase do conflito; 2) Fase da estigmatização – esta segunda fase já se considera mobbing; 3) Fase de intervenção na empresa; 4) Fase de marginalização ou exclusão da vida laboral.

Para poder falar de mobbing, o fenómeno deve compreender, pelo menos, uma das 45 formas de comportamento que se descrevem no Leymann Inventory of Phycological Terrorisation (LIPT), desenvolvido e validado em 1990 para avaliar a incidência do assédio laboral.

Em Espanha, o Professor Piñuel elaborou, em 2001, o barómetro CISNEROS (Cuestionario Interpersonal sobre Sicoterror, Ninguneo, Estigmatización y Rechazo en Organizaciones Sociales), sobre a violência no meio laboral. Foi o primeiro instrumento que se utilizou em língua espanhola em Espanha. Segundo este autor, um dos fatores mais frequentes que desencadeiam o mobbing, são os ciúmes que a vítima desperta no agressor. No entanto, também pode desencadear-se “por no haberse dejado manipular por otros, por no ser de la cuerda de quienes manejan el status quo en esa organización o, sencillamente, por no haber incurrido en el servilismo o la ciega sumisión” Piñuel [3], p.103).

O bullying é uma palavra proveniente do vocabulário holandês que significa “perseguição”. O primeiro que empregou o termo bullying, em relação à perseguição escolar, foi Dan Olweus, que implementou, na década de 70, na Suécia, um estudo de longo prazo que culminaria com um completo programa anti-bullying nas escolas norueguesas, depois do suicídio de 3 estudantes.

A perseguição escolar, ou bullying, constitui-se como qualquer forma de mau trato psicológico, verbal ou físico, produzido por parte de um ou mais estudantes, de forma intencional e reiterada (pelo menos, uma vez por semana) e ao longo de um determinado tempo. A violência pode ser através de contacto físico, palavras ou ações mais subtis, e pode provocar exclusão social da vítima.

Estatisticamente, o tipo de violência dominante é o emocional e dá-se maioritariamente em zonas de escolas que têm uma supervisão mínima (Perry Kussel e Perry [4]). Os protagonistas dos casos de bullying costumam ser rapazes ou raparigas em processo de entrada na adolescência. O bullying difere segundo a idade, a etnia e o género. Por exemplo, os rapazes são mais propensos do que as raparigas a experimentar formas físicas de bullying (murros, pontapés, etc.) enquanto as raparigas são mais expostas a outro tipo de violência relacional (isolamento, fofocas, etc.) (Jones, Azlam, York e Ryan [5]). Se não se atuar, o bullying pode continuar durante longos períodos de tempo com danos permanentes para a pessoa agredida.

O bullying não ocorre apenas entre rapazes que agridem e os que são agredidos mas é considerado um fenómeno de grupo em que outras crianças também participam. Os espectadores podem ajudar o agressor, tentar ajudar a vítima ou podem retirar-se e tentar não se envolverem (Atlas e Pipler [6]). Na maioria dos casos, estes espectadores não tentam deter o bullying, o que muitas vezes é interpretado pelo agressor como um apoio para continuar os seus atos violentos. No entanto, também se demonstrou que quando os indivíduos intervêm e procuram parar com a violência, são, na maioria dos casos, eficazes (Hawkins, Pepler e Craig [7]). Portanto, é importante utilizar este “poder de grupo” e ensinar às crianças estratégias para intervir com eficácia, para que os agressores não sintam apoio social (Sutton e Smith [8]).

Ser vítima ou um abusador ativo associa-se com um maior risco de problemas de saúde mental e física. Os efeitos do bullying não são necessariamente imediatos e podem durar muito tempo, com implicações para o indivíduo agredido. Ttofi, Farrington e Losel [9]) descobriram que a vitimização pelo bullying foi um contributo significativo para a compreensão da depressão que se manifesta 7 anos mais tarde e que, quer as vítimas de bullying quer os agressores, sofrem de uma maior propensão para se envolverem em situações de delinquência no futuro.

Notas

[1] Duque, B. M., Munduate, L. y Barea, M. J. (2003). La espiral del mobbing. Papeles del Psicólogo, 14, 55-61.

[2] Leymann, H. (1996). The content and development of mobbing at work. European Journal of Work and Organisational Psychology, 5(2), 165-184.

[3] Piñuel, I. (2007). El mobbing o acoso psicológico en el trabajo. En J. M. Sabucedo y J. Sanmartín (eds.). Los escenarios de la violencia. Barcelona: Ariel. pp. 99-114.

[4] Perry, D., Kussel, S. y Perry, L. (1988). Victims of peer aggression. Development Psychology, 24, 807-814.

[5] Jones, S.E., Haslam, S.A., York, L., y Ryan, M.K. (2008). Rotten apple or rotten barrel? Social identity theory and children’s responses to bullying. British Journal of Developmental Psychology, 26(1), 117-132.

[6] Atlas, R. y Pepler, D. J. (1998). Observations of bullying in the classroom. American Journal of Educational Research, 92, 86-99.

[7] Hawkins, L., Pepler, D., & Craig, W. (2001). Naturalistic observations of peer interventions in bullying. Social Development, 10(4), 512-527.

[8] Sutton, J.  y Smith,P. K. (1999). Bullying as a group process: An adaptation of the participant role approach. Aggressive Behavior, 25, 97-111.

[9] Ttofi, M., Farrington, D. y Lösel, F. (2012). School bullying as a predictor of violence later in life: A systematic review and meta-analysis of prospective longitudinal studies. Aggression and Violent Behavior, 17(5), 405-418.

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