A crise, os media, e as compras

Dimensão analítica: Economia, Trabalho e Governação Pública

Título do artigo: A crise, os media, e as compras

Autor: Samuel Lincoln Bezerra Lins

Filiação institucional: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

E-mail: samuellins@fpce.up.pt

Palavras-chave: crise, compras, comunicação social.

A crise económica assusta-nos a todos. É aterrador pensar numa crise económica, devido às consequências negativas que ela provoca tanto no âmbito individual, como no social. As emoções, as relações de trabalho e de consumo, tudo está interligado e estremece ao ouvir falar da crise. Não me sinto bem por causa da crise! Não tenho emprego por causa da crise! Os preços estão a subir por causa da crise! Tanto indivíduos como organizações passam a utilizar a “crise” como uma password que justifica toda e qualquer ação. Sejam justificações legítimas ou não, a crise, de facto, está no pano de fundo de todas estas situações.

É certo que a avaliação que fazemos dos efeitos da crise é realizada através da perceção da situação, o que implica existir uma certa interpretação da realidade objetiva. Esta perceção está mais relacionada com razões intuitivas do que com razões técnicas [1], levando-nos a comportar mais com base na perceção da situação do que no risco real [2]. Assim, quanto maior a perceção, consequentemente, maior a sensação da crise económica. Somos o que percebemos da realidade que nos rodeia. A realidade nada mais é do que a nossa perceção dela. Cabe destacar que a crise parece não ser tão negativa para todos, visto que, em Portugal, apesar das duras medidas de austeridade, o número de milionários aumentou [3].

Muito do que sabemos da realidade tem como base o que lemos nos jornais, nas revistas, nas redes sociais, etc. Neste sentido, destaca-se o papel desempenhado pelos meios de comunicação social, com toda a sua forte influência que molda os nossos pensamentos e atitudes, e porque não dizer também os nossos comportamentos, e mais particularmente, o nosso comportamento de compra. Há quem diga que existe uma cumplicidade, talvez não intencional, entre estes três elementos: os media, a crise e as compras. A Teoria da Gestão do Terror (Terror Management Theory em inglês) parece ilustrar bem esta possível relação.

Esta teoria postula que as pessoas têm um conflito psicológico interno resultante de um desejo de autopreservação do ser humano contrastado com o saber e a certeza de que a morte é inevitável [4]. Deparando-se com esse conflito, o homem procura agir de múltiplas maneiras com o intuito de se proteger. Na sociedade atual, uma das formas mais comuns de defesa diante de pensamentos negativos costuma ser ir às compras, uma vez que, para muitos, comprar gera alívio da tensão. Será que foi por isso que logo após o atentado de 11 de Setembro, George W. Bush encorajou todos os americanos a irem às compras? [5] E em 2007, mesmo com a Guerra do Iraque e com os indicadores económicos insatisfatórios no país, reforçou que os americanos deveriam ir às compras novamente? Não há dúvidas que o medo é uma forte arma de persuasão. Neste sentido, quando os meios de comunicação social estão cheios de notícias relativamente à crise – publicitando sobre as suas consequências catastróficas, a provocar medo e a aterrorizar todos os que tem acesso à informação – poderia resultar no aumento da vulnerabilidade e da sensação de insegurança nas pessoas, levando-as a vivenciar um estado de tensão, que poderia ser aliviado através da atividade de compra. Conspiração ou realidade?

Mas afinal, quem sente mais a crise e qual a influência da mesma no comportamento de compra? Uma investigação realizada com adolescentes portugueses em Maio de 2012 [6], constatou que as raparigas tinham uma maior perceção da crise económica do que os rapazes, como também verificou que quanto menor o ordenado do agregado familiar maior a preocupação com as consequências da crise económica. Para além disto, a investigação também constatou que quanto maior a perceção da crise maior era a tendência dos adolescentes a comprarem por impulso, e mais prazer eles sentiam na atividade de compra. Possivelmente, devido à sensação de privação e às restrições causadas pela perceção da crise, limitando a prática da compra, isto fez com que os adolescentes vivenciassem mais emoções positivas durante o processo de compra e fossem mais impulsivos ao comprar.

De facto, somos consumidores. Consumimos produtos, serviços e informações a todo o momento, e não estamos imunes às influências dos meios de comunicação e dos apelos publicitários. Compramos produtos que acreditamos ser os melhores e, supostamente, procuramos fazer as melhores escolhas. Será que o medo realmente nos leva a ser mais materialistas, fazendo com que compremos cada vez mais? É uma questão para autorreflexão. Não adianta fingir, estamos imersos numa sociedade onde há crise para todos os lados e de todos os tipos – mas qual foi a época da história que não houve crise? Esta não é a primeira nem será a última crise que vivenciámos. Crises vão e vem, mas parece mesmo que uma coisa que é unânime relativamente à crise é que o bom é mesmo quando ela chega ao fim, e quando sabemos sobre ela apenas nos livros de história.

Notas:

(a) Os adolescentes da investigação citada anteriormente também foram solicitados a indicar quais os valores que eles consideravam mais importantes, de uma lista de 24 valores. Os valores mais citados foram a “Alegria” e o “Amor”, o que também é fundamental para enfrentar qualquer tipo de crise.

[1] Klos, A., Weber, E. U., & Weber, M. (2005). Investment decisions and time horizon: Risk perception and risk behavior in repeated gambles. Management Science51, 1777–179

[2] Roszkowski, M. J., & Davey, G. (2010). Risk perception and risk tolerance changes attributable to the 2008 economic crisis: A subtle but critical difference. Journal of Financial Services Professionals, 64(4), 42-53.

[3] O número de milionários cresceu 10.80% entre 2012 e 2013, passando de 785 para 870 milionários – Wealth-X. (2013). Connecting you to wealth. World ultra wealth report 2013 sponsored by UBS. Disponível em URL [Consult. 21 Fev 2017]: <http://wuwr.wealthx.com/Wealth-X%20and%20UBS%20World%20Ultra%20Wealth%20Report%202013.pdf>.

[4] Greenberg, J., Pyszczynski, T., & Solomon, S. (1997). The causes and consequences of a need for self-esteem: A terror management theory. Journal of Personality and Social Psychology, 72(1), 24-36.

[5] “We cannot let the terrorists achieve the objective of frightening our nation to the point where we don’t conduct business, where people don’t shop (…)Mrs. Bush and I want to encourage Americans to go out shopping.” George W. Bush (October 12, 2001). Disponível em URL [Consult. 18 Fev 2017]:<http://www.nytimes.com/2001/10/12/us/nation-challenged-excerpts-president-s-remarks-war-terrorism.html>.

[6] Lins, S. L. B. (2013). Consumo, contexto socioeconômico e compra por impulso em adolescentes brasileiros e portugueses. (Tese de Doutoramento). Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade do Porto. Portugal. Disponível em URL [Consult. 22 Fev 2017]:< https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/69041>.

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