Convergências sociais e medicalização

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Convergências sociais e medicalização

Autor: Paulo Jorge Monteiro

Filiação institucional: Doutorando, ISCTE-IUL

E-mail: Paulo_jorge_Monteiro@iscte.iul.pt

Palavras-chave: Medicalização, convergência, alimento.

Nunca o alimento e o acto alimentar assumiram uma tão grande centralidade no quotidiano dos cidadãos seja enquanto poderoso ecrã das dinâmicas sociais envolvendo actores tão diversos quanto os consumidores e as indústrias farmacêutica e agro-alimentar, seja enquanto instrumentos estruturantes dos processos identitários do homo consumens [1] dominado pela coisificação [1] dos mais banais aspectos da vida social e a consequente reconfiguração dos consumos; em contexto de significativa densificação das redes sociais, significados médica e nutricionalmente construídos dispõem de uma via verde para a mente dos cidadãos.

O investimento que os cidadãos mobilizam para a gestão de uma vida saudável emerge como uma inegável tendência da segunda década do século XXI alimentada por:

  • Um activismo, cada vez mais informado e exigente, alimentado por uma maior capacitação para a incorporação de noções básicas sobre alimentação saudável e um mais alargado acesso a produtos;
  • A crescente consciencialização para práticas de prevenção que assegurem mais anos de vida mas igualmente mais qualidade a esses anos;
  • A diluição de fronteiras entre saúde e alimentação;
  • O papel progressivamente dual atribuído ao alimento, não somente como aporte nutricional mas igualmente como veículo de ganhos em saúde;
  • A dinâmica criativa da ciência e indústria alimentares; Avanços tecnológicos permitem à indústria desenhar alimentos funcionais (tecno-alimentos, artificialmente enriquecidos ou fortificados) com, progressivamente, melhor sabor tornando-os apelativos ao gosto de muitos consumidores ou introduzir inovação em produtos mais antigos, pomposamente, designados de “Guilt free” como anunciado pela presidente da PepsiCo [2] geradores de diferenciação com as marcas próprias das cadeias de retalhistas;
  • Conveniência; num mundo dominado pelas redes sociais e a gratificação instantânea os consumidores privilegiam soluções que não requeiram adesão (limitação) a um regime medicamentoso “controlador” do seu quotidiano;
  • Constante melhoria na rotulagem (resultante da combinação de esforços de regulação com exigências societais de “Clean label”) com “descodificação” dos ingredientes e maior transparência quanto ao conteúdo privilegiam ingredientes percepcionados como mais naturais ou próximos de uma fonte/origem natural;
  • Emergência de novos alimentos, estranhos aos regimes alimentares mais tradicionais, marcados pelo exotismo e o endeusamento das respectivas propriedades como sejam os designados “super-alimentos”” (frutos, bagas, sementes etc.)
  • Alguma rotinização de práticas alimentares alternativas, em particular a alternância entre o consumo de proteína animal ou vegetal ou a incorporação de períodos de “limpeza orgânica” por via das sopas e sumos “detox” ou de opções vegans/vegetarianas.

O fenómeno da Medicalização (i.e. a interpretação dos mais variados acontecimentos quotidianos sob a lupa das soluções disponibilizadas pela biomedicina catalogando-os enquanto doença ou perturbação) estimula, e é por sua vez reconfigurada, por entre outros catalisadores [3] pelo efeito combinado de dois movimentos de convergência nas sociedades modernas:

  • Convergência entre as indústrias farmacêutica e agro-alimentar seja na promoção, por parte desta, de alimentos ou suplementos alimentares veiculando alegações de saúde, na utilização de estudos clínicos, técnicas de dramatização e marketing, importados do mercado farmacêutico, ou na presença de companhias farmacêuticas no terreno alimentar, pela porta da Nutrição Clínica; as fronteiras diluem-se promovendo processos de substituição e complementaridade [4].
  • Convergência entre saúde, bem-estar e vida activa e um sistema, dinâmico, de práticas alimentares o qual progressivamente valoriza o papel do natural e a possibilidade de abordagens/soluções personalizadas; a abordagem holística enfraquece os sectarismos alimentares [5] em favor de regimes alimentares compósitos mobilizadores de recursos e conceitos culinários diversos.

Sendo um conhecido truísmo a expressão “somos o que comemos”, declinação do famoso aforismo de Brillat Savarin “Diz-me o que comes e dir-te-ei que espécie de homem tu és” [6], este parece, actualmente, estar associado a processos de re-significação remetendo em algumas tribos urbanas, para processos de idolatria com o corpo e a saúde como os novos ídolos a adorar.

O consumo alargado de alimentos funcionais e suplementos alimentares, enquanto instrumentos terapêuticos, suportados em alegações de saúde promovidas pelo marketing e pelos especialistas (médicos e nutricionistas) e estimulado pelas crenças daí resultantes (já que o efeito preventivo, a acontecer, não é visível no curto e médio prazos) assim como dos super-alimentos, símbolo do natural e das ancestrais propriedades curativas dos frutos e plantas, sugere a permeabilidade dos cidadãos a novos instrumentos de medicalização [3] mesmo que tal se manifeste em práticas proto-medicalizadas à mesa do jantar ou do pequeno-almoço. O que é novo na bio-medicalização é que esta dispensa a patologização (reconfigurar realidades sociais comuns em doença) disseminando-se pelos territórios do bem-estar, vida saudável e qualidade de vida, suficientemente amplos e densos de oportunidades.

Notas

[1] Bauman, Z. (2006 [2003]). Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade. In Z. Bauman, Amor Líquido (pp. 94-99). Lisboa: Relógio d’Água.

[2] Watrous, M. (2016). PepsiCo’s portfolio transformation driving growth. Obtido de Food Business News: http://www.foodbusinessnews.net/articles/news_home/Financial-Performance/2016/09/PepsiCos_portfolio_transformat.aspx?ID={D679ACC4-369C-40AF-B9FF-28BDF8C6E752}

[3] Conrad, P. (2005). The Shifting Engines of Medicalization. Journal of Health and Social Behavior, Vol 46, pp. 3-14.

[4] Weenen, T. C., Ramezanpour, B., Pronker, E. S., Commandeur, H., & Claassen, E. (December de 2013). Food-Pharma Convergence in Medical Nutrition – Best of Both Worlds? Obtido de PLOS ONE, Volume 8, Issue 12: www.plosone.org

[5] Fischler, C. (1979). Gastro-nomie et gastro-anomie.Sagesse du corps et crise bioculturelle de l’alimentation moderne. Communications, 31, pp. 189-210.

[6] No original: “Dis-moi ce que tu manges, je te dirai ce que tu es”. Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1840) ; Physiologie du Goût ou Méditations de Gastronomie transcendante. Ouvrage théorique, historique, et à l’ordre du jour, dédié aux gastronomes parisiens par un professeur membre de plusieurs sociétés savantes. Charpentier. Paris

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