A criação de uma moeda local como incentivo à cidadania activa e à dinamização da comunidade: o caso de Campolide

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: A criação de uma moeda local como incentivo à cidadania activa e à dinamização da comunidade: o caso de Campolide

Autora: Sandra Lima Coelho

Filiação institucional: Centro de Estudos em Gestão e Economia (Católica Porto Business School) e Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: scoelho@porto.ucp.pt

Palavras-chave: moeda local; cidadania activa; racionalidade económica.

Ralph Fevre (2003:5) define racionalidade económica como uma sub-categoria da racionalidade a que subjaz a ideia de que, na sociedade actual, a vida gira em torno da economia, e que o pensamento económico versa sobre uma forma particular de calcular meios e fins. À medida que a racionalidade económica extravasa o campo económico e se expande para outras dimensões da vida social, a moral tende a contrair-se, e interfere cada vez menos no comportamento económico. A este processo denominamos de desmoralização. Mas poderá o comportamento económico ter um fim moral, ou estamos tão contaminados pelos valores da racionalidade económica, que todo o nosso comportamento é motivado por fins económicos? Por outro lado, podemos questionar se haverá espaço para colocar o interesse económico ao serviço de fins morais. Com esse propósito, vamos deter-nos na recente iniciativa da Junta de Freguesia de Campolide, que criou uma moeda local, o “Lixo”, associada ao projecto “Pago em Lixo”.

O objectivo associado a este projecto consiste, por um lado, em envolver toda a comunidade residente na freguesia de Campolide na separação de resíduos e, por outro lado, dinamizar o comércio local. Com foco nos resíduos recicláveis, isto é, por exemplo, vidro, papel ou pilhas, a iniciativa pretende, igualmente, estimular e consciencializar os cidadãos para a colocação do lixo orgânico nos devidos locais, de modo a reduzir o volume de detritos espalhados pelas ruas. Esta é uma acção que apresenta um fim moral: consciencializar os cidadãos lisboetas daquela freguesia para a necessidade de reciclar o lixo e contribuir para a manutenção da limpeza nas ruas. Para motivar os cidadãos a alterar os seus comportamentos, a Junta mobilizou meios económicos. Estaremos perante um processo de instrumentalização dos valores económicos para atingir um fim moral?

Como funciona, na prática, o “Pago em Lixo”? A Junta de Freguesia de Campolide apostou na criação de uma moeda local, e distribui pela população, a troco da entrega de 1 quilo de lixo reciclável, notas de valor equivalente a 2 euros, que só poderão ser utilizadas nas lojas de comércio tradicional aderentes, e que estão identificadas com dísticos. Convertem-se, assim, resíduos urbanos recicláveis em moeda de troca para fazer compras, exclusivamente, no comércio tradicional. Os comerciantes que aderirem a esta iniciativa (actualmente, a Junta criou uma parceria com 70 estabelecimentos comerciais) serão, posteriormente, ressarcidos, pela entidade, do valor das compras efetuadas com a moeda local, designada, ironicamente ou não, por “Lixo”.

O processo de conversão de lixo em moeda desenrola-se em três fases sucessivas. Primeiramente, os residentes da freguesia levam o lixo a um dos pontos de recolha, onde encontrarão funcionários da Junta que o pesam. Estes pontos de recolha não estão disponíveis diariamente, apenas em dias previamente estipulados. Nesse momento, o lixo entregue é pesado e despejado no recipiente a que pertence. Depois da entrega do lixo, o residente receberá o montante correspondente em moeda “Lixo”. O valor a receber poderá variar em função da quantidade e do tipo de resíduos que o residente entregar, sendo que existe um limite de 10 quilos por cada operação de depósito de lixo, isto é, tal só permite ao residente arrecadar um máximo de 20 Lixos. Na prática, os 20 “Lixos” correspondem a 20 euros. O último passo do processo consiste na circulação dessa moeda, o “Lixo”, nos estabelecimentos comerciais que aderirem ao projecto.

Quem são os beneficiários deste projecto? A informação disponível indicia que os cidadãos residentes em Campolide saem favorecidos, sobretudo os que têm menor poder de compra, na medida em que, ainda que apenas durante o período de vigência do projecto, usufruem da possibilidade de adquirir mais bens e serviços do que aqueles que os seus rendimentos lhes permitem desfrutar. Beneficiam os comerciantes locais, uma vez que a moeda “Lixo” só pode ser trocada no comércio tradicional local, o que, previsivelmente, fará aumentar o consumo nestes estabelecimentos. A economia local sai fortalecida, assim como os processos de dinâmica social de proximidade.

Numa economia de proximidade, os recursos da comunidade não se dispersam, são aplicados na comunidade, o que acontece neste caso: o lixo converte-se em moeda “Lixo” que, por sua vez, se troca por bens e serviços no comércio tradicional local. Os comerciantes locais são ressarcidos pela Junta. Antes de findar o processo, a moeda já circulou por vários dos membros da freguesia. E, para a Junta de Freguesia de Campolide, cujo propósito reside em promover acções de reciclagem de lixo e de redução da quantidade de lixo orgânico nas ruas, o investimento inicial de 3 mil euros será recompensado? É uma pergunta para a qual ainda não temos resposta. Efectivamente, o impacto da medida apenas poderá ser avaliado no final do projecto. Será que os cidadãos de Campolide vão participar neste projecto apenas enquanto perdurar a motivação económica, ou, por outro lado, os comportamentos de reciclagem, incentivados por fins económicos poderão, efectivamente, enraizar-se na comunidade, e sobreviver ao fim do financiamento da medida? Tornar-se-á a reciclagem e depósito do lixo nos respectivos contentores uma acção rotineira, ou tradicional, produto de aprendizagem e da experiência, como diria Weber?

O que podemos dizer, actualmente, sobre esta iniciativa, ainda sem medir o seu real impacto, é que convida os residentes de Campolide a participar de forma activa na vida da comunidade na qual se inserem, e a reflectir sobre as consequências dos comportamentos que não são benéficos para o meio ambiente. É uma medida que aumenta o poder de compra destes residentes. Ao mesmo tempo, ainda dá um contributo para a dinamização do comércio tradicional e local. Quem disse, afinal, que a economia não pode ser moral?

Bibliografia

Fevre, Ralph (2003), The New Sociology of Economic Behaviour, Londres, Sage Publications.

Sites consultados:

http://www.jf-campolide.pt/pt/areas/espaco-urbano/pago-em-lixo/

https://www.dinheirovivo.pt/poupanca/lixo-a-nova-moeda-de-campolide/?%3Futm_source=Push&utm_medium=WebApp

http://visao.sapo.pt/iniciativas/por-um-bairro-melhor/2016-09-16-E-se-pudesse-pagar-as-suas-compras-com-lixo–Em-Campolide-e-possivel

.

.

Esta entrada foi publicada em Cidadania, Desigualdades e Participação Social com as tags . ligação permanente.

Uma Resposta a A criação de uma moeda local como incentivo à cidadania activa e à dinamização da comunidade: o caso de Campolide

  1. Pingback: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

Os comentários estão fechados