Os Contemporâneos da Crise. Resultados Exploratórios de um Estudo de Follow-Up junto de Jovens Adultos (2009-2016)

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Os Contemporâneos da Crise. Resultados Exploratórios de um Estudo de Follow-Up junto de Jovens Adultos (2009-2016)

Autora: Magda Nico

Filiação institucional: CIES, Instituto Universitário de Lisboa

E-mail: magdalalanda@gmail.com

Palavras-chave: Vida Adulta, Crise, Follow-up.

No decurso de uma investigação qualitativa sobre trajetórias para a vida adulta em Portugal, foram entrevistados 52 jovens adultos de classe média, nascidos entre 1977 e 1983, na altura com 26 aos 32 anos [1]. Os efeitos concretos ou imaginados da crise eram ainda raramente mobilizados para a explicação do decurso das suas vidas. Passados sete social e politicamente densos anos, foi retomado o contacto com estes jovens e está a ser desenvolvido por via de quatro instrumentos metodológicos do curso de vida um estudo de follow-up que pretende recolher evidências qualitativas dos efeitos objectivos e qualitativos da crise financeira, económica e política em Portugal, nas trajetórias e opções de vida. Julga-se necessário e em falta na sociedade portuguesa um argumento qualitativo sobre os efeitos da crise, sobretudo numa das camadas sociais mais afectadas pela mesma, seja a curtíssimo prazo, seja, talvez de forma mais severa e problemática, a longo prazo e de forma estrutural.

Um dos instrumentos metodológicos utilizados no processo de re-entrevistar os indivíduos entrevistados simula uma espécie de exercício de “locus of controle”. É perguntado aos indivíduos que, face a cada um dos acontecimentos de vida considerados, pelos próprios entrevistados, mais importantes (e que vieram a ser de diferentes naturezas: familiar e/ou conjugal, de trabalho, de saúde, de habitação, escolar e outras), indiquem em que medida (percentual) acham que foi influenciado i) pelas suas próprias ações e decisões, ii) por acontecimentos ou circunstâncias referentes a pessoas da sua família ou outras pessoas próximas, iii) pelo seu contexto social (pelo seu poder de compra, vinculo contratual, condições de trabalho, etc.), iv) pela crise económica e v) pelo mero acaso (sorte ou azar). O mero uso de uma escala que pode genericamente dizer-se que é entre agência e estrutura, usadas por sua vez como extremos de uma espécie de contínuo, por si só já é uma resposta a leituras sociológicas dicotómicas e necessariamente redutoras que pautam alguns dos debates sobre transições para a vida adulta e trajetórias em geral.

Embora a pesquisa ainda esteja em curso, há vários resultados preliminares e ainda exploratórios que vieram a revelar-se contraintuitivos a um estudo que pretendia recolher, nas primeiras pessoas, relatos dos efeitos da crise, enquanto tal.

Um primeiro bloco de resultados inesperados está relacionado com o tipo ou esfera dos acontecimentos considerados importantes nas vidas destes indivíduos entre 2009 e 2016. As transições familiares, sejam elas de conjugalidade sejam de parentalidade, são as mais relevantes, sendo que a casa, a escola e a saúde têm um estatuto francamente residual. O que é mais surpreendente é que os acontecimentos da esfera do trabalho são referidos em cerca de metade das vezes que os acontecimentos da esfera familiar, aliás, apresentando frequências idênticas a acontecimentos de “outras” esferas como a do estilo de vida, das amizades e sociabilidades, do lazer e das viagens. Está relacionado, ainda, com o facto da esmagadora maioria dos acontecimentos indicados pelos indivíduos como tendo sido mais importantes nas suas vidas entre 2009 e 2016 terem tido, segundo os inquiridos, impactos positivos nas suas vidas. As narrativas estão centradas na superação das dificuldades, ao invés das dificuldades. São discursos centrados no ego, narrativas quase a-históricas, histórias “individualistas” no sentido mais purista do termo, contextualizadas por alguma dose de vácuo social.

Um segundo bloco de resultados contraintuitivos está relacionado com um cruzamento destas duas informações. Os acontecimentos referidos no âmbito da esfera do trabalho são os que menos são associados pelos entrevistados a impactos negativos no curso das suas vidas. Tal é surpreendente não só tendo em conta todo o conhecimento estatístico sobre taxas de desemprego, precariedade, emigração desde a crise e as medidas tomadas em seu nome, mas também tendo em conta as histórias contadas, no mesmo momento de entrevista no qual foi recolhida esta informação mais quantitativa sobre o curso de vida. Vejamos o caso do desemprego. Muitas das pessoas que tinham acabado de partilhar episódios de desemprego, porque já os consideravam superados, não chegam sequer a incluí-los entre os acontecimentos mais importantes de 2009. Recusam a dar-lhes esse protagonismo, rejeitam a ideia de isso os definir como jovens, como adultos, como trabalhadores. Em segundo lugar, mesmo os entrevistados que identificam o seu ou os seus episódios de desemprego como importante, acabam por considerá-los como positivos nas suas vidas, necessários portanto para quebrar ciclos de precariedade de longa duração (que devia ser um conceito tão válido como o desemprego de longa duração), de decréscimo de qualidade de vida, de conformismo e de sedentarismo identitário.

Um terceiro bloco de resultados, ainda relacionado, prende-se com o decréscimo gradual que se observa nas médias (percentuais) atribuídas à medida que avançamos da agência para a estrutura como predictoras de acontecimentos importantes entre 2009 e 2016. Os acontecimentos deste período altamente pautado e condicionado pela crise e pelas medidas de austeridade que foram tomadas em seu nome, continuam a ser considerados, pelos indivíduos, como maioritariamente fruto da sua própria responsabilidade, seguido do seu contexto familiar, seguido do seu contexto social e só depois como fruto da crise. O “acaso” é o único predictor a apresentar valores tão baixos.

Todos estes resultados nos remetem para a discussão da relação entre representações e realidade. Ninguém tem dúvidas sociológicas de que a crise e as medidas tomadas em seu nome têm tido nefastos e duradouros efeitos nas vidas das pessoas. Mas então porque é que este mérito nefasto da crise não lhe é devidamente atribuído? Tal leva-nos a discutir novamente a distinção entre individualização nas vidas dos indivíduos ou apenas nos discursos dos indivíduos. Podemos perguntar, em primeiro lugar, se são estes resultados a verdadeira expressão de uma sociedade individualista, que se nega a incorporar ou enquadrar na sua biografia a sua localização histórica ou social por se sentir dela liberta (ao contrário do que sucederá com gerações passadas)? Ou serão o resultado de uma assimilação do discurso neo-liberal de que não devemos ser piegas, de que “somos o que escolhemos ser”, de que devemos sair da nossa zona de conforto, que se é pobre porque se come bifes a mais ou se vive acima das “possibilidades”? Como explicar este aparente exagero dado à própria agência na resolução e concretização de acontecimentos importantes nas vidas, mesmo em contexto marcado de crise económica e de ambiente político polémico? E enquanto sociólogos com consciência política, até onde podemos ou devemos reproduzir ou reinterpretar estas opções narrativas dos indivíduos? Respeitamos o teorema de Thomas, definido por “if men define situations as real, they are real in their consequences”[2] ou adoptamos uma postura crítica face aos discursos, evitando cair, tanto quanto poderão estar a cair muitos dos adultos contemporâneos da crise, na falácia epistemológica da modernidade tardia de que nos falam Furlong e Cartmel [3], segundo a qual: “os jovens tentam resolver os problemas colectivos através da sua ação individual e de seguida consideram-se responsáveis pelo “fracasso” ou pela ineficácia dessa ação”?

Notas

[1] Nico, Magda (2011), Transição Biográfica Inacabada. Transições Para A Vida Adulta Em Portugal E Na Europa Na Perspectiva Do Curso De Vida, Tese De Doutoramento, Departamento De Sociologia, Instituto Universitário De Lisboa.

[2] Thomas, William I. e Florian Znaniecki (1984 [1928]), The Polish Peasant in Europe and America, University of Illinois Press, Chicago

[3] Furlong, Andy e Fred Cartmel (2007 [1997]), Young People and Social Change, New York, Open University Press.

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