Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida
Título do artigo: Demografia desportiva: contributos teóricos-práticos para o estudo do desporto
Autor: Vítor Rosa
Filiação institucional: Université Paris Ouest Nanterre La Défense
E-mail: vitor.alberto.rosa@gmail.com
Palavras-chave: Demografia, Desporto.
1 – Demografia
A demografia é a ciência que tem por objeto o estudo das populações humanas na sua dimensão (grandeza), na sua estrutura (composição de idades, sexos…) na sua evolução (crescimento, estabilidade, declínio…), do ponto de vista quantitativo. Ela procede a uma descrição numérica precisa das populações sob o seu duplo aspeto: estático (estado, estrutura, componentes) e dinâmico (evolução geral, movimentos internos) [1][2]. A demografia utiliza os recursos matemáticos, a estatística e as probabilidades (efetivos, percentagens, taxas…). Todos estes aspetos são devidamente contabilizados pelos recenseamentos, inquéritos e as sondagens que se realizam periodicamente. A população é examinada sob o ângulo dos nascimentos, casamentos, e de mortos. Isto permite definir as taxas de natalidade, de nupcialidade, de fecundidade, de mortalidade, e também os fenómenos de emigração e imigração. Tudo isto condiciona o estado e os movimentos da população. A diminuição ou crescimento de uma população é uma consequência dos movimentos migratório, isto é, da evolução da natalidade, da mortalidade e dos movimentos migratórios [2]. Como toda a ciência, a demografia não se contenta em “descrever” (no sentido que os estatísticos dão a este termo) os fenómenos. Ela tenta explicá-los e procura descobrir as leis que os regem. A demografia articula-se com outras ciências, nomeadamente com a sociologia da população, procurando explicar as condutas e os comportamentos sociais.
2 – Demografia desportiva
A demografia desportiva é a mais recente das ciências sociais aplicadas. Ela assenta em dois ramos de análise: 1) uma análise dos efetivos globais dos praticantes (“stocks”) recenseados anualmente e a observação da sua evolução no tempo. Isto permite construir um histograma simples, em vários anos, e de desenhar a curva do ciclo de vida da modalidade desportiva em estudo; 2) uma análise do estudo dos movimentos internos de uma população de desportistas filiados num clube, numa federação, numa sala privada, etc. Ou seja, dos “fluxos de entradas” (adesões anuais) e de “saídas” (abandonos anuais). Estes fluxos no interior do conjunto das populações desportivas é designado de “turn-over”. É a partir dos dados fornecidos pelas federações desportivas que podemos observar o “stock” de praticantes e a sua evolução no tempo. As noções demográficas de “nascimento”, “morte”, “emigração”, “imigração”, por exemplo, são utilmente transpostas para as modalidades desportivas, como uma metáfora, designando processos mais complexos e reconhecidos: nascimento (primeira adesão) à modalidade; mortos (abandonos ou reconversões para outras desportos ou associações), chegada de trânsfugas vindos de outras modalidades ou de renovação da adesão, depois de uma interrupção (renascimento).
Se a demografia desportiva, como ciência, é recente, isto deve-se a vários fatores: à incerteza das fontes; a ausência de interesse (ou à falta de perceção) destes fenómenos; a ausência de um pedido por parte das administrações de tutela do desporto (ou outras); às reticências (ou hostilidade) por parte das direções dos clubes e federações face à evidência do declínio dos seus efetivos, não podendo esconder, assim, a extrema volatilidade do seu público de aderentes [3]. Diga-se também de passagem que aqueles que detêm muitas vezes a informação não estão disponíveis para a ceder.
As federações são obrigadas a produzir anualmente o recenseamento dos seus efetivos (“stocks”) ao seu ministério de tutela. Esses dados são, normalmente, classificados por categorias (até juniores, juniores, seniores, veteranos) e por sexos e depois totalizados.
Em Portugal, desconhecem-se trabalhos científicos sobre demografia desportiva. Fala-se de uma “demografia federada”, “enquanto area científica que estuda a dinâmica da população desportiva enquadrada no movimento associativo desportivo” [4], mas resume-se a apresentar as normais e usuais estatísticas desportivas. Em França, Chevalier (1994) [5] é considerada como a pioneira nesta pesquisa, tendo estudado, num quadro teórico interacionista, as trajetórias e os abandonos dos cavaleiros da Delegação Nacional dos Desportos Equestres, entre 1988 e 1992. Este estudo é o “ato fundador” da demografia desportiva [6]. Os dados produzidos pelo ministério da Juventude e dos Desportos Francês permitiram fontes inéditas capazes de serem trabalhadas do ponto de vista demográfico.
3 – Conclusão
O desporto inscreve-se nos modos de vida e nos estilos de vida dos nossos contemporâneos. Símbolo de juventude e de dinamismo, ele manifesta-se em todas as idades da vida. Da infância, desejosa de jogos e recreações, à “terceira idade”, ansiosa de saúde e de longevidade, alarga-se, sem parar, o espectro das atividades e as suas modalidades de exercício, mas também o leque dos motivos e dos projetos subentendidos. Práticas educativas ou recreativas, de competição ou de lazeres, higiénicas ou estéticas, hedonistas ou festivas, apercebemo-nos da diversidade das motivações e da complexidade do sistema das possibilidades estilísticas na esfera dos lazeres corporais.
A um ciclo de vida dos indivíduos corresponde um “ciclo de vida desportivo” particular, marcado por um “nascimento” para o desporto, por uma mais ou menos longevidade na atividade, de fidelidades, mas também de abandonos e de reconversões. A análise demográfica das populações desportivas permite compreender melhor o que é a prática desportiva institucionalizada, para além das representações comuns que os meios de comunicação social lhe dão.
Saber quantas pessoas fazem desporto, dispor de uma “fotografia” fiável das suas práticas é uma das preocupações maiores da sociologia do desporto. Uma articulação entre a demografia desportiva e a sociologia do desporto permitirá uma melhor compreensão do fenómeno desportivo.
Notas
[1] Pressat, R. (1983). L’analyse démographique. Paris: PUF.
[2] Nazareth, J. M. (1988). Princípios e Métodos de Análise da Demografia Portuguesa. Lisboa: Editorial Presença.
[3] Pociello, C. (1999). Sports et sciences sociales : histoire, sociologie et prospective. Paris: Éditions Vigot.
[4] http://www.azores.gov.pt/Portal/pt/entidades/srec-drd/textoImagem/Demografia +Federada.htm (consultado em 31 março de 2016)
[5] Chevalier, V. (1994). Démographie sportive: itinéraires et abandons dans les pratiques de l’équitation. Thèse de doctorat, Paris: Université de Paris VII.
[6] De Bruyn, F. (2006). Biographies et carrières plurielles : analyses des interactions entre la carrière sportive des nageurs et les autres domaines de la vie sociale. Thèse de doctorat en Sociologie. Paris: Université de Nanterre – Paris X.
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