Profissionais das indústrias culturais e criativas: a mobilidade como dilema

N.º da Publicação: 4ª Série de 2015 (dezembro 2015)

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Profissionais das indústrias culturais e criativas: a mobilidade como dilema

Autora: Sílvia Silva

Filiação institucional: Universidade de Coimbra

E-mail: ssilva@uc.pt ; silvia.m.martins.silva@gmail.com

Palavras-chave: emigração qualificada, indústrias culturais e criativas, mobilidade.

Na última década, em Portugal tem-se assistido a uma alteração nos fluxos migratórios, pautando-se pelo enorme aumento da emigração e em particular da emigração jovem qualificada. Tendo em conta os últimos dados do Observatório da Emigração, que retratam um aumento superior a 87% da saída de portugueses qualificados entre 2001-2011 [1], estima-se que o fluxo da emigração qualificada tenha atingido um valor próximo de 40 000 indivíduos no período 2011-2013, colocando Portugal no leque de países com saldo migratório mais negativo, principalmente no que respeita ao saldo migratório qualificado.

Esta tendência crescente reforça, por si só, a importância do conhecimento sobre a emigração de portugueses qualificados em geral e sobre os motivos que estiveram na origem da decisão de emigrar. Reconhecendo que Portugal apresenta atualmente a geração mais qualificada de sempre, não se poderá apontar este facto como justificação leviana do elevado aumento destas saídas do país. O conhecimento é tido, desde as novas teorias do crescimento nos anos 1980, como fator crucial para o crescimento económico e desenvolvimento social. A existência de tanto mais capital humano qualificado representará, por conseguinte, tanto mais crescimento económico. Neste sentido, a perda a que se assiste no país, dos recursos humanos qualificados, refletirá a desadequação das políticas públicas para a fixação destes recursos, assim como as deficientes medidas do tecido empresarial em criar condições de emprego adequadas à absorção desta mão-de-obra altamente qualificada.

A par com o conhecimento, também a cultura ocupa um lugar central nas políticas de crescimento e desenvolvimento social, existindo ações ao nível nacional, mas também ao nível das instâncias europeias, onde, por exemplo, desde 2007 se tem vindo a promover a mobilidade artística de forma a desenvolver o setor cultural e criativo na Europa.

A “classe criativa”, desejada para a estratégia europeia, aparece, assim, como apogeu da mobilidade, flexibilidade, adaptabilidade e empreendedorismo, motes da economia criativa e do conhecimento, mas que escondem, particularmente numa situação de recessão e crise económica, um risco de vulnerabilidade e precariedade laboral mais evidente. Deverá ser posta em causa, como refere Rosalind Gil [2], esta ideia do ar “cool” ligado aos profissionais das indústrias culturais e criativas que, na realidade, vivem em condições de muita precariedade laboral, onde muitas vezes a mobilidade não é uma opção livre, mas sim forçada.

A importância das artes e da cultura no espaço urbano já não é algo de novo. Contudo, a importância do seu valor económico e instrumental reveste-se de maior relevância, tendo influenciado novas formas de planeamento e novos imaginários urbanos, num contexto de grande competitividade urbana.

A chamada “viragem cultural” do planeamento urbanístico surge num contexto particular das cidades: o aumento do desemprego, a diminuição demográfica, o aumento de problemas sociais nas cidades, a crise industrial e a terciarização da economia, o aumento da escolarização e a mudança dos estilos de vida, valorizando o lazer e o consumo, entre outros.

Todos estes aspetos funcionaram como incitadores para que o setor cultural e criativo assumisse um papel preponderante na organização e planeamento das cidades, dando origem a uma “corrida” à “cidade criativa”.

São várias as iniciativas de ordem política que, nos últimos anos, têm marcado as agendas urbanas com vista à promoção desta cidade criativa. Várias cidades à volta do mundo se nomeiam como cidades criativas, a própria UNESCO promove candidaturas para a nomeação de cidade criativa, tendo criado a “Rede de Cidades Criativas”.

Ainda assim, este é um conceito que levanta grandes divergências na sua definição teórica e delimitação empírica. A falta de discussão e reflexão teórica acerca do que são as indústrias culturais e criativas leva a que permaneça um conceito ambíguo, com características fundamentalmente instrumentais, funcionando também para servir interesses políticos e económicos.

Existe, de facto um discurso estratégico que assenta na valorização das indústrias culturais e criativas, baseando-se muito na questão da propriedade intelectual da criatividade. Estas indústrias são assim vistas como fatores de competitividade e coesão social; geradores de emprego e riqueza, reforçando a cidadania; e fatores de afirmação internacional das localidades [3].

A proclamação destas indústrias e das políticas urbanas que lhes estão associadas está ligada a esta lógica do “artista” como figura exemplar. Porém, esta figura do “artista”, alguém autónomo, flexível, empreendedor e móvel, esconde uma realidade de precariedade e incerteza.

O trabalho por projeto, baseado numa lógica de economia flexível, é típico do capitalismo contemporâneo, tal qual Boltanski e Chiapello refletiam [4], prevalecendo uma situação laboral insegura, o que desemboca em precariedade e subemprego.

Existe, portanto, uma tensão entre, por um lado aquilo que é idealizado como economia criativa e as politicas que exaltam as indústrias culturais e criativas e as cidades criativas como forma de desenvolvimento social e económico e reforço da cidadania; e por outro lado, a precariedade laboral em que muitos profissionais deste setor exercem o seu trabalho, não indo ao encontro da retórica e da imagem das classes criativas. Neste caso, a mobilidade e a flexibilidade serão sinónimos de precariedade.

A mobilidade, seja nacional ou internacional, de cariz geográfico ou profissional, está em grande medida associada a estes profissionais como algo natural e próprio, sendo uma realidade que se acentua com as dinâmicas da sociedade contemporânea, onde a ideia do cosmopolitismo tem vindo a ocupar o imaginário público. A circulação transnacional é tida, nesta linha, como algo positivo e inerente às atividades profissionais qualificadas, como no caso das ciências ou, neste caso em particular, dos setores culturais e criativos.

Contudo, se a mobilidade representa oportunidades, ela representa igualmente desafios e barreiras, requerendo vários tipos de recursos. Importa, por isso, refletir em profundidade sobre os contextos em que se processam estas dinâmicas, distinguindo a mobilidade como escolha, como experiência ou como necessidade.

Apesar da reflexão sobre a mobilidade dos profissionais qualificados e dos criativos, em particular, que tem vindo a ser feita no seio da literatura e dos projetos de investigação, torna-se necessário aprofundar a discussão sobre as motivações dessa mesma mobilidade e os contextos em que ela ocorre, assim como o papel da mobilidade nas carreiras destes profissionais, os seus efeitos na modelação dos modos de vida e nos modos de estar, o ethos social, a relação simbólica com as suas comunidades, entre outras dimensões a ser exploradas.

Notas

[1] Pires, R. P., Pereira, C., Azevedo, J., Santo, I. E., & Vidigal, I. (16 de Março de 2015). Portuguese Emigration Factbook 2014. Obtido de Observatório da Emigração: http://www.observatorioemigracao.pt/np4/1269

[2] Gill, R. (2002). “Cool, creative and egalitarian? Exploring gender in project-based new media work in Europe”. Information, communication and society, 5 (1), 70-89.

[3] Augusto Mateus & Associados (2010). O Setor Cultural e Criativo em Portugal. GPEARI/Ministério da Cultura.

[4] Boltanski, L. & Chiappelo, E. (1999). Le nouvel esprit du capitalisme. Paris: Gallimard.

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