Precários como nós

Dimensão analítica: Mercado e Condições de Trabalho

Título do artigo: Precários como nós

Autora: Mariana Correia Pinto

Profissão: Jornalista

E-mail: marianacpinto@gmail.com

Palavras-chave: Jornalismo, Precariedade, Democracia.

No início da década passada (2000-2005), 350 jornalistas portugueses rescindiam contratos, arrastados por processos de reestruturação de vários media. Mulheres e homens com mais de 50 anos de vida, 20 de profissão, eram mandados para a rua. Eram sobretudo eles as vítimas: os da memória, da experiência, da sabedoria. A sangria estava a começar e era mais premente nas redacções em processos de “renovação tecnológica”.

Aquele momento, sabemos agora, era só o início. A queda sem rede continuou, puxou mais gente, levou muitos dos melhores. A queda sem rede ainda continua — e ninguém sabe quando, ou se, irá parar.

2009 foi o meu ano um. Era estagiária e o mundo parecia-me simultaneamente assustador e belo. Tinha tudo pela frente: medos e sonhos, dúvidas e possibilidade de arriscar, desconhecimento e vontade de aprender. Tempo. Mas não demorou até que muitos dos “mitos” se evaporassem. Rapidamente vi aquilo que ninguém quer ver. Colegas e amigos a serem despedidos, uma redacção a encolher como encolhe quem entristece e se envergonha, incompleta na alegria e na vontade de ser, na capacidade de contagiar, de fazer. Eu fui passando, molhada entre os pingos da chuva. Fui ficando. Em quase sete anos de profissão, experimentei quase todas as modalidades de vínculos precários existentes — recibos verdes, avenças, contratos a termos. Fui dispensada, passei pelas amarguradas salas do centro de emprego, fui convidada a “pagar para trabalhar”, fui readmitida. Até Outubro de 2016, tenho um novo balão de oxigénio rarefeito — ou contrato a termo, como quiserem chamar-lhe. Depois não se sabe, depois logo se vê.

A precariedade é isto. Mas é muito mais do que isto. Desengane-se quem pensa que ser precário é apenas uma questão de vínculo laboral. A falta de segurança no emprego, presente pelo constante fantasma de reestruturação das empresas, e a forma como isso condiciona os jornalistas. A falta de meios, a pressão de fazer muito, bem e rapidamente. A falta de tempo para reflectir, para repensar, questionar. A queda da solidariedade e do companheirismo, o crescimento da auto-censura, a descrença no sindicalismo. Tudo isto é precariedade: precários somos todos nós.

Não é, por isso, uma questão geracional. O mercado que se fecha à entrada dos mais novos, vai dando também com a porta na cara aos que lá estão dentro. Aos que têm ainda demasiado para dar e que, uma vez fora, dificilmente voltam a entrar no meio. Fá-lo impiedosamente. E não só em Portugal. Na vizinha Espanha, Cristina Fallarás, jornalista e escritora premiada, com mais de 40 anos e menos de 50, foi despedida do cargo de subdirectora do jornal ADN quando estava grávida de oito meses. No livro “A la puta calle” (não editado em Portugal) faz um relato estrondoso e corajoso do seu processo de despedimento, empobrecimento, desalojamento. É um retrato de Espanha que é Portugal em quase tudo.

A lista do que falhou é extensa. Tanto podemos falar da proliferação dos cursos de Jornalismo, que são já mais de três dezenas e todos os anos produzem centenas de licenciados para um mercado de trabalho sem espaço para eles, como preferir o campo do digital, o salvador mundo digital, onde muitas redacções dizem apostar mas onde não apostam verdadeiramente. Entre os mais novos, este é, de facto, um privilegiado meio de penetração: em redacções envelhecidas e pouco conhecedoras das novas tecnologias, a alcunha “ciber” pode ser uma arma. Mas, às vezes, uma arma perversa. Por causa dela, vai-se pedindo mais aos trabalhadores. Escrever, fotografar, filmar. Escrever, fotografar, filmar — ao mesmo tempo, sem tempo que chegue. Escrever, fotografar, filmar, improvisar, inovar, desenrascar. Os trabalhadores vão fazendo — e os patrões esfregam as mãos. Não era bem esta a ideia de ter jornalistas mais bem preparados tecnicamente, era?

O investimento dos media no digital continua a ser insuficiente, em parte porque é também insuficiente o retorno que dele se consegue. As receitas que sustentam as redacções ainda vêm sobretudo do papel e, no online, ninguém encontrou ainda a fórmula de sobrevivência. Uns escolhem o caminho da ditadura dos page views, produzida não raras vezes à conta de notícias (ou “notícias”, entre aspas) que pouco valor acrescentado trazem, outros um jornalismo “patrocinado”, fenómeno algo controverso e frequentemente duvidoso, uns fecham conteúdos a pagantes, outros abrem. Em nenhum dos casos o fim do túnel se vislumbra.

É preciso um caminho limpo. É preciso que patrões (e alguns não patrões) percebam que não vale tudo. Que não se faz com dez o mesmo que se faz com 20. E que os jornalistas assumam a responsabilidade que têm — aquela poética e verdadeira de sustentar a democracia. A precariedade nesta profissão não é um mal menor que hipoteca os sonhos, é um mal maior que mina presente e futuro e impossibilita a estruturação de uma sociedade livre e informada. De uma sociedade democrática. Não é, portanto, um exclusivo problema meu ou dos meus companheiros de profissão, é de todos os cidadãos que querem ser verdadeiros cidadãos.

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