Cartografia social: (Re)Conhecer perceções; Mapear territórios

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Cartografia social: (Re)Conhecer perceções; Mapear territórios

Autora: Patrícia de Oliveira Ribeiro

Filiação institucional: Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

E-mail: pdce11028@fpce.up.pt

Palavras-chave: Cartografia social, mapeamento participativo, território.

Assegurar a tradução da complexidade dos fenómenos sociais pressupõe a conjugação de uma série de abordagens, disciplinas e discursos, que não se reduzam uns aos outros e conduzam a um tipo de conhecimento caracterizado pela pluralidade e heterogeneidade.

Desta forma, na investigação, deve-se procurar substituir imagens simplistas e naturais acerca de um fenómeno por uma representação complexa e múltipla, fundada na expressão das mesmas realidades em discursos diferentes.

Tendo-se em conta a importância que assume completar ou mediatizar as abordagens com as significações que lhe dão os atores, percebemos a tarefa do investigador, a tarefa de construção do saber, como precisamente ir buscar junto daqueles que sabem o discurso de que são portadores e que o papel das ciências sociais e, em particular, o da produção de conhecimento no campo social é, em última análise, “o trabalhar o saber de que as pessoas são portadoras, e não o de produzir saberes sobre as pessoas coisificadas que elas não seriam capazes de saber” (Berger, 2009, p. 178)[1].

Assim, ao assumir que os pressupostos teóricos de uma investigação irão assentar na adoção de um método fenomenológico, também se assume que o objetivo é, tal como refere Creswell (1998, cit. Holanda, 2006, p. 370)[2], a “descrição das experiências vividas” de vários sujeitos sobre um conceito ou fenómeno, com vista a procurar a estrutura “essencial” ou os elementos “invariantes” do fenómeno, ou seja, o seu “significado central”.

Reconhecendo-se que na investigação qualitativa lidamos com sujeitos‐objetos que não se limitam “a ser olhado, escutado ou interpretado, mas olha, escuta, interpreta e também interpela o sujeito” (Correia, 1998, p. 185)[3], importa reconhecer-lhes o seu direito à narrativa. É exatamente nesse nível dos significados, motivos, aspirações, atitudes, crenças e valores, que se expressa pela linguagem comum e na vida quotidiana, que se enquadram os sujeitos-objetos da abordagem qualitativa, cujo material preferencial é a palavra.

É tendo em conta estas opções fundamentais, que se considera que a cartografia social pode constituir-se como um instrumento fundamental que, sendo utilizada por exemplo num grupo de discussão focal, consegue operacionalizar a criação de um espaço e de um tempo no qual se consegue aceder a uma multiplicidade de visões e reações em torno de um assunto comum a todos os intervenientes. Por outro lado, é também através desta metodologia, nesse espaço e nesse tempo, que se torna possível que “os participantes construam e reconstruam os seus posicionamentos em termos de representação e de atuação futura” (Galego e Gomes, 2005, p. 179)[4].

A Cartografia Social surge no final do século XX, quando as representações cartográficas passam a contemplar a participação de populações locais nos processos de produção de mapas.

No mapeamento participativo, ou cartografia social, insere-se o conhecimento espacial e ambiental de populações locais, sendo que, com a participação da população, a cartografia consegue aperfeiçoar os meios de produção do espaço social, gerando mapas que servem finalidades de identificação e gestão de recursos locais (Acselrad, 2008)[5].

Os dados geoambientais e socioculturais de um lugar, espacializados em mapas socio ambientais, podem contribuir, segundo Bacci, Jacobi e Santos (2013)[6], para a) elaborar um diagnóstico participativo da realidade socio ambiental local visando o (re)conhecimento do lugar, os seus problemas e conflitos; b) promover diálogos e reflexões coletivas sobre a realidade socio ambiental local durante o processo de elaboração dos mapas-síntese propositivos.

Para que estes mapas permitam a promoção destes aspetos é fundamental que se criem espaços nos quais as pessoas possam (re)conhecer o local no qual vivem, mas também refletir sobre este local.

Inicialmente, para a realização dos exercícios de mapeamento participativo, os participantes deverão ser organizados em grupos (ex. grupo de técnicos de intervenção social; grupo de moradores de um bairro social; grupo de empresários de uma dada zona industrial), começando por observar mapas e imagens de satélite do lugar em que se movimentam. É importante que se tenha a certeza que os participantes reconhecem o território e que compreendem as imagens mostradas. Segundo Flavelle (2003)[7], duas estratégias podem ser utilizadas em tarefas que utilizam este tipo de raciocínio mais espacial:

. os “sketch maps”/mapas esquemáticos, ou seja, desenhos à mão livre onde se utiliza o conhecimento local para a identificação e representação de objetos espaciais de interesse para uma comunidade;

. os “base maps”/mapas base, que são mapas construídos sobre bases cartográficas que possuem referenciais cartográficos e geodésicos, por meio da adição de novas informações sobre diferentes temas.

Após se ter a certeza que os participantes compreendem as imagens apresentadas, podem ser formuladas várias questões aos participantes sobre o território, dando-se espaço a uma reflexão individual sobre onde se localizam determinadas situações.

Mas não só da representação gráfica deve “viver” a cartografia social, sendo importante que cada participante descreva textualmente (de forma escrita ou oral) todas as áreas nas quais assinalou as diferentes problemáticas, que refira as causas, os porquês, as razões, as experiências que ditaram tais opções.

Da apresentação e reflexão individuais surge o debate e a reflexão conjunta sobre o território, permitindo a criação de representações coletivas sobre vários fenómenos e problemáticas de um ou mais territórios específicos.

Desta forma, o conhecimento de um território deixa de se prender apenas com a identificação e análise de dados mais objetivos ou estatísticos, para passar a ser um conhecimento que tem em conta também as representações dos atores que aí se movimentam e que percecionam de forma pessoal um espaço que não é só geofísico, mas também um espaço de significações e experiências.

Notas

[1] Berger, G. (2009). A investigação em educação – Modelos socioepistemológicos e inserção institucional. Educação, Sociedade & Culturas, nº 28, pp.175-192

[2] Holanda, A. (2006). Questões sobre pesquisa qualitativa e pesquisa fenomenológica. Análise Psicológica, 3 (XXIV): 363-372

[3] Correia, J. (1998). Para uma teoria crítica em educação. Porto: Porto Editora.

[4] Galego, C. e Gomes, A. (2005). Emancipação, ruptura e inovação: o “focus group” como instrumento de investigação. Revista Lusófona de Educação, 5, 173-184

[5] Acselard, Henri (org.) (2008). Cartografias sociais e territórios. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ

[6] Bacci, D.; Jacobi, P. e Santos, V. (2013). ALEXANDRIA – Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, v.6, n.3, p.227-243, novembro

[7] Flavelle, A. (2003). Mapping our land – a guide to making maps of our own communities and traditional lands. Vancouver: Lone Pine Pub

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