Estudar e fazer TPC é a mesma coisa?

Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia

Título do artigo: Estudar e fazer TPC é a mesma coisa?

Autora: Maria José Araújo

Filiação institucional: Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto

E-mail: mjosearaujo@gmail.com

Palavras-chave: Crianças, estudar, trabalhos de casa.

Os “trabalhos de casa”, também conhecidos por TPC, fazem parte, intrinsecamente, da discussão sobre a Escola e a escolarização, e têm estado presentes em todos os ambientes familiares independentemente do seu contexto social e/ou cultural. No entanto, não têm exatamente o mesmo tipo de consequências, positivas e /ou negativas, em todas as crianças. A expressão “trabalhos de casa” contém em si dois conceitos poderosos – trabalho e casa. Um trabalho que, para as crianças que frequentam o ensino obrigatório, se prolonga em casa (esfera doméstica) ou nas instituições onde permanecem depois de acabarem as aulas, sendo que a responsabilidade pela sua boa execução passa a ser dos pais (mesmo que não seja com eles que as crianças os fazem), e já não só da escola. Uma das ideias subjacentes a este tipo de trabalho é a ideia de que as crianças devem estudar em casa para criar hábitos de trabalho. No entanto, há uma grande diferença entre estudar e fazer TPC.

Estudar tem de ter a adesão voluntária das crianças. Deve ser algo que elas percebam e por que se interessem. Perceber que conhecer, aprender e ter a possibilidade de participar no mundo de uma forma informada é algo estimulante, e as crianças gostam deste sentimento. Estudar é perceber mais e melhor… não é repetir o que os adultos impõem.

O conceito de estudar é muito confuso para as crianças e elas só o vão percebendo com o decorrer da escolaridade e à medida que se vão confrontando com outras situações – como, por exemplo, estudar a tabuada, estudar para um teste – e, mesmo assim, tudo isso depende delas. A função de estudar, não sendo uma operação muito concreta, é algo que não é muito claro para as crianças nem, provavelmente, para os adultos com quem convivem.

As crianças têm múltiplos interesses que são desprezados em função da “matéria escolar”. Todos sabemos disto – o que muitas vezes não sabemos é o que fazer para corrigir esta desatenção. Neste sentido, se se confundir TPC com estudar, estamos a dizer às crianças que estudar é aquele trabalho repetitivo, cansativo e mecânico que é proposto na maior parte dos TPC. É muito importante que se entenda isto, senão é o conhecimento e a própria Escola que estamos a desvalorizar.

A maior parte das crianças não gosta de fazer “trabalhos de casa”, mas aceita a obrigatoriedade da tarefa mais ou menos pacificamente. Outras, contudo, manifestam-se: É uma seca…. Tenho de estar sempre a escrever… cansa a mão… Já estou cheio. Apesar das dificuldades (não sabem fazer ou estão cansadas após um dia na escola), os “trabalhos de casa” aparecem sempre como alguma coisa que faz parte dos seus quotidianos, que está naturalizada e que, portanto, não se questiona – (…) temos de fazer todos os dias e muitos… Ou cuja realização é condicionada pelo medo – se não fizer ralham-me (…). Convém salientar aqui que as crianças, quer tenham 6, 7, 8, 9 ou 10 anos de idade, têm a mesma quantidade de tempo ocupado com obrigações escolares, independentemente do seu tamanho, ritmo ou contexto de vida [1].

Há, como sabemos, muitas formas de aprender e de ensinar, como há muitas de estudar. O ato de estudar, como de ler, não é de fácil ensino. Para ajudarmos as crianças a perceber o que significa estudar, qual o significado de estudar, é preciso respeitar algumas regras que se prendem com o ritmo de cada criança e com a forma que cada uma arranja para satisfazer a sua curiosidade. As crianças são todas diferentes e, portanto, têm formas diferentes de se adaptar e se interessar. Assim, aplicar uma “receita” igual a todas, mandá-las ler e repetir, não é de modo algum a melhor forma delas se familiarizarem e começarem a perceber o ato de estudar e o de ler. Algumas crianças gostam de procurar informações sobre matérias que lhes suscitaram curiosidade, gostam de escrever coisas e são muitos perspicazes. Tudo depende das matérias e das crianças. Se o intuito de algumas propostas dos TPC é treinar a memória, há também muitas formas das crianças o fazerem que não passam pelo exercício repetitivo, como é o caso de repetir palavras e números várias vezes até decorar ou mesmo ganhar velocidade. Desenvolver e treinar a memória é o que as crianças mais fazem no seu dia-a-dia. Não precisamos de pedir às crianças que se interessem por um jogo de futebol ou voleibol, decorem as regras escrevendo vinte vezes numa folha de papel, pois elas já o fazem sem disso precisar. Elas fazem-no à medida que se vão confrontando com a necessidade de saber, ou seja, quando jogam ou quando veem jogar. Fazem-no sem custo porque é uma atividade que lhes interessa e, portanto, aderem a ela. E, ao aderir, estão a memorizar e a treinar. Mas mesmo as crianças para quem este tipo de jogo não é tão interessante acabam por aprender ou vão perguntando quando têm uma dúvida. O mesmo podíamos dizer para as canções da moda, marcas de automóvel, grupos musicais, um jogo de xadrez ou muitos dos jogos eletrónicos que exigem das crianças competências muito complexas e elaboradas. Neste sentido, precisamos de compreender que também as propostas de trabalho que exigem estudo e esforço têm de ser sentidas pelas crianças como verdadeiramente importantes e suficientemente interessantes para que a elas adiram com vontade e para que as valorizem, para que as trabalhem com gosto. Caso contrário, mal comecem a ter alguma autonomia, deixam o estudo aprofundado de lado e fazem somente o mínimo necessário para passar de ano. É neste sentido, que não se pode confundir TPC e estudo. Quando se obriga a memorizar e repetir, estamos a impor uma conceção já programada e raramente as crianças aprendem a pensar, a pôr em causa, e isso não as ajuda a perceber e ficar com vontade de continuar. O que se propõe com muitas situações de jogo é a possibilidade de produzir, mudar e conceber novas formas de fazer/jogar. Isto, aliás, acontece com os estudantes de qualquer nível de ensino e até com os adultos. Não raras vezes ouvimos dizer que os estudantes “decoram e vomitam matéria”, sem saber nada. O que, sendo um exagero, é já de algum modo uma forma de se denunciar este tipo de conceção do conhecimento. Em relação aos adultos, o discurso comum usa muito a expressão: parecem uns papagaios, isto é, decoraram, mas na realidade não sabem. Em relação às crianças, o próprio Ministério da Educação incentiva a prática, não só no estudo em casa mas também na escola, com as metas curriculares de português para ver quem consegue ler mais palavras por minuto. Uma prática que as crianças não entendem e que está a deixar muitos educadores (pais e professores) estupefactos, pois já não chegava mecanizar e ensinar a “vomitar”: agora é preciso, também, cronometrar.

Notas

[1] Araújo, Maria José (2007). Os Trabalhos de Casa no ATL. Porto: Livpsic.

[2] Araújo Maria José (2009). Crianças Ocupadas. Lisboa: Prime Books.

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