A Ditadura da Banalidade: ou o Apogeu da Injustiça Social

Dimensão analítica: Mercado e Condições de Trabalho

Título do artigo: A Ditadura da Banalidade: ou o Apogeu da Injustiça Social

Autor: António Carlos Cortez

Filiação institucional: Professor de Literatura Portuguesa no Colégio Moderno, crítico de poesia, ensaísta. CLEPUL – Universidade de Lisboa

Palavras-chave: «homem-massa», educação, totalitarismo.

Se olharmos para o mercado de trabalho e para as condições em que hoje se exerce esse direito – o direito ao trabalho -, creio que podemos aplicar a sentença de Ortega Y Gasset [1]: “de repente a multidão tornou-se visível, instalou-se nos lugares preferenciais da sociedade. Antes, se existia, passava despercebida. Ocupava o fundo do cenário social; agora, antecipou-se às baterias, tornou-se o personagem principal. Já não há protagonistas, só coro.” Quer isto dizer que, manipulados por uma falsa ideologia da igualdade, qualquer trabalhador que queira, de forma justa, afirmar-se pelo trabalho, corre o risco de ser cilindrado pela máquina, isto é, pela empresa, porquanto, em face do medo e da concorrência entre tudo e todos, aquele que se destaque pela originalidade, rigor e autenticidade nas suas funções tem, a combatê-lo, o colega medíocre e invejoso e o patrão recoso de ter de pagar mais. Quando a palavra de ordem é «cortar», seja no que for e em quem for, receio bem que as condições de trabalho cada vez mais se venham depauperando, tornando precárias certas conquistas laborais que julgávamos adquiridas.

Vivemos sob a égide moralista do nivelamento humano. Um nivelamento por baixo e que opera ao nível das mentalidades. O empobrecimento existencial e a legitimação do grotesco, com base num aparelho ideológico de Estado, que se serve da Televisão e das escolas para formatar, desde cedo, os futuros «homens-massa», está de acordo com as chamadas «leis do mercado». Uma dessas leis plasma um ideal de «sociedade de consumo» que só sobrevive com a existência do «homem-massa» com uma espécie de acordo tácito entre empregador e empregado: quanto mais cego pela burocracia se estiver e receoso de ser despedido o trabalhador viver, mais fácil se torna garantir baixos salários.

Por essa Europa fora vão sendo cada vez mais comuns os casos em que, sem razão de facto, um trabalhador é «convidado» a desempregar-se, na eventualidade de não aceitar ser deslocado para onde a entidade empregadora quiser. Isto constitui um ataque às liberdades e garantias que as democracias juraram defender. Está em curso, portanto, uma ideologia fasciszante, que subtilmente engendra, nas relações inter-pessoais, mecanismos de auto-defesa e sobrevivência que levam ao ostracismo ou à xenofobia entre pessoas e populações, ao racismo, ao afastamento de tudo quanto é diferente. É comum ouvirmos falar de subtis formas de perseguição, no emprego, relativamente a quem resiste à concepção da vida como quotidiano pautado pelo «débito/crédito» da bolsa de valores da eficácia, da estatística e dos rankings.

Veja-se como num sector laboral – a Educação – se corrompeu o ideal de ensinar e aprender ao transformar-se a Escola em empresa… Veja-se também como as políticas anti-sociais do actual Governo, dividiram os portugueses, semeando o ressentimento entre gerações. Em Portugal o verbo «ambicionar» levou à competição desenfreada e nenhuma sociedade sobrevive sem solidariedade. Isto vale para a Educação e para os mais diversos planos da nossa vida comum.

De algum modo a ascensão da insignificância a que se refere Castoriadis catapultou para as instâncias de poder uma massa de tecnocratas que, como ensina a História, entrega-lo-ão, a breve trecho, aos neofascistas, ditos «neoliberais».

Não sei se podemos falar em condições de trabalho com as actuais políticas de empobrecimento em Portugal. Depois de rasgado o contrato social e depois da ilegitimidade das políticas subservientes dos governos dos países meridionais (Portugal, Espanha, Itália, Grécia, França…); depois da traição ao projecto fraterno, europeísta, nascido com o Tratado de Roma, que mercado de trabalho é este onde não há justiça social alguma? Que mercado é este que não reconhece o valor das pessoas?

Não se trata sequer de uma visão partidarizada dos factos. Trata-se de ser justo e lúcido em relação ao que nos tem acontecido: desemprego galopante, insolvências e falências em catadupa, desmotivação generalizada. O mercado de trabalho tem como pilar a efectivação de uma ideologia do medo que leva à padronização dos comportamentos. António Borges Coelho, historiador, não erra quando afirma que estas políticas, bem como este Governo (e outros, diga-se) ficarão na História, por representarem uma nova contra-revolução em relação ao Estado Social, à Educação e à Saúde.

Diz-nos Ortega y Gasset [2]:: «massa é todo aquele que não atribui a si mesmo um valor – bom ou mau – por razões especiais, mas que se sente como todo “mundo” e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais” (p.45).

Pois bem, esse menosprezo e esse ódio, a que se soma a ditadura do banal e a ignorância em relação ao que aconteceu na Europa e levou à IIª Guerra Mundial, tudo o que hoje, da Grécia a Portugal, da Itália à Irlanda está a suceder tem como consequência a substituição dos Direitos Universais do Homem, por decretos, leis e regras cujo legalismo desvirtua o que em 1948 deu origem ao Movimento Europeu. Esse movimento, fundado no seguimento do Congresso de Haia e presidido por Wiston Churchill e que contou com personalidades de diversos quadrantes políticos (Arnold Toynbee, Bertrand Russell, Paul-Henri-Spaak ou Karl Jaspers) teria de ser revitalizado hoje. Mas que políticos podem encarnar um novo espírito europeísta? A Ucrânia prova a falência das actuais políticas externas da Europa…

O menosprezo pelas Artes, a História, a Música, a Filosofia e a impreparação da maioria dos nossos universitários, cegos por uma cultura do entretenimento e da excitação permanentes, redundam na tirania, na insensibilidade e no fanatismo da ignorância. Que país – e que Europa – teremos sem elites cultas e instruídas?

O que o mercado de trabalho tem para oferecer é simples: salários de miséria, carga laboral demolidora, e alienação. Daí as manifestações que ocorrem um pouco por todo o mundo, pois a revolta dos escravos será inevitável. Gasset, depois de Nietzsche, fala-nos do «Filisteu da Cultura» a quem nada «mais interessa do que cumprir as determinações burocráticas que lhe são impostas pelo meio social para, realizando tal intento, poder dormir placidamente sobre os louros da vitória» [3]: É urgente, pois, recuperar o contrato social. Com Eleições Europeias à porta, seria conveniente perceber por que razão nenhum dos países intervencionados pela TROIKA esteve representado no recente debate europeu a propósito do plano de união bancária que está a ser estudado.

Há que perguntar, portanto, de que mercado estamos a falar. Se tudo se reduz ao despotismo financeiro e à pidesca forma de estar na vida, não nos admiremos que o valor humano, as Constituições dos diversos países, pilares das democracias, sejam substituídas por esse «homem-massa», adepto do totalitarismo, das leis do mercado que banalizam, formatam, empobrecem e diluem o que é essencial ao Homem: liberdade de escolha e o poder de decisão.

Notas

[1] Ortega Y Gasset, José (2007), A Rebelião das Massas, Lisboa, Martins Fontes, p.43.

[2] [3] Idem, ibidem.

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