Dimensão analítica: Cultura e Artes
Título do artigo: Do Valor da Criatividade… ±
Autora: Fátima Silva São Simão
Filiação institucional: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
E-mail: fatimasss@gmail.com
Palavras-chave: criatividade, valor, mercado.
Becoming a brand name is an important part of life. It’s the world we live in.
Damien Hirst [1]
Num recente seminário organizado pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, o artista Miguel Januário (bem conhecido pelo seu projecto ± e não só) terminava a sua apresentação com várias questões, lançadas à jovem audiência de estudantes. Muitas delas em torno da mesma (conhecida) angústia: como pode o artista “ganhar dinheiro” sem comprometer o seu desempenho artístico?
E, de repente, num debate sobre arte, falava-se, naturalmente, de criatividade, dos seus limites e horizontes; mas também se falava do mercado, das suas regras e das suas imposições. Este texto é um contributo para o debate sobre o valor da criatividade, numa tentativa de esclarecer a questão levantada pelo Miguel e por tantos outros artistas e criativos contemporâneos. Para tal, várias outras questões e conceitos serão aqui sugeridos e discutidos apenas superficialmente, na expectativa de que venham a ser aprofundados no futuro.
Falar de criatividade é (também e sempre) falar de valor. Valor simbólico, valor intrínseco, valor artístico, valor cultural. E valor económico. Este seminário foi um belo exemplo disso. Bem como o são recentes directrizes Europeias que sublinham a importância da chamada Europa Criativa, na transformação da União Europeia numa economia “inteligente, sustentável e inclusiva” [2]. Ou seja, o assunto, embora já não recente, assume contornos cada vez mais abrangentes mas, nem por isso, mais claros. E representa vários e cada vez maiores desafios para artistas e profissionais da cultura e da criatividade em geral. Embora a questão da mercantilização da arte não seja, de facto, recente, a forma como esta se coloca hoje aos artistas parece carregar sobre eles um peso desajustado, no limite, oposto e muitas vezes repressor da sua maior vantagem competitiva: a própria criatividade.
Assim, no actual contexto, definir o valor da criatividade impõe-se, provavelmente, enquanto um desafio essencial. Bem como definir o valor da criatividade, na óptica do criador a).
Para tal, é necessário distinguir dois conceitos fundamentais: obra criativa (obra de arte) e produto (ou serviço) criativo. E, para isso, basta atentar na intenção/ motivação do seu criador. Ou seja, a quem é dirigida a sua ideia. Quem a motivou? Ou, por outro lado, quem a encomendou? Quem pretende ou poderá beneficiar dela?
As respostas podem ser variadas mas facilmente as podemos agrupar nas duas categorias propostas:
- Se estivermos perante uma obra ou um processo de criação puramente artístico, cujo intuito seja a expressão de uma mensagem, uma ideia, uma estética, resultante de inspiração pessoal, num determinado momento e contexto, então estamos a falar de uma obra criativa.
- Se, pelo contrário, a expressão dessa mensagem, ideia ou estética tiver sido motivada por um comissário, um cliente, um patrocinador, em troca de uma qualquer forma de pagamento, então estaremos a falar de um produto (ou serviço) criativo.
Em ambos os casos, as competências e ferramentas usadas poderão ser exactamente as mesmas. No entanto, a razão pela qual são postas em prática é totalmente distinta: numa situação, o objectivo é ser provocador ou exprimir algo, no outro, o objectivo é, essencialmente, ser remunerado pelo trabalho executado [3].
Também nas duas situações se verificarão graus de esforço distintos. No caso de uma obra criativa, o criador sente-se livre e genuinamente interessado no trabalho que está a desenvolver e, embora esteja sujeito a restrições (orçamentais, de espaço, de tempo…), a decisão de avançar ou não é da sua total responsabilidade. Já no caso do produto criativo, as restrições à sua criatividade, serão bem maiores. Mais do que os limites orçamentais definidos à partida pelo cliente, as principais restrições são de ordem temporal, normativa e mesmo criativa, ou seja, o criador pode estar sujeito a regras e “gostos” do seu cliente. Caso qualquer um destes requisitos não seja cumprido, o cliente pode simplesmente não contratar ou recusar o trabalho.
Vários autores têm já abordado esta questão da motivação [4], defendendo que estas podem ser de ordem ‘intrínseca’ (pessoal) ou ‘extrínsecas’ (impostas por circunstâncias externas ao próprio criador) e variam conforme a preferência do criador pelo reconhecimento artístico ou pela recompensa pecuniária [5].
O facto é que, apesar das diversas análises e estudos já realizados, a questão do valor da criatividade parece continuar a não encontrar resposta consensual. Talvez porque ela não exista, à luz dos modelos de avaliação vigentes.
Em 2004, no seu texto “Capturing Cultural Value”, John Holden propunha uma nova forma de avaliar as actividades culturais financiadas publicamente – através do que ele chamou de paradigma do valor cultural – por oposição às métricas impostas pelo sistema administrativo vigente [6]. Segundo o autor, estas métricas, focadas nos impactos e resultados instrumentais da cultura, serão as responsáveis por esvaziar a actividade artística da sua essência ao provocarem a distorção organizacional e sistémica do sector cultural [6].
O que é verdade é que o paradigma tecnocrata dos ‘impactos e resultados’ de facto se impôs, ao ponto de provocar a emergência de um novo sector. Aparentemente complementar na sua génese mas por muitos encarado como uma ameaça ao desenvolvimento cultural, as indústrias criativas floresceram recentemente como a panaceia para uma Europa em crise.
E, se é certo que os criadores e artistas e demais profissionais da cultura e criatividade podem e devem continuar a colocar questões sobre o mercado, que tão directamente os afecta e constrange, é também fundamental que, acima de tudo, continuem a ser capazes de questionar esse mesmo mercado e os seus mecanismos e impactos, lembrando-se sempre de quais são as suas motivações primordiais. É nesta capacidade para questionar o status quo (e comunicar essa mesma contestação) que reside ainda o principal valor da criatividade. É esta a proposta de valor única de Miguel Januário e de tantos outros artistas e profissionais da cultura e da criatividade em geral, apesar das suas dúvidas. E é por essa mesma proposta que o mercado continua disposto a pagar por criatividade. Estranhamente… ±
Notas:
a) Por oposição à óptica do consumidor que, no caso do “mercado da criatividade”, se dividirá entre cliente/ comissário e público/ audiência.
[1] Thompson, D. (2008), The $12 Million Stuffed Shark: The Curious Economics of Contemporary Art, Palgrave Mcmillan, Nova Iorque.
[2] Comissão Europeia (2011), Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Commitee and the Commitee of the Regions, Creative Europe – A new framework programme for the cultural and creative sectors (2014-2020), última consulta em 27 de Novembro 2013 (http://ec.europa.eu/culture/creative-europe).
[3] São Simão, F. (2013), When Buzz Chokes Bizz… and Culture – Reflections from the Portuguese Creative Industries’ Case, LabforCulture.org.
[4] Frey, B. (1997), Not Just for the Money: An Economic Theory of Personal Motivation, Edward Elgar, Cheltenham.
[4] Frey, B. (2003), Arts and Economics: Analysis and Cultural Policy, segunda edição, Springer, Berlim.
[5] Guinsburgh, V. & Throsby, D. (2006), Handbook of the Economics of Arts and Culture, Elsevier/ North-Holland, Amsterdão.
[6] Holden, J. (2004), Capturing Cultural Value – How Culture Has Become a Tool of Government Policy, Demos, London.




