A população idosa portuguesa e o consumo

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: A população idosa portuguesa e o consumo

Autora: Ivone Ferreira

Filiação institucional: Professora Convidada da Academia Militar; Membro do Conselho Científico da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia; Membro do Grupo de Ação da Associação Portuguesa de Psicogerontologia, Políticas Sociais para as Pessoas Idosas e Co-coordenadora do NENVA – Núcleo para o Envelhecimento Ativo da ARS Algarve.

E-mail: ivoneferreira85@gmail.com

Palavras-chave: idosos, envelhecimento, consumo.

“Há uma idade na vida em que os anos passam demasiado depressa e os dias são uma eternidade!”

Virginia Wolf

Os idosos são uma população crescente na Europa e Portugal é já considerado o 4º país mais envelhecido do continente europeu.

Porque cada vez em maior número, poderiam ter todas as possibilidades para adquirir mais espaço e força: social, económica, cultural e política.

Força social porque, quanto maiores em número, mais peso podem e devem ter as suas reivindicações, força económica, pelo seus gastos e consumos, força cultural pela sua experiência, pelos seus saberes, pelas suas escolhas e convicções e, finalmente, força política, pelo seu peso nas votações.

As opiniões sobre as consequências do envelhecimento demográfico não são unânimes, nem na aceitação do mesmo como uma catástrofe, nem como uma contrariedade, a ser constituída em oportunidade.

Michel Loriaux trabalhou essas opiniões contraditórias. Devem ser levados em conta os que olham esta faixa etária como “ameaçadora” e dela afirmam que “produz uma desaceleração do ritmo de inovação e uma redução da flexibilidade e da mobilidade da mão-de-obra, que acentua o conservadorismo político, que diminui a propensão para o consumo, aumentando a poupança, gerando uma retração do mercado interno (…)”, ou os que defendem que “a inovação não é contrária à experiência e que a adaptação dos trabalhadores idosos às novas tecnologias pode ser alcançada através de reciclagens profissionais, que o conservadorismo político não depende tanto do envelhecimento demográfico mas do envelhecimento das instituições e das mentalidades, que o envelhecimento demográfico não implica necessariamente uma diminuição automática do consumo, mas sim uma modificação da sua estrutura”?

Mas, se não existe uma diminuição do consumo, então existe um aumento do mesmo? Serão os mais velhos os grandes pilares do mercado e do consumo no futuro?

Baseados na afirmação várias vezes lida e ouvida a opinion makers, investigadores ou jornalistas, de que os seniores são o mercado do futuro, fomos à procura de estudos que o confirmassem. A bibliografia consultada mostra uma tendência muito acentuada para estudar apenas os aspetos menos positivos do envelhecimento e das necessidades de consumo a ele associadas, nomeadamente no que diz respeito ao consumo de medicamentos e às despesas com atos médicos, de uma forma geral a cargo do Estado e da Segurança Social.

Em bom rigor, não encontrámos estudos profundos de consumo dos seniores noutras áreas como a moda, os espectáculos, os hábitos de leitura e aquisição de livros, de CD’s ou outros quaisquer produtos culturais. Quantas vezes almoçam fora de casa os casais mais velhos? No restaurante? Com a família? Com os amigos? Quem adquire ou paga essas despesas? E que tipo de ocupação dos tempos livres fazem? Com que frequência viajam? Durante quanto tempo? Em que períodos do ano? Também não sabemos, com cientificidade, se existem tipos de consumo diferentes entre os seniores do interior do território português e os do litoral, se são diferentes os gostos e consumos dos minhotos e dos algarvios, etc, etc.

Consideramos fundamental, para falar dos consumos dos idosos em Portugal, conhecer o valor das suas pensões. Segundo o economista Eugénio Rosa, as pensões dos aposentados e reformados da Administração Pública, “e segundo o Relatório e Contas da CGA, no fim de 2009, 21,7% do número total de aposentados e reformados recebiam pensões cujo valor não excedia os 500€ por mês; e 51,2% não ultrapassavam os 1000€ mensais. Apenas 3,2% tinham pensões superiores a 3000€ por mês. Por outro lado, entre 2002 e 2010, as pensões dos aposentados e reformados da Administração Pública não registaram, em termos reais, qualquer melhoria.”

No entanto, apesar destes dados públicos, existe uma outra corrente que nos apresenta um cenário mais positivo e favorável aos que continuam a afirmar a grande oportunidade que o consumo dos seniores pode vir a ser para a evolução positiva da economia em Portugal. Nesta última corrente insere-se uma investigação de uma empresa na área dos estudos de mercado que apresentou um trabalho em que afirma que “O mercado sénior representa cada vez maior importância, afigurando-se como um segmento vivo e activo nas suas escolhas e consumos. 71% preocupa-se com a sua aparência física e bem-estar, nomeadamente 68%, através da prática de exercício físico (destes, 50% praticam caminhadas). Também associado ao bem-estar, está a utilização de produtos de cosmética com 52%. Cerca de 38% realiza viagens de lazer e turismo, maioritariamente com familiares (70%) e 9% frequenta termas/SPA’s.”

Contrariando estas afirmações, um estudo do INE, publicado da sua Revista de Estudos Demográficos, mostra comportamentos dissonantes com os que a empresa já referida, apresenta.

No estudo do INE, os indivíduos portugueses maiores de 65 anos não compram livros ou revistas jornais, não vão ao cinema, não saem para fazer refeições fora, não passam fins-de-semana fora de casa e não fazem férias fora da residência. Assim, como podemos concluir que são eles os futuros grandes consumidores?

Para que este quadro se altere, o que é possível, seria preciso um investimento na mudança de mentalidades, mas essa tarefa apresenta-se difícil, uma vez que os idosos não estão abertos à mudança que implicaria a desrotinização de hábitos já referenciados, uma vez que “a participação das pessoas idosas como membros em organizações culturais ou sociais, tais como clubes desportivos, recreativos, associações de bairro ou partidos políticos, regista valores pouco significativos, embora mais elevados nos homens (18,7% contra 5,2% de mulheres)”.

A maioria dos idosos não tinha praticado qualquer exercício físico nos 12 meses anteriores ao inquérito, estava “habitualmente sentado e andava pouco”. Este tipo de comportamentos indicia pouca capacidade de interação e convívio entre pares, pouco consumo de artigos desportivos ou outro tipo de produtos associados.

Por tudo isto se conclui, também talvez de forma empírica mas a partir de dados concretos existentes, que é prematuro afirmar que os idosos poderão vir a ser, num futuro mais ou menos próximo, o motor do consumo em Portugal.

Bibliografia:

Barbosa, Rita M. Santos Puga (2000), Educação Física – gerontológica, saúde e qualidade de vida na terceira idade; Sprint.

Barreto, A. (Org.) (1996), A situação social em Portugal, 1960-1995, ICSUL e Fundação Tinker, Nova Iorque, Lisboa.

Cruz, Isabel Silva (2013). Entre Estruturas e Agentes: Padrões e práticas de consumo em Portugal Continental. Porto: Edições Afrontamento.

INE (2002), Dep. Estatísticas Censitárias e População; O envelhecimento em Portugal: situação demográfica e socio-económica recente das pessoas idosas;  Revista de Estudos Demográficos – 2.º Semestre de 2002 > INE, I.P., 2002, p. 185 – 208

Michel Loriaux et al. (eds.) (1990), Populations âgées et révolution grise: les hommes face à leurs vieillissements. Actes du Colloque Chaire Quetelet ‘86 . S.l.: CIACO, 1118 pp.

Novadir Research, Marktest.com; A outra geração: os seniores, perfil, comportamento, usos e atitudes.

 

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