Arte, espaço e cidade ou Kit Garden, de Joana Vasconcelos

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Arte, espaço e cidade ou Kit Garden, de Joana Vasconcelos

Autora: Teresa Duarte Martinho

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E-mail: teresa.martinho@ics.ul.pt

Palavras-chave: arte, espaço, cidade, obra, discurso.

A inauguração de Kit Garden, de Joana Vasconcelos (1971), no Largo do Intendente, foi uma das cerimónias com que a autarquia de Lisboa celebrou, em 2012, o 102º aniversário da proclamação da República. Kit Garden apresentou-se como uma obra artística “viva e multifuncional”, simultaneamente “escultura, banco e jardim”, de acordo com o atelier da artista [1]. Uma obra a verde (a cor do loureiro, a planta deste pequeno jardim) e a vermelho (ferro forjado e bancos em madeira lacada).

Na sua intervenção, e tal como foi difundido numa reportagem institucional, António Costa (1961), principal responsável pelo governo municipal, sublinhou como a implantação daquela peça no Intendente significou um desfecho bem sucedido para duas circunstâncias [2]. Kit Garden saía, finalmente, da invisibilidade onde permanecia há dez anos, encontrando um Largo onde mostrar-se. E o Intendente ganhava um novo elemento de alento na fase de renovação que tem experimentado nos últimos anos. Na sua intervenção, a autora da obra proferiu palavras de agradecimento e de contentamento, por ver aquele espaço “a mudar e a tornar-se mais integrante para todos”.

Em referência ao historial de Kit Garden, mencionou-se que a peça foi concebida para outro cenário, o Largo da Academia Nacional de Belas Artes, ao Chiado, merecendo o Prémio Tabaqueira de Arte Pública, em 2003. É de assinalar o contraste entre o Largo que mais moldou a peça e o Largo que a integrou, bem como leituras e ligações sugeridas por Joana Vasconcelos a propósito da relação entre Kit Garden e o espaço.

Do Largo da Academia Nacional de Belas Artes, pode dizer-se que o tempo o tem tratado bem, assegurando encantos. Concentra especialmente a atmosfera azulada da cidade na proximidade do rio e, não por acaso, acolhe hotel e restaurante ditos “de charme”, com vista larga para o Tejo. Já o Largo do Intendente parece clamar por um tempo que lhe tire desgaste e desencanto, décadas e décadas a hospedar as figuras mais lumpen da prostituição e, desde o princípio do século XXI, da toxicodependência. Tempos e iniciativas recentes aliviaram-lhe feições e estilo, principalmente por via das obras realizadas no âmbito do projecto municipal de renovação do bairro da Mouraria. A instalação do gabinete de António Costa neste Largo, em 2011, num edifício outrora fábrica de olaria, teve papel de crédito simbólico à projectada vida nova do Intendente, declarando o presidente querer contribuir para que lisboetas e visitantes de Lisboa se aproximassem mais da zona, sem a recearem.

Observada a partir de um piso não térreo, como os do Sport Clube do Intendente (1933) ou da Casa Independente (2012), duas casas de portas e janelas abertas no Largo, Kit Garden ganha outra perspectiva. A peça, que já compararam a uma chave inglesa, lembra agora dois gabinetes ao ar livre, com muros de plantas; ou uma máquina de cena, enriquecida pela versatilidade de performers. E se as linhas curvas e a reentrância são mais associáveis à anatomia da mulher, Kit Garden tem algo do desenho do que é específico do corpo feminino. Na linha desta possível associação, a obra juntar-se-ia a um conjunto significativo de peças de Joana Vasconcelos que remetem, cada uma a seu modo, para a seguinte fala da autora. Quando interpelada sobre como via as leituras que situavam os seus trabalhos “dentro de uma prática feminista”, numa entrevista para monografia (2007), respondeu: “É simples. Na realidade, trata-se de uma questão sexual. Há homens e há mulheres; as mulheres têm interior e os homens exterior. Fisicamente, existe um interior que os homens não têm e que nós temos. Aliás, a mulher trabalha muito a ideia do interior” [3].

Falando dos seus objectivos com Kit Garden, numa peça radiofónica, Joana Vasconcelos aproximou-se de uma definição de intimidade ao afirmar ter querido “desenhar um infinito que contém um jardim, como se, no fundo, dentro daquela peça se pudesse sempre pensar para além das fronteiras. É como se fosse um local de recolhimento” [4]. Já em reportagem televisiva sobre a cerimónia de inauguração de Kit Garden, a artista teve palavras mais de decoradora, cultivando outras hipóteses de ligação (e de utilidade) da sua obra ao Largo do Intendente. Dirigiu a atenção para o louro, “uma planta que se dá muito bem no clima de Lisboa”, o ferro forjado, “aliás, podemos vê-lo neste prédio aqui em frente; faz parte da nossa cultura e estética arquitectónica” e ainda para o facto de a peça permitir doar “um pouco de verde a um local que não o tem” [5].

A procurada sintonização da obra com o Largo denota a sua defesa, uma vez situada num enquadramento imprevisto. Evidencia ainda a percepção, por parte de quem cria, da importância de poder escolher o contexto em que a obra é apresentada, para não a desvirtuar. Aquando da exposição de uma outra peça da autora, no âmbito de comemorações do centenário da República, no Cais das Colunas, Joana Vasconcelos focou também a relação entre obra e espaço. A opção por ali localizar Portugal a Banhos (piscina grande, com a forma do mapa do país continental)  fora, como afirmou, “determinante”, pois “tinha de ter uma relação com o mar e com o país” [6]. Acrescentou não querer “criticar o país nem fechar o discurso da obra (…) tenho descoberto que permite uma multiplicidade de opiniões e interpretações, consoante quem a vê”.

Foi uma tarde amena no Largo do Intendente, a de 5 de Outubro de 2012. Houve, além dos discursos oficiais, uma música clássica e pessoas aparentando uma curiosidade descontraída. Parte da atenção concentrou-se também no loureiro, pelo verde, pelo aroma e pelo benefício na cozinha. Mas, que se saiba, ninguém teve o gesto rasgado que a data merecia e Kit Garden proporcionava. Colher alguns ramos de loureiro e visitar a casa que evoca Carlos Cândido dos Reis (1852-1910), muito perto do Largo [7]. Perante a antevisão do que julgou serem planos derrotados, este arquitecto e dirigente da revolução republicana condenou-se tragicamente, na madrugada de 4 de Outubro de 1910. Não veria o dia seguinte, a delineada obra finalmente implantada.

Notas:

[1] In artigo do jornal Público, 1.10.2012.

[2] Disponível em http://www.cm-lisboa.pt.

[3] Rubio, Augustín Pérez (2007), “Do micro ao macro e vice-versa: Uma conversa entre Agustín Pérez Rubio e Joana Vasconcelos <http://www.joanavasconcelos.com/multimedia/bibliografia/JV2007_AgustinPerezRubio_ADIAC_PT.pdf>”, in Joana Vasconcelos. Lisboa, ADIAC. pp. 38-60.

[4] In “Arte Pública no 5 de Outubro”, TSF, 5.10.2012.

[5] “Joana Vasconcelos inaugura “Kit Garden” no Largo do Intendente, em Lisboa”, disponível em http://sicnoticias.sapo.pt.

[6] In artigo do jornal Público, 22.10.2010.

[7] Centro Escolar Republicano Almirante Reis (1911), na Rua do Benformoso (nº 50, 1º), a qual desagua no Largo do Intendente.

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