O lugar da Educação Física na nova proposta de composição curricular

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: O lugar da Educação Física na nova proposta de composição curricular – a seu tempo chegarão as consequências…

Autora: Paula Batista

Filiação institucional: Faculdade de Desporto, Universidade do Porto

E-mail: paulabatista@fade.up.pt

Palavras-chave: Educação, Educação Física, Desporto

É caso para pensar que o novo quadro de composição curricular, associado às regras de organização do ano escolar (ano 2012/2013), em vez de enunciar regras facilitadoras da organização do próximo ano letivo, teve, exatamente, o efeito contrário! O novo quadro veio lançar a total confusão, numa fase em que muitas escolas já tinham divulgado a sua oferta educativa para o próximo ano letivo.

Associada a esta confusão geral surgiu ainda mais um “coelho da cartola”: o término da classificação da disciplina de Educação Física para a média de acesso ao ensino superior! E, neste aspeto em concreto, muitos foram os sectores da sociedade que se levantaram e bateram palmas! SIM a ignorância foi ruidosa! Nas palavras do Presidente da CONFAP, esta é uma medida extremamente positiva, porquanto vai retirar stress desnecessário aos meninos! Stress? É caso para dizer que noção de stress tem este pseudo representante dos encarregados de educação. Se o objetivo é retirar stress aos alunos, então retirem os testes intermédios, retirem os exames nacionais, esses sim causadores de níveis elevados de stress. Já agora retirem todas as avaliações pois, todas elas, sem exceção, causam stress aos alunos. Adotemos um processo em que os meninos não tenham que enfrentar stress, não tenham que se esforçar, se superar, se empenhar, se deparar com o insucesso.

Mas retomemos a medida iluminada que o Sr. Ministro Catro resolveu associar à panóplia que anuncia para o novo ano letivo, designadamente a possibilidade que abre da diminuição da carga horária da Educação Física, que levada ao extremo pode fazer desaparecer esta área disciplinar do currículo escolar dos alunos destes níveis de ensino. A esta medida acresce, ainda, a diminuição do tempo para o Desporto Escolar. Face a esta diminuição drástica, que muito provavelmente ocorrerá em muitas escolas, é caso para nos interrogarmos: que tipo de cidadão quer o Sr. Ministro formar? Onde fica a componente antropológica nesta nova configuração curricular? Que consequências formativas aportará? Onde fica a noção de desenvolvimento integral e integrado? As respostas apontam todas no mesmo sentido, a de uma formação mais empobrecida, em que a componente educativa se desvanece no reforço pelas áreas que aparecem com a designação de “fortes”, em detrimento das designadas “fracas”. O esvaziar da componente experimental e das áreas de aplicação é confrangedor. Já o resultado poderá ser catastrófico.

Reportemo-nos à previsível diminuição da carga horária da disciplina da Educação Física e do Desporto Escolar e facilmente percebemos que o Sr. Ministro pretende formar cidadãos que não sabem lidar com o seu próprio corpo, que não desenvolveram noções de superação, de partilha, de trabalho em equipa, de cooperação. Sim, por que é disso que se trata. Na Educação Física o corpo, o jogo e o movimento, envoltos no valor do desporto estão presentes. Sendo assim, o recuo a que assistimos é de anos, é o retomar da dualidade corpo, espírito, é o retomar da noção de disciplinas importantes e das outras. A ignorância é atrevida, como é que se pode considerar de complementar O CORPO. O que somos nós sem o nosso corpo? Não é que sejamos apenas o nosso corpo, contudo muito daquilo que somos passa pelo nosso corpo. Basta pensarmos que a autoconfiança, a autoestima, depende, e muito, pelo modo como aceitamos e habitamos o nosso corpo! E a Educação Física, enquanto prática, comporta todos estes elementos de índole antropológica. Permitam-me que refira as palavras do professor Jorge Olímpio Bento, Diretor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, proferidas numa carta aberta ao Sr. Ministro da Educação, a propósito desta temática: “Prescindir do desporto ou afrouxar na sua promoção e no cultivo do seu ideário equivale a empobrecer os cidadãos nas dimensões técnicas e motoras, éticas e estéticas, cívicas e morais, anímicas e volitivas; e a favorecer a proliferação do laxismo e relativismo, do individualismo e da indiferença”.

Não é possível mantermo-nos indiferentes a tamanho ataque à educação e à formação. É necessário restituir o lugar que pertence à EDUCAÇÃO nos currículos escolares dos vários níveis de ensino. Não é ético impossibilitar, de forma consciente e planeada, que as crianças e jovens acedam às oportunidades educativas a que têm direito.

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