Diversidade cultural – um desafio aos cuidados de saúde em Portugal

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Diversidade cultural – um desafio aos cuidados de saúde em Portugal

Autora: Ivete Monteiro

Filiação institucional: Enfermeira, Centro Hospital de Lisboa Central, EPE – Hospital Dona Estefânia.

E-mail: ivete.monteiro@gmail.com

Palavras-chave: saúde, multiculturalidade, migrante.

A globalização trouxe a facilidade de mobilização de pessoas, novas oportunidades e novas esperanças. Associada a esta realidade a crise económica atualmente vivenciada em muitos países, veio impulsionar o movimento migratório o qual continua a procurar não só melhores condições económicas e sociais, mas também intelectuais. Nos últimos anos assistiu-se a um acréscimo do número de imigrantes de diferentes culturas que escolheram o nosso país para se estabelecerem, constatando-se uma grande heterogeneidade deste grupo. As diferenças sentidas a nível da educação, salário, estrato social, práticas culturais, crenças e língua são notórias trazendo uma diversidade e uma riqueza que deve ser considerada quando se cuida desta população. Esta diversidade de culturas veio trazer aos profissionais de saúde novos desafios, sobre os quais importa refletir.

A saúde é entendida como um bem precioso e é um elemento revelador do nosso bem-estar físico, mental, social e económico. Os imigrantes são expostos a riscos acrescidos para a saúde que decorrem de fatores como a segurança pessoal, situação familiar, as condições de vida, falta de recursos económicos, falta de informação, barreiras linguísticas, discriminação e estigmatização [1], [2], [3] [4]. Estes fatores estão presentes no contacto diário que os profissionais de saúde estabelecem com estas populações e materializam-se no quotidiano dos hospitais e dos centros de saúde. As diferenças culturais existentes, as desconformidades entre os conceitos de saúde e doença e as expectativas distintas que caracterizam cada grupo condicionam o acesso aos serviços de saúde. Paralelamente, o desconhecimento da cultura própria de cada migrante, das suas crenças e das suas práticas, bem como os estereótipos associados a estas comunidades condicionam os profissionais de saúde na prestação de cuidados. A saúde assume uma dupla faceta onde o direito a cuidados de saúde por parte de toda a população, incluindo a população migrante, equilibra, ou deveria equilibrar, o dever de cuidar por parte dos profissionais de saúde. É desta estabilidade que devem resultar os cuidados de saúde individualizados, enquadrados num ambiente social e cultural únicos.

Em Portugal, a população migrante assume uma parcela importante da nossa população e contribui para o crescimento demográfico e económico do país. Mas estaremos preparados para dar uma resposta eficiente ao que os migrantes necessitam? O conhecimento dos fatores de risco é um dos primeiros passos para uma consciencialização e um cuidar culturalmente competente. No entanto, não é suficiente. Se é certo que existe uma consciencialização da problemática da saúde do migrante, por parte dos profissionais de saúde, os quais demonstram uma maior sensibilização para esta temática, também é verdade que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Desde já podemos começar com os motivos que levam o migrante aos serviços de saúde: situações de urgência, doença incapacitante de trabalhar, final de gravidez e saúde infantil. São situações pontuais que requerem uma intervenção no momento, um agir rápido para resolução de uma situação. Mas decorrem daqui algumas questões: Onde se faz o seguimento? Qual a atitude preventiva ou promotora da saúde que o migrante adota? Serão os profissionais de saúde elementos facilitadores da utilização dos serviços de saúde por parte dos migrantes? O conhecimento da situação de doença, do episódio de urgência, constitui muitas vezes uma parte ínfima da realidade do migrante, o qual considera os serviços de saúde como último recurso. Esta situação resulta do confronto entre o que a sociedade de acolhimento espera do migrante e o que ele sente quando está doente. As dificuldades sentidas na área da saúde são entendidas como um sinal de fraqueza e debilidade, por parte do migrante e constituem, para muitos, uma sobrecarga adicional para o país que acolhe os migrantes. A população que acolhe os migrantes cria expectativas e constrói modelos, idealizando pessoas com uma boa capacidade física, dispostas a trabalhar arduamente, se necessário, e que não tragam mais encargos e problemas para o país. Se o migrante não vai ao encontro destas expectativas, é visto como um fardo e é olhado com desconfiança. Este fardo é agravado, se aparecem problemas de saúde, que funcionam como um empecilho à rentabilidade que o imigrante poderia ter.

Na acessibilidade aos cuidados ressaltam-se alguns fatores que dificultam a utilização dos serviços de saúde pelos imigrantes: dificuldade na compreensão da língua, falta de informação, dificuldade na comunicação com os técnicos de saúde, conceitos diferentes de saúde e doença e recursos económicos escassos. Em simultâneo, é frequente constatar-se nos profissionais de saúde dificuldades na língua que afetam a comunicação, a falta de formação sobre práticas relacionadas com a saúde (comportamentos e atitudes), o desconhecimento sobre o direito e as condições de acesso ao Serviço Nacional de Saúde e os estereótipos de poder que muitos profissionais ainda adotam (“os migrantes é que têm de se adaptar”) condicionam esse acesso. Também nas situações de internamento muitas questões se colocam: É tido em conta o contexto cultural na prestação diária de cuidados? Estarão os nossos serviços preparados para um cuidar multicultural? O respeito da pessoa em todas as vertentes, incluindo a cultural, é assegurado? A preocupação com esta temática levou as unidades de saúde a investirem na formação dos seus profissionais, no estabelecimento de protocolos de cooperação com outros países e com associações de migrantes, na produção de material informativo, na identificação de boas práticas referentes aos migrantes. É fundamental encarar a saúde do migrante como bilateral, não nos limitando a formar os profissionais. Temos também que criar condições que facilitem o recurso dos migrantes aos serviços de saúde e repensarmos os nossos cuidados eliminando a inércia e os constrangimentos de cada uma das partes. Valorizar, incentivar, preocupar e estabelecer confiança deveriam ser palavras-chave nos cuidados de saúde ao migrante no sentido de crescermos e enriquecermos em conjunto, e com saúde!

Notas

[1] Saúde e migrações na UE [online]. (2007). Disponível em URL: [Consult. 07 abril 2012]:http://www.portaldasaude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/presidencia+ue/documentação/conclusoes+conf+saude+ue.htm.

[2] Ramos, Natália (2004). Psicologia Clínica e da Saúde. Lisboa: Universidade Aberta

[3] Ramos, Natália (2008).Interculturalidade e Comunicação nos Cuidados de Saúde. N. Ramos (org). Saúde, Migração e Interculturalidade. João Pessoa: EDUFPB, pp. 97-132.

[4] Rocha-Trindade, Maria Beatriz. (1995) Sociologia das Migrações. Lisboa: Universidade Aberta.

Esta entrada foi publicada em Saúde e Condições e Estilos de vida com as tags , , . ligação permanente.

Uma Resposta a Diversidade cultural – um desafio aos cuidados de saúde em Portugal

  1. Pingback: Plataforma Barómetro Social

Os comentários estão fechados